Partido de Bolsonaro busca ampliar bancada no Senado, enquanto prefeito de Ivinhema anunciou Vander Loubet, do PT, como um de seus candidatos.
O apoio declarado pelo prefeito de Ivinhema, Juliano Ferro (PL), ao candidato petista Vander Loubet para o Senado ganhou um novo componente: a possibilidade de a decisão política do prefeito provocar uma reação interna de seu próprio partido.
Como mostrou O Contribuinte, Juliano anunciou publicamente que seu primeiro voto para o Senado será destinado a Reinaldo Azambuja e que o segundo será de Vander Loubet, do PT.
“Meu segundo apoio é para Vander Loubet. Todo mundo sabe da minha proximidade com o Vander, já fiz três campanhas para ele”, declarou.
A escolha cria uma contradição política dentro do palanque montado pelo próprio prefeito.
Juliano permanece filiado ao partido de Jair Bolsonaro, declarou apoio a Flávio Bolsonaro para presidente, mas decidiu trabalhar também pela eleição de um candidato do PT ao Senado.
E é justamente o Senado uma das prioridades eleitorais nacionais do PL.
Senado é peça central do projeto do PL
Jair Bolsonaro e dirigentes do PL vêm tratando a ampliação da bancada de senadores como estratégica para o partido.
A lógica é simples: diferentemente da Câmara, onde as decisões são tomadas por 513 deputados, o Senado possui apenas 81 integrantes e exerce competências constitucionais exclusivas de grande relevância.
Cabe aos senadores, por exemplo, analisar indicações para o Supremo Tribunal Federal e outras autoridades, além de processar e julgar determinadas autoridades nos casos previstos pela Constituição.
Por isso, conquistar cadeiras no Senado tornou-se um dos principais objetivos eleitorais do campo político liderado por Bolsonaro.
É justamente nesse ponto que a decisão de Juliano ganha dimensão nacional.
Ao pedir voto para Vander Loubet, do PT, o prefeito do PL trabalha pela eleição de um candidato pertencente ao partido que está no campo político adversário ao projeto nacional de Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e do próprio Partido Liberal.
Juliano apoia Flávio, mas também ajuda candidato do PT
A peculiaridade ficou evidente no próprio vídeo publicado pelo prefeito.
Para presidente:
Flávio Bolsonaro (PL).
Para o Senado:
Reinaldo Azambuja e Vander Loubet (PT).
Juliano justificou o apoio ao petista afirmando que Vander foi parceiro de Ivinhema durante seus anos como prefeito.
“Já fiz três campanhas para ele”, afirmou.
Segundo Ferro, sua intenção é reconhecer aqueles que contribuíram com recursos e ações para o município.
A justificativa municipalista, entretanto, não elimina a divergência partidária: no plano nacional, PL e PT estão em lados opostos da disputa eleitoral.
PL já expulsou parlamentar por apoiar candidato do PT
Não seria a primeira vez que uma aproximação eleitoral com o PT provoca consequências internas no Partido Liberal.
O deputado federal Júnior Mano foi expulso do PL após apoiar Evandro Leitão (PT) na disputa pela Prefeitura de Fortaleza contra André Fernandes, candidato do próprio PL.
Mesmo após reafirmar sua relação com o presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, Júnior Mano manteve o apoio ao petista.
A divergência terminou com sua saída do partido.
O precedente chama atenção agora porque Juliano Ferro também tornou público seu apoio eleitoral a um candidato do PT.
Prefeito e vice também já foram expulsos
Outro episódio ocorreu no Espírito Santo.
O prefeito de Santa Maria de Jetibá, Ronan Zocoloto, e seu vice, Rafael Pimentel, eleitos pelo PL em 2024, foram expulsos da legenda depois de divergências relacionadas à aproximação da administração municipal com o governo estadual.
Segundo a direção partidária local, ambos haviam se afastado dos projetos políticos defendidos pelo PL.
O pedido de cancelamento das filiações foi posteriormente encaminhado à Justiça Eleitoral.
Outro prefeito do PL perdeu o partido em São Paulo
Em São Caetano do Sul, o prefeito Tite Campanella também acabou expulso do PL.
Nesse caso, a crise ocorreu depois de críticas feitas pelo prefeito à representação paulista no Senado, incluindo o senador Marcos Pontes, integrante da própria legenda.
Os episódios mostram que divergências públicas com a estratégia política da sigla já provocaram medidas disciplinares contra ocupantes de mandato.
Mato Grosso vive crise semelhante
A discussão também ocorre atualmente em Mato Grosso.
O senador Wellington Fagundes (PL) articula com o presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, providências contra prefeitos do partido que decidiram apoiar o projeto de reeleição do governador Otaviano Pivetta (Republicanos).
Entre os nomes citados estão os prefeitos de Cuiabá, Abilio Brunini; Rondonópolis, Cláudio Ferreira; Campo Novo do Parecis, Edilson Piaia; e Primavera do Leste, Sérgio Machnic.
A situação ainda envolve disputas locais e ameaças de expulsão que, conforme o próprio histórico relatado, nem sempre foram concretizadas.
E Juliano Ferro?
No caso de Juliano, o ponto central agora é saber qual será a reação da direção estadual e nacional do PL.
A declaração pública existe.
O apoio a Vander também.
E o próprio prefeito deixou claro que não se trata de uma manifestação circunstancial: Juliano afirmou que já participou de três campanhas eleitorais de Vander Loubet e pretende novamente trabalhar pela eleição do petista.
Isso coloca o prefeito de Ivinhema diante de uma discussão que já ocorreu com outros filiados do PL: até onde uma aliança municipal ou pessoal pode contrariar o projeto eleitoral nacional do partido sem configurar infração às regras internas da legenda?
“Prefeito mais louco do Brasil” abre mais um capítulo
Conhecido nacionalmente pelo apelido de “prefeito mais louco do Brasil”, Juliano Ferro volta a protagonizar uma situação incomum.
Desta vez, não por uma publicação irreverente nas redes sociais.
O prefeito decidiu atravessar uma das maiores divisões da política brasileira: faz campanha para o candidato presidencial do PL enquanto pede votos para um candidato ao Senado do PT.
E faz isso justamente em uma eleição na qual aumentar a bancada no Senado está entre os principais objetivos políticos do grupo liderado por Jair Bolsonaro.
Agora, a pergunta deixa de ser apenas por que Juliano decidiu apoiar Vander Loubet.
Passa a ser também como o próprio PL reagirá à escolha de um de seus prefeitos.