Decisão do juiz Eduardo Lacerda Trevisan ocorre um dia depois de Heitor Rodrigues Freire assumir a presidência; médico Luiz Alberto Kanamura terá 180 dias, prorrogáveis, para reorganizar o hospital e prestar contas mensalmente ao Judiciário.
A crise na Santa Casa de Campo Grande ganhou um novo e importante capítulo nesta quinta-feira (24). A Justiça nomeou o médico Luiz Alberto Kanamura para assumir provisoriamente a gestão do maior hospital de Mato Grosso do Sul pelo período de 180 dias, prorrogável por igual prazo.
A decisão é do juiz Eduardo Lacerda Trevisan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos de Campo Grande.
A medida ocorre apenas um dia depois de Heitor Rodrigues Freire, então vice-presidente, assumir o comando da instituição no lugar de Alir Terra Lima, que havia deixado a presidência após ser presa preventivamente na Operação Antidotum.
Com a determinação judicial, Kanamura passa a ocupar o centro da administração hospitalar justamente no momento em que a instituição enfrenta uma combinação de crise financeira, problemas administrativos e os desdobramentos de uma investigação criminal que atingiu integrantes de sua antiga cúpula.
Justiça aponta risco à continuidade dos serviços
Ao determinar a gestão provisória, Trevisan considerou o cenário administrativo e financeiro enfrentado pela Santa Casa e o risco de comprometimento da continuidade dos serviços hospitalares.
Kanamura permanecerá na função inicialmente por 180 dias.
Esse prazo poderá ser prorrogado por mais 180 dias.
A gestão também ficará sob acompanhamento direto do Judiciário.
O médico deverá apresentar relatórios mensais à Justiça, detalhando a situação operacional da Santa Casa e as providências adotadas para promover uma reorganização geral da instituição.
Na prática, o novo comando não terá apenas a missão de manter o hospital funcionando. Terá também de demonstrar periodicamente ao Judiciário quais medidas estão sendo tomadas para enfrentar a crise.
Kanamura já estava na estrutura da Santa Casa
Luiz Alberto Kanamura não chega como um nome de fora da instituição.
Médico com atuação de vários anos na Santa Casa, ele já exerceu diferentes funções de direção dentro do hospital.
Um dia antes da decisão judicial, Kanamura havia assumido a função de superintendente técnico-hospitalar.
Agora, por determinação da Justiça, passa a responder pela gestão provisória da instituição.
Mudança acontece após saída de Alir
A intervenção no comando ocorre poucos dias depois de uma sequência de mudanças provocadas pela Operação Antidotum.
Alir Terra Lima, que havia sido reconduzida para comandar a Santa Casa no triênio 2026/2028, foi presa preventivamente no dia 11 de setembro.
Posteriormente, Alir apresentou uma carta de renúncia “irrevogável e irretratável”, abrindo mão tanto da presidência quanto do cargo de conselheira.
Na carta, ela afirmou que sua saída definitiva permitiria à instituição manter uma “gestão plena” e possibilitaria ao novo presidente e aos demais órgãos administrativos tomarem decisões.
Com a vacância, o vice-presidente Heitor Rodrigues Freire assumiu o comando.
A permanência dele à frente da gestão, porém, durou apenas um dia antes da decisão que colocou Kanamura na administração provisória.
Antidotum levou seis pessoas à prisão
A mudança administrativa ocorre no rastro da Operação Antidotum, deflagrada em 11 de setembro pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul, por meio do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) e com atuação do Gaeco no cumprimento das medidas.
Foram cumpridos seis mandados de prisão preventiva e 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia (GO).
Entre os presos preventivamente estavam Alir Terra Lima e integrantes ou ex-integrantes de setores estratégicos da administração hospitalar.
As prisões têm natureza cautelar e não representam condenação.
Contrato de R$ 5,4 milhões está no centro da investigação
Uma das principais frentes da Antidotum investiga o contrato firmado pela Santa Casa para a digitalização de prontuários.
