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Moraes critica quem abandonou mídia tradicional e acompanha notícias pelas redes sociais; “lavagem cerebral”

Ao comentar perda de influência da mídia tradicional, ministro afirmou que parte da população segue informações de suas “bolhas” como uma “religião fanática”.

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), voltou a fazer duras críticas ao ambiente das redes sociais e, desta vez, direcionou sua fala também ao crescimento dos influenciadores digitais e à perda de audiência e credibilidade da imprensa tradicional junto a uma parcela da população.

Em declaração que repercute justamente pelo reconhecimento da mudança no consumo de informação dos brasileiros, Moraes afirmou que influenciadores atualmente conseguem alcançar uma audiência superior à do Jornal Nacional e até mesmo do conjunto dos telejornais.

Mas, em vez de tratar o fenômeno apenas como uma transformação natural provocada pela internet e pela liberdade de escolha do público, o ministro relacionou essa mudança ao descrédito da imprensa tradicional e utilizou expressões como “religião fanática” e “lavagem cerebral” para definir o comportamento de pessoas que passaram a consumir informações dentro de suas próprias bolhas digitais.

“Influencer tem mais audiência do que o Jornal Nacional e todos os telejornais. Isso foi trabalhado para desacreditar. Quantas pessoas vocês conhecem que não acreditam mais na mídia tradicional e que seguem, como se fosse uma religião fanática, tudo o que a bolha passa como notícia? Lavagem cerebral”, afirmou Moraes.

A declaração coloca novamente no centro da discussão uma visão que o ministro vem manifestando há anos sobre as redes sociais e o poder adquirido pelas plataformas digitais.

Influenciadores maiores que telejornais

Um dos pontos mais reveladores da própria fala de Moraes é o reconhecimento da mudança radical pela qual passou o mercado de comunicação.

Durante décadas, grandes emissoras de televisão, jornais impressos e revistas praticamente monopolizaram a distribuição de informação em escala nacional.

A internet mudou esse cenário.

Hoje, jornalistas independentes, influenciadores, comentaristas, produtores de conteúdo e até cidadãos comuns podem falar diretamente com milhões de pessoas sem depender da estrutura de uma emissora de televisão ou de um grande grupo de comunicação.

É justamente essa transformação que aparece na fala do ministro.

Ao declarar que determinados influenciadores possuem audiência superior à do Jornal Nacional e de outros telejornais, Moraes reconhece que parte significativa da população passou a escolher outras fontes para consumir informação.

O tom empregado pelo ministro, contudo, foi de forte crítica a essa mudança.

Para Moraes, pessoas que deixaram de confiar na imprensa tradicional e passaram a acompanhar conteúdos dentro das redes podem estar submetidas a uma espécie de “bolha” informacional.

“Religião fanática”

A comparação utilizada pelo ministro chamou atenção.

Moraes afirmou que existem pessoas que acompanham aquilo que circula dentro de determinados grupos digitais “como se fosse uma religião fanática”.

Na sequência, definiu o fenômeno como “lavagem cerebral”.

A declaração tende a provocar reação principalmente entre produtores de conteúdo independentes e usuários que enxergam justamente na internet uma possibilidade de escapar da antiga concentração da informação nas mãos de poucos veículos.

A questão central passa a ser: quem deve escolher quais veículos merecem credibilidade?

Para quem defende uma internet mais aberta, a resposta é o próprio cidadão.

Nada impede que uma pessoa assista diariamente a um telejornal. Da mesma forma, nada deveria impedir que outra decida abandonar a televisão e buscar informações por meio de podcasts, canais no YouTube, páginas independentes, portais regionais ou influenciadores.

É justamente essa liberdade de escolha que permitiu o surgimento de novos protagonistas da comunicação brasileira.

Moraes e a regulação das redes

A manifestação também não surge isoladamente.

Nos últimos anos, Alexandre de Moraes tornou-se uma das principais vozes dentro do Poder Judiciário brasileiro na defesa de maior responsabilização das plataformas digitais e de regras mais rígidas para o ambiente das redes sociais.

