Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury já se posicionaram; presidente ainda não comentou as revelações que também alcançam o PGR indicado por ele.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não se manifestou publicamente sobre as novas revelações envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, o banqueiro Daniel Vorcaro e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Até a publicação desta matéria, Lula era o único entre os principais candidatos à Presidência que não havia apresentado uma posição sobre o relatório da Polícia Federal, as mensagens atribuídas a Vorcaro e a participação de Moraes no contrato de aproximadamente R$ 131,2 milhões firmado pelo Banco Master com o escritório de sua esposa.
O silêncio ganha relevância porque Paulo Gonet, também citado no material, foi escolhido por Lula para comandar a Procuradoria-Geral da República e posteriormente reconduzido pelo presidente ao cargo.
Enquanto os adversários eleitorais cobram investigação, afastamento ou renúncia de Moraes, Lula evita responder publicamente se considera necessária uma apuração independente e se Gonet possui condições de continuar atuando no caso.
Adversários já apresentaram posição
Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos defenderam a saída de Moraes do Supremo depois da divulgação das mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro.
Augusto Cury adotou uma posição diferente: pediu uma investigação rigorosa e defendeu mudanças estruturais no Poder Judiciário, incluindo mandato com prazo determinado para ministros do STF.
Segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo, Lula não havia se manifestado sobre o caso até então.
As posições dos demais candidatos variam na intensidade e nas consequências defendidas, mas todos romperam o silêncio sobre as revelações.
Lula, até agora, não.
Gonet foi escolhido por Lula
Paulo Gonet chegou ao comando da PGR por indicação de Lula. A escolha foi submetida ao Senado, que aprovou seu nome, e formalizada pelo presidente da República.
Essa relação institucional torna o silêncio do Planalto ainda mais significativo.
O procurador-geral aparece citado nas comunicações atribuídas a Vorcaro e, depois da divulgação do relatório, pediu ao STF a anulação do documento produzido pela Polícia Federal.
Gonet sustenta que André Mendonça ultrapassou sua competência ao ordenar uma análise que terminou com 188 páginas dedicadas a Alexandre de Moraes. Para o chefe da PGR, uma investigação contra ministro do Supremo dependeria de autorização prévia do plenário.
A PF afirma que não abriu uma investigação autônoma contra Moraes e apenas organizou dados já existentes no celular de Vorcaro, apreendido durante a Operação Compliance Zero.
Lula ainda não informou se considera adequada a atuação de Gonet nem se entende que o procurador-geral deveria se declarar impedido por aparecer no material questionado.
Vorcaro mencionou “Paulo” nas mensagens
Em uma das comunicações reveladas, Vorcaro pergunta a um contato identificado como Alexandre de Moraes:
“Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso.”
A Polícia Federal relaciona as referências a Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, diretor-geral da corporação.
Em outras mensagens, o banqueiro relata que seus advogados teriam conversado com “Paulo” e que o assunto estaria sendo acompanhado pessoalmente.
Essas comunicações não comprovam, isoladamente, que Gonet tenha transmitido informações ou atendido aos pedidos de Vorcaro. Elas exigem, entretanto, esclarecimentos sobre a relação descrita pelo banqueiro e sobre a independência do procurador-geral para se manifestar no procedimento.
Apesar disso, o chefe da PGR pediu a nulidade do relatório que contém as referências ao seu nome.
O presidente responsável por sua indicação não comentou essa situação.
Lula também não se manifesta sobre Moraes
O silêncio presidencial também alcança Alexandre de Moraes.
Metadados do contrato encontrado no celular de Vorcaro indicam que uma versão do documento entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes foi modificada em um perfil do Office 365 identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
O escritório confirmou que Moraes foi consultado e teve acesso ao arquivo. Segundo a explicação apresentada, o ministro analisou eventuais impedimentos legais à contratação e concluiu que não havia obstáculo.