O contrato previa pagamentos de aproximadamente R$ 1,8 milhão por ano, com vigência de três anos, podendo chegar a R$ 5,4 milhões.
Segundo o Gecoc, ocorreram pagamentos elevados sem a correspondente prestação dos serviços contratados.
O Ministério Público sustenta que, somente no primeiro ano, o prejuízo relacionado a essa frente teria alcançado aproximadamente R$ 1,4 milhão.
O relatório da investigação também descreve problemas anteriores à própria formalização da contratação. Entre os elementos encontrados está o envio, pelo empresário Maurício Benites a Rinaldo Hakme Romano, de uma minuta editável do futuro contrato, antes de sua formalização.
As acusações são objeto da investigação e deverão ser submetidas ao contraditório.
Santa Casa Saúde também entrou na mira
Outro braço da investigação alcançou contratos celebrados pela Operadora Santa Casa Saúde, controlada pela Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande.
Segundo o Gecoc, diferentes empresas relacionadas a um mesmo grupo econômico receberam aproximadamente R$ 9,6 milhões somente em 2025.
O Ministério Público afirma que empresas investigadas estavam registradas no mesmo endereço, embora diligências tenham apontado ausência de funcionamento efetivo no local. O relatório também descreve sucessivas contratações envolvendo cobrança, planos de saúde, telemedicina, publicidade e outras atividades.
O prejuízo mínimo apontado nessa frente, conforme os dados divulgados pelo Gecoc, é de aproximadamente R$ 3,5 milhões.
Documentos teriam sido sonegados de órgãos de controle
Outro ponto central da Antidotum envolve a transparência das contas da instituição.
Segundo o Gecoc, contratos, pagamentos e documentos relacionados às prestações de contas teriam sido sistematicamente dificultados ou sonegados dos órgãos de fiscalização, incluindo o Conselho Fiscal da Santa Casa e a Controladoria-Geral do Estado.
A discussão sobre transparência já havia chegado ao Judiciário antes mesmo da operação.
Em uma das decisões envolvendo a apresentação das contas, o próprio juiz Eduardo Lacerda Trevisan, que agora determinou a gestão provisória, registrou:
“Registro, ainda, meu espanto ante ao fato de a Associação Beneficente Santa Casa ser tão reticente em mostrar suas contas.”
O episódio aparece no material reunido pelo Ministério Público na investigação.
Crise vai além da investigação
A decisão judicial acontece também diante de uma crise que já vinha sendo sentida dentro do hospital antes das prisões.
A Santa Casa enfrentou dificuldades financeiras, problemas com fornecedores, atrasos relacionados a profissionais e momentos de suspensão de procedimentos.
Médicos e demais trabalhadores passaram a conviver diretamente com os reflexos da falta de recursos e da instabilidade administrativa.
É justamente nesse cenário que a nomeação de Kanamura ganha peso.
Além dos efeitos da Antidotum, o novo gestor terá de lidar com o funcionamento diário de uma estrutura responsável por atendimento de alta complexidade e essencial para o sistema público de saúde de Mato Grosso do Sul.
180 dias para reorganizar a Santa Casa
A decisão da Justiça inaugura, portanto, uma nova etapa.
Em menos de duas semanas, a Santa Casa viu sua presidente ser presa preventivamente, a antiga gestão ser atingida por dezenas de mandados, Alir renunciar definitivamente, o vice-presidente assumir o comando e, agora, um gestor provisório ser colocado à frente da administração por decisão judicial.
Kanamura terá inicialmente 180 dias.
Durante esse período, sua gestão será acompanhada pelo Judiciário por meio dos relatórios mensais determinados por Trevisan.
O objetivo estabelecido na decisão é enfrentar a crise administrativa e financeira, reorganizar o hospital e, principalmente, garantir que os problemas de gestão não coloquem em risco a continuidade dos serviços prestados aos pacientes da Santa Casa