(67) 9 9689-6297 | ocontribuintebr@gmail.com

Morre Alcides Bernal, o ex-prefeito que enfrentou o sistema político e protagonizou uma das maiores crises da história de Campo Grande

Ex-prefeito de Campo Grande morreu aos 60 anos após sucessivas complicações cardíacas enquanto permanecia preso preventivamente. Sua trajetória foi marcada por uma vitória histórica nas urnas, pela primeira cassação de um prefeito da Capital, pelo retorno ao cargo e por uma investigação do Gaeco que concluiu haver articulação para garantir seu afastamento.

A morte de Alcides Jesus Peralta Bernal, ocorrida na madrugada desta segunda-feira (13), encerra uma das trajetórias políticas mais intensas, controversas e emblemáticas da história de Campo Grande.

Aos 60 anos, um dia antes de completar 61, Bernal morreu na Santa Casa da Capital após uma sequência de complicações cardíacas que se agravaram nas últimas semanas. Preso preventivamente desde março deste ano, ele estava sob custódia do Estado quando voltou a ser internado em estado grave, após ter recebido alta hospitalar e retornado ao Presídio Militar Estadual Fidelcino Rodrigues.

Segundo informações médicas obtidas pelo Portal O Contribuinte, o ex-prefeito sofreu choque cardiogênico, infarto agudo do miocárdio, trombose aguda dos stents implantados em procedimentos recentes, além de apresentar doença coronariana multiarterial severa e diabetes mellitus.

Sua morte encerra a história de um homem que, para seus apoiadores, jamais deixou de enfrentar um sistema político e institucional que buscou retirá-lo do poder desde os primeiros meses de governo. Essa percepção ganhou novos contornos anos depois, quando a Operação Coffee Break, conduzida pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), concluiu em relatório que houve uma articulação entre empresários e agentes políticos para garantir votos suficientes à cassação do então prefeito, episódio classificado pelos promotores como resultado de uma associação criminosa voltada ao afastamento do chefe do Executivo.

Bernal sempre sustentou que sua cassação não foi consequência apenas de divergências administrativas, mas de uma ação coordenada envolvendo setores da política e das instituições. Durante anos, repetiu publicamente que enfrentava interesses contrariados desde o momento em que assumiu a Prefeitura sem fazer parte dos grupos tradicionais que comandavam Campo Grande.

DA CELA AO HOSPITAL

Os últimos meses da vida de Bernal foram marcados por uma sucessão de acontecimentos dramáticos.

Preso preventivamente desde 24 de março deste ano, após o episódio que terminou com a morte do auditor fiscal aposentado Roberto Carlos Mazzini, no Jardim dos Estados, o ex-prefeito passou a apresentar um grave quadro cardiovascular.

Durante a prisão, sofreu um infarto agudo do miocárdio, foi submetido a cateterismos de urgência e passou por procedimentos para desobstrução das artérias coronárias, com implantação de stents.

Os laudos médicos anexados pela defesa apontavam doença coronariana multiarterial severa, alto risco cardiovascular e possibilidade concreta de evolução para novos infartos, arritmias graves, insuficiência cardíaca e morte súbita.

Com base nesses documentos, os advogados solicitaram a conversão da prisão preventiva em prisão domiciliar humanitária. Argumentaram que Bernal necessitava permanecer em repouso absoluto por, no mínimo, trinta dias após as cirurgias e que o ambiente prisional não oferecia as condições necessárias para sua recuperação.

Os pedidos foram negados pela Justiça de primeiro grau, pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul e também pelo Superior Tribunal de Justiça.

Mesmo diante do delicado estado de saúde, Bernal recebeu alta hospitalar na sexta-feira e retornou ao Presídio Militar.

Menos de quarenta e oito horas depois, voltou a passar mal.

No sábado, precisou ser novamente encaminhado à Santa Casa, onde foi internado na Ala Vermelha em estado considerado gravíssimo.

Na madrugada desta segunda-feira, não resistiu.

UMA HISTÓRIA QUE MARCOU A POLÍTICA DE CAMPO GRANDE

A morte de Bernal encerra muito mais do que uma trajetória individual.

Ela fecha um dos capítulos mais marcantes da política sul-mato-grossense nas últimas décadas.

Radialista, apresentador de televisão, advogado, vereador, deputado estadual e prefeito, Bernal construiu sua carreira sempre com forte apelo popular.

Filho de paraguaios, tornou-se conhecido inicialmente pelos microfones do rádio e pela televisão, consolidando uma base eleitoral expressiva principalmente entre as camadas populares e junto à comunidade paraguaia residente em Mato Grosso do Sul.

Em 2012, protagonizou uma das maiores vitórias eleitorais da história recente de Campo Grande ao derrotar Edson Giroto, candidato apoiado pelo então governador André Puccinelli e pelo então prefeito Nelsinho Trad.

Sem integrar os grandes grupos políticos que dominavam a Capital, venceu uma estrutura sustentada por um amplo arco de alianças partidárias e assumiu a Prefeitura prometendo romper com práticas administrativas que, segundo ele, haviam se consolidado ao longo de décadas.

Poucos meses depois, entretanto, iniciava-se uma sequência de confrontos que mudaria definitivamente sua história política.

Bernal afirmava que as pressões começaram ainda no início da gestão, quando passou a rejeitar o que chamava de “propostas indecentes” e percebeu movimentos políticos para inviabilizar sua administração.

A partir dali, viveria uma sucessão de crises institucionais que culminariam na primeira cassação de um prefeito da história de Campo Grande, no retorno ao cargo por decisão judicial e, posteriormente, nas revelações da Operação Coffee Break, investigação que alterou profundamente a interpretação dos bastidores daquele período.

A morte de Alcides Bernal encerra sua trajetória política, mas dificilmente encerrará o debate sobre um dos períodos mais turbulentos da história institucional de Mato Grosso do Sul. Seu nome permanecerá associado tanto à improvável vitória que rompeu uma hegemonia política quanto aos acontecimentos que transformaram sua administração em um dos casos mais emblemáticos da vida pública sul-mato-grossense.