Renata Lo Prete cobrou explicações sobre pedido de vista de Flávio Dino; presidente defendeu a autonomia do ministro indicado por seu governo e afirmou não saber avaliar juridicamente a decisão
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) saiu em defesa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), durante entrevista à jornalista Renata Lo Prete, na TV Globo, nesta quinta-feira (15). Ao ser questionado sobre as controvérsias envolvendo o Banco Master, o banqueiro Daniel Vorcaro e integrantes da Suprema Corte, Lula atribuiu parte das críticas contra Moraes à atuação do magistrado nos processos envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.
“A extrema-direita tenta jogar a Suprema Corte nas minhas costas. Eles querem cassar o Alexandre de Moraes não apenas pelo Banco Master, mas porque Moraes prendeu o pai de Flávio Bolsonaro. Essa é a questão que está em jogo”, afirmou Lula.
A declaração ocorre em meio a uma sucessão de reportagens e documentos que levantaram questionamentos sobre as relações entre Moraes, integrantes de sua família e o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
A controvérsia, entretanto, não se resume às decisões judiciais contra Jair Bolsonaro.
Ao longo dos últimos meses, informações divulgadas pela imprensa e documentos atribuídos às investigações da Polícia Federal trouxeram à discussão contratos milionários, mensagens, registros de encontros e possíveis relações entre o banqueiro e o entorno do ministro.
Entenda as principais revelações envolvendo Moraes e Daniel Vorcaro
1. Contrato de aproximadamente R$ 130 milhões com escritório da esposa de Moraes
Uma das principais revelações envolvendo o Banco Master foi a contratação do escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, ligado à advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes.
Reportagens atribuídas a O Globo e ao Estadão revelaram um contrato de prestação de serviços jurídicos que previa pagamentos milionários ao escritório.
Os valores noticiados variaram conforme a apresentação dos documentos e os critérios de cálculo, chegando a aproximadamente R$ 129 milhões e R$ 131,2 milhões para a contratação.
Uma das versões documentais divulgadas previa remuneração mensal de aproximadamente R$ 3,6 milhões, durante três anos.
Reportagens posteriores também apontaram pagamentos efetivamente realizados, estimados em R$ 80,2 milhões entre 2024 e 2025.
O escritório apresentou esclarecimentos sobre os serviços prestados, mencionando uma equipe de advogados, reuniões e pareceres jurídicos.
2. Outro negócio de R$ 50 milhões envolvendo empresa ligada a Vorcaro
Além do contrato com o Banco Master, materiais anteriormente divulgados sobre o caso apontaram uma segunda negociação, estimada em R$ 50 milhões, envolvendo a Viking Participações e o escritório Barci de Moraes.
A negociação teria relação com empresas ligadas ao grupo de Daniel Vorcaro e com estruturas empresariais associadas à propriedade de aeronaves.
O escritório negou que esse segundo contrato tenha sido assinado.
3. Mensagens e relatos de encontros entre Moraes e Daniel Vorcaro
Outro ponto de repercussão envolve registros encontrados em materiais atribuídos ao celular de Daniel Vorcaro, apreendido durante as investigações.
Reportagens mencionaram referências a encontros com Alexandre de Moraes em Brasília e em Campos do Jordão, além de contatos realizados em diferentes momentos de 2024 e 2025.
Entre as mensagens divulgadas está um registro de abril de 2025 em que Vorcaro teria informado a uma interlocutora que estava indo encontrar Alexandre de Moraes perto de casa.
Outros materiais jornalísticos mencionaram a possibilidade de pelo menos seis encontros entre os dois, enquanto reconstruções posteriores apontaram até oito ocasiões.
O número exato de reuniões, as circunstâncias de cada encontro e os assuntos efetivamente discutidos precisam ser individualmente demonstrados.
Os registros alimentaram questionamentos sobre a proximidade entre o ministro e o banqueiro, mas encontros pessoais, isoladamente, não comprovam interferência em decisões judiciais ou prática criminosa.
4. Contatos às vésperas da prisão de Daniel Vorcaro
Um dos episódios que mais chamaram atenção nas reportagens diz respeito a mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro em 17 de novembro de 2025, data de sua prisão.
Segundo informações anteriormente publicadas por O Globo, mensagens extraídas do aparelho do banqueiro levantaram dúvidas sobre possíveis contatos com Alexandre de Moraes durante as horas que antecederam a operação policial.
Uma das mensagens divulgadas continha a pergunta: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”
Também foram noticiados registros de mensagens de visualização única, cujo conteúdo não pôde ser recuperado integralmente.
5. Aeronaves vinculadas a empresas do grupo de Vorcaro
A relação entre empresas ligadas ao banqueiro e aeronaves também apareceu em materiais relacionados ao caso.
Informações anteriormente discutidas sobre a Viking Participações mencionaram estruturas societárias associadas a um avião Legacy 650 e a um helicóptero Airbus.
Também surgiram referências a possíveis deslocamentos em aeronaves vinculadas ao grupo empresarial.
6. Mensagens que levantaram dúvidas sobre a proximidade pessoal
Registros atribuídos às investigações também trouxeram mensagens de Daniel Vorcaro que sugeririam uma relação de confiança com pessoas influentes.
Em um dos textos anteriormente divulgados, o banqueiro teria afirmado que ele e sua família possuíam uma “dívida de vida” com o destinatário.
A mensagem foi associada, nas discussões sobre o caso, à possível proximidade com Alexandre de Moraes, mas o ministro contestou o recebimento de determinados conteúdos atribuídos a ele.
Renata Lo Prete questiona Lula sobre Flávio Dino
Durante a entrevista desta quinta-feira, Renata Lo Prete também confrontou o presidente sobre a atuação do ministro Flávio Dino, indicado por Lula ao Supremo Tribunal Federal.
O questionamento envolveu um pedido de vista atribuído a Dino, que teria interrompido o julgamento de um processo relacionado à apuração de questões envolvendo Alexandre de Moraes no caso Banco Master.
A jornalista questionou como o governo poderia transmitir confiança no esclarecimento dos fatos diante de uma iniciativa processual tomada por um ministro considerado aliado histórico do presidente.
Na resposta, Lula ampliou a discussão para outros integrantes da Suprema Corte.
“Era o mais implicado. O Toffoli também tá implicado. O André Mendonça também tá implicado e o Kassio tá implicado. Agora tá todo mundo implicado”, declarou Lula, conforme o trecho da entrevista relatado.
A resposta chama atenção porque o presidente passou a mencionar Dias Toffoli, André Mendonça e Kassio Nunes Marques, em vez de concentrar sua explicação nos questionamentos dirigidos a Moraes.
Ao ser pressionado sobre a decisão de Flávio Dino, Lula defendeu que o pedido de vista é uma prerrogativa do ministro e afirmou não possuir conhecimentos jurídicos suficientes para avaliar o acerto da decisão.
“Eu não tenho nenhum conhecimento jurídico pra saber se o Flávio Dino tava certo ou não”, respondeu o presidente.
Lula também afirmou que nunca pediu favores a ministros do Supremo, incluindo aqueles indicados por ele próprio.
A entrevista ocorreu a dez dias do segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro, entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Ao defender Alexandre de Moraes publicamente e justificar a autonomia de Flávio Dino, o presidente levou para o centro do debate eleitoral uma controvérsia que envolve não apenas seus adversários políticos, mas também questões de transparência e confiança nas instituições.
O ponto que permanece em discussão é se as explicações apresentadas até agora são suficientes para esclarecer as relações reveladas pela imprensa e quais medidas institucionais cabem para examinar eventuais irregularidades sem interferência política.