Além do contrato, o relatório registra mensagens nas quais Vorcaro pede ajuda para tentar alcançar Gonet e Andrei Rodrigues.
Dois dias antes de ser preso, o banqueiro também perguntou:
“Acha que segunda já tenho que estar fora?”
O conteúdo integral das eventuais respostas de Moraes não foi divulgado. O ministro negou ter recebido determinadas mensagens e classificou as acusações como “ilação mentirosa”.
Lula não informou se acredita que Moraes deva ser investigado, se considera suficientes as explicações apresentadas ou se apoia a realização de uma sessão pública no plenário do Supremo.
Campanha petista se movimenta nos bastidores
Embora Lula permaneça sem uma manifestação direta, integrantes de sua campanha já discutem como reagir politicamente ao caso.
Segundo a Folha de S.Paulo, aliados pretendem usar a divulgação das mensagens entre Moraes e Vorcaro para pedir o levantamento do sigilo de outra investigação, relacionada ao filme Dark Horse e a Flávio Bolsonaro.
A estratégia revelada pela imprensa indica que o entorno de Lula avalia utilizar a crise para atingir seu principal adversário eleitoral, em vez de enfrentar diretamente as acusações que alcançam Moraes e Gonet.
Essa movimentação de campanha não equivale a uma manifestação do presidente sobre o mérito das revelações.
Até agora, Lula não respondeu às perguntas centrais do caso.
Caso também se aproxima do Planalto
A crise do Banco Master não está distante do governo federal.
Além de Gonet ter sido indicado por Lula, Andrei Rodrigues foi nomeado pelo presidente para comandar a Polícia Federal.
O caso também envolve registros anteriores de contatos e conexões de Vorcaro com integrantes da política nacional. Por isso, qualquer tentativa do Planalto de tratar as revelações como um problema exclusivo do Supremo deixa de enfrentar a dimensão completa da crise.
Lula ocupa a Presidência, é candidato à reeleição e exerce influência direta sobre a escolha dos chefes da PGR e da Polícia Federal.
Seu silêncio não é o mesmo que o silêncio de um observador sem responsabilidade institucional.
Silêncio também é uma escolha política
Permanecer em silêncio pode ser uma estratégia para evitar conflito com Moraes, Gonet e o comando da Polícia Federal em pleno período eleitoral.
Também pode refletir o receio de fortalecer o discurso dos candidatos que defendem o impeachment do ministro.
Mas, diante da gravidade das informações, o silêncio não representa neutralidade.
Lula é chefe do Executivo, candidato à Presidência e responsável político pela indicação de Gonet. A sociedade tem o direito de saber se o presidente mantém confiança no procurador-geral e se considera adequada sua tentativa de anular o relatório no qual ele próprio aparece citado.
Também precisa saber se Lula considera aceitável que um banqueiro contratado pelo escritório da família de um ministro do STF o procure para pedir auxílio junto à PGR e à direção da Polícia Federal.
O Contribuinte apresenta os questionamentos
O Contribuinte considera necessárias respostas objetivas do presidente:
Lula defende a investigação formal de Alexandre de Moraes?
O presidente mantém confiança em Paulo Gonet?
Gonet deveria se declarar impedido no caso Banco Master?
Lula concorda com o pedido de anulação do relatório da PF?
O presidente apoia uma sessão pública do plenário do STF?
Andrei Rodrigues deve explicar as referências feitas por Vorcaro?
O governo tinha conhecimento das comunicações ou dos pedidos atribuídos ao banqueiro?
O espaço permanece aberto à Presidência da República, à campanha de Lula e às autoridades mencionadas.
Até que alguma resposta seja apresentada, permanece o fato político: enquanto seus adversários já se posicionaram, Lula é o único entre os principais presidenciáveis que ainda não falou publicamente sobre a crise que envolve Moraes, Vorcaro e o procurador-geral escolhido por seu próprio governo.