O ministro já sustentou em diferentes oportunidades que as plataformas não podem funcionar como uma espécie de ambiente sem regras e tem defendido mecanismos de responsabilização diante da publicação e circulação de conteúdos considerados ilícitos.

Esse posicionamento ganhou ainda mais relevância em meio aos debates envolvendo desinformação, ataques às instituições, responsabilidade das big techs e os limites da atuação das empresas que controlam redes sociais.

Críticos dessa visão apontam, entretanto, que qualquer tentativa de regulação precisa necessariamente respeitar a liberdade de expressão e evitar que o Estado passe a exercer poder excessivo sobre o debate público.

O receio é ainda maior quando autoridades deixam de discutir apenas crimes objetivamente definidos e passam a tratar conceitos amplos como “desinformação”, “ódio” ou conteúdo considerado prejudicial.

Internet retirou monopólio da informação

Há outro elemento que não pode ser ignorado.

As redes sociais não apenas criaram influenciadores. Elas quebraram uma estrutura de distribuição de informação que durante décadas esteve concentrada.

Antes, para uma opinião alcançar milhões de brasileiros, era praticamente indispensável estar em uma grande emissora, jornal ou revista.

Hoje, um celular é suficiente para que uma transmissão alcance públicos que, em alguns casos, superam emissoras inteiras.

Essa transformação atingiu diretamente o poder dos meios tradicionais.

Pessoas que anteriormente dependiam de um telejornal para acompanhar os acontecimentos passaram a receber informações em tempo real pelo X, Instagram, Facebook, YouTube, WhatsApp, Telegram e diversas outras plataformas.

É evidente que esse novo ambiente também possui problemas.

Fake news existem, informações falsas circulam e algoritmos podem contribuir para a criação de bolhas ideológicas.

Mas esses problemas não são exclusivos dos produtores independentes, tampouco tornam automaticamente legítimo tratar consumidores de determinados conteúdos como vítimas de “lavagem cerebral”.

Quem decide em quem confiar?

A fala de Moraes toca, ainda que indiretamente, em um dos principais conflitos da comunicação contemporânea.

Por décadas, grandes veículos decidiam quais fatos receberiam destaque e quais opiniões chegariam ao grande público.

A internet fragmentou esse poder.

O cidadão passou a ter uma quantidade praticamente ilimitada de opções.

Pode assistir à Globo e, segundos depois, conferir a versão apresentada por um jornalista independente. Pode ler um grande jornal e imediatamente consultar dezenas de outras fontes sobre o mesmo assunto.

É nesse cenário que muitos influenciadores conquistaram audiências superiores às de veículos tradicionais.

Eles não receberam concessões públicas de televisão nem dependem necessariamente de grandes estruturas empresariais. Cresceram porque milhões de pessoas decidiram acompanhá-los.

Questionar a qualidade ou a veracidade de determinado conteúdo é legítimo. Outra discussão, porém, é tratar a própria escolha do público por fontes alternativas como resultado de fanatismo ou “lavagem cerebral”.

Declaração expõe desconforto com nova realidade

No fim, talvez o trecho mais importante do discurso de Moraes seja justamente aquele em que ele admite aquilo que os números da internet já demonstram há anos: os grandes veículos deixaram de exercer sozinhos o poder de formar opinião pública no Brasil.

Influenciadores competem com apresentadores.

Podcasts disputam audiência com televisão.

Portais independentes concorrem com grandes jornais.

E qualquer brasileiro com um telefone celular pode produzir informação, contestar uma versão apresentada pela mídia tradicional ou criar sua própria audiência.

Moraes vê nesse ambiente riscos suficientemente graves para justificar uma atuação mais rigorosa sobre as plataformas.

Já os críticos da regulação enxergam exatamente o contrário: quanto maior a diversidade de vozes, maior deve ser o cuidado para que o combate a conteúdos ilícitos não se transforme em controle do debate público.

A declaração do ministro, ao classificar como “lavagem cerebral” o comportamento de parte dos brasileiros que abandonou a mídia tradicional, apenas amplia um debate que está longe de terminar: até onde o Estado pode avançar sobre uma internet cuja principal característica é justamente permitir que cada cidadão escolha quem deseja ouvir?