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Liberdade de expressão criminalizada: entenda o caso da influenciadora “coach irônica”, que teve a prisão preventiva decretada

Relatório do Ministério Público e decisões judiciais mantêm influenciadora presa com base em publicações nas redes sociais, levantando debate sobre criminalização da opinião, lawfare e violação ao direito de responder em liberdade.

O Portal O Contribuinte assume, de forma clara e responsável, uma posição editorial em defesa da liberdade de expressão e da liberdade artística, princípios fundamentais do Estado Democrático de Direito. É sob essa ótica que este portal analisa a prisão preventiva da influenciadora digital Daniele Santana Gomes, conhecida como “coach irônica”, hoje mantida em cárcere por decisão judicial que acolheu integralmente o parecer do Ministério Público de Mato Grosso do Sul.

O que se discute aqui não é a existência de conflitos pessoais ou familiares, tampouco a legitimidade das instituições, mas o uso do discurso, da crítica e da opinião como eixo central para a supressão da liberdade.

Um relatório que muda o foco do processo

O pedido de prisão preventiva formulado pelo Ministério Público teve origem no descumprimento de medidas protetivas, fato que, por si só, é grave e deve ser apurado com rigor.

No entanto, o que causa estranheza é a evolução do fundamento utilizado para justificar a manutenção da prisão.

Ao longo de um relatório extenso, com cerca de 79 páginas, o Ministério Público passa a concentrar a argumentação não apenas no suposto descumprimento, mas principalmente na forma como a influenciadora utiliza suas redes sociais, interpretando publicações, vídeos e ironias como violência psicológica continuada.

O relatório sustenta que a influenciadora faria uso “irregular” das redes sociais, extrapolando os limites da liberdade de expressão, e que isso tornaria ineficazes quaisquer medidas cautelares diversas da prisão.

É justamente nesse ponto que o debate se torna preocupante.

Quando a opinião vira fundamento para prisão

As próprias decisões judiciais reconhecem que:

– não há menção nominal às supostas vítimas nas publicações

– não há exposição de endereços ou dados pessoais

– não há identificação direta e objetiva dos alvos

As postagens atribuídas à influenciadora são lúdicas, simbólicas e irônicas, marca registrada de sua atuação digital.

Ainda assim, a interpretação adotada é a de que tais conteúdos configurariam descumprimento deliberado de ordens judiciais, mesmo quando a identificação decorre de autorreconhecimento por parte de quem se sentiu atingido.

A pergunta que se impõe é inevitável:

Desde quando opinião, ironia e crítica genérica passaram a ser crime apto a justificar prisão preventiva?

A criminalização da opinião não existe no ordenamento jurídico brasileiro. O que existe são limites claros: vedação à calúnia, difamação, ameaça concreta, exposição de dados pessoais. Nenhum desses elementos aparece de forma objetiva nas publicações atribuídas à influenciadora.

Denúncias contra poderosos e o contexto que não pode ser ignorado

Outro elemento que não pode ser dissociado do caso é o histórico de atuação da influenciadora.

A “coach irônica” utilizou suas redes sociais para:

– denunciar médicos influentes

– criticar influenciadores poderosos

– questionar pastores, agentes públicos e membros de instituições do Estado

Em diversas ocasiões, tratava-se de fatos que já estavam sendo investigados pelo próprio Ministério Público ou que haviam sido amplamente noticiados pela imprensa.

Isso reforça a sensação, compartilhada por apoiadores da influenciadora, de que a manutenção de sua prisão vai além de um conflito específico e se aproxima de uma tentativa de silenciamento.

Ré primária, prisão extrema

Daniele Santana Gomes é ré primária, sem condenações transitadas em julgado.

No próprio pedido ministerial, constava a possibilidade de adoção de medidas cautelares alternativas, como:

– monitoração eletrônica (tornozeleira)

– reforço das medidas protetivas

– restrições específicas quanto ao uso das redes

Ainda assim, o Judiciário optou pela medida mais gravosa, afastando a possibilidade de que a influenciadora responda ao processo em liberdade.

No direito penal brasileiro, a prisão preventiva é exceção, não regra. Réus primários, sem violência física iminente, tradicionalmente respondem em liberdade, justamente para evitar punição antecipada.

O alerta que fica

O Portal O Contribuinte entende que prender alguém em razão da forma como se expressa nas redes sociais, ainda que o conteúdo seja ácido, agressivo ou incômodo, fere frontalmente o princípio da liberdade de expressão.

Hoje é uma influenciadora.

Amanhã pode ser qualquer cidadão.

Todas as partes têm direito à ampla defesa.