Médico ginecologista e obstetra chega à disputa estadual embalado pelo desempenho de 2024 e promete defender saúde, mulheres, autistas e combate à corrupção.
A largada oficial da campanha do médico Ruy José Costa Neto, o Dr. Ruy Costa, mostrou neste sábado, 22, que a força eleitoral construída nas urnas de Três Lagoas em 2024 continua viva.
Uma multidão de apoiadores participou do ato que marcou o início da caminhada de Ruy Costa por uma cadeira na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul. Desta vez, o médico ginecologista e obstetra concorre a deputado estadual pelo Avante, partido com estrutura política maior do que aquela encontrada por ele há dois anos.
O cenário também é diferente.
Em 2024, Ruy entrou na disputa pela Prefeitura de Três Lagoas pelo Democracia Cristã, uma legenda com estrutura reduzida, pouco espaço na propaganda eleitoral e distante da máquina administrativa municipal. Mesmo assim, terminou a eleição na segunda colocação e saiu das urnas consolidado como o principal nome de oposição ao grupo político que governa o município.
Segundo os números oficiais da eleição municipal, Ruy Costa recebeu 16.027 votos, equivalentes a 28,88% dos votos válidos.
O vencedor, Cassiano Maia, recebeu 38.076 votos, ou 68,61%. Professor Vitor terminou com 1.392 votos, correspondentes a 2,51%.
Para um candidato que iniciou aquela disputa sem comandar grandes estruturas partidárias e enfrentando um grupo político estabelecido no poder municipal, os mais de 16 mil votos deram a Ruy um patrimônio eleitoral que agora será colocado à prova em uma disputa estadual.
De adversário da máquina a principal voz da oposição
A candidatura de Ruy Costa nasce diretamente do cenário político construído depois das eleições municipais.
Cassiano Maia chegou à Prefeitura apoiado pelo grupo do ex-prefeito Ângelo Guerreiro, que administrou Três Lagoas durante oito anos e atualmente também disputa uma cadeira de deputado estadual.
A atual administração representa, na prática política, a continuidade do grupo que comandou o município nos dois mandatos anteriores.
Do outro lado, Ruy passou a ocupar o espaço de principal voz daqueles que defendem uma mudança no comando político de Três Lagoas.
O próprio médico sustenta que enfrenta um modelo político que, segundo ele, se perpetua há aproximadamente 18 anos no município.
“Sou a principal voz de oposição na cidade, onde há um modelo político que se perpetua há cerca de 18 anos, marcado por práticas ‘coronelistas’ e de perseguições a servidores públicos e cidadãos críticos à gestão municipal”, afirmou.
Agora, o objetivo é transformar essa oposição municipal em representação estadual.
A diferença é que Ruy chega a 2026 carregando uma espécie de pesquisa eleitoral real no currículo: mais de 16 mil eleitores já colocaram o nome dele nas urnas para comandar a segunda maior cidade do interior de Mato Grosso do Sul.
E, desta vez, o médico disputa pelo Avante, legenda com estrutura superior àquela que teve à disposição em 2024.
Esse conjunto de fatores coloca Ruy Costa entre os nomes que entram na corrida por uma vaga na Assembleia com uma base eleitoral previamente conhecida e potencial para ampliar votos para municípios da Costa Leste.
Médico há 22 anos, Ruy diz que não abandonará profissão
Além da oposição política, Ruy Costa pretende explorar na campanha sua experiência profissional.
Médico ginecologista e obstetra, ele acumula 22 anos de atuação na Medicina e afirma que continuará exercendo a profissão mesmo caso seja eleito.
Para Ruy, a política pode ampliar o alcance de um trabalho que hoje realiza individualmente nos consultórios e unidades de saúde.
A saúde, consequentemente, aparece entre os principais pilares de sua plataforma para a Assembleia Legislativa.
Um dos projetos defendidos pelo candidato é um novo modelo para o atendimento hospitalar na Costa Leste de Mato Grosso do Sul.
Ruy propõe uma gestão compartilhada do Hospital Regional entre Estado e município, com o objetivo de reduzir filas para consultas especializadas, exames e cirurgias.
Ele também tem feito críticas à situação da saúde pública de Três Lagoas, citando mudanças no comando da Secretaria Municipal de Saúde e dificuldades relacionadas ao fornecimento de medicamentos.
Autismo, mulheres e combate ao feminicídio
Outra bandeira anunciada por Ruy Costa é a ampliação de políticas públicas para pessoas com Transtorno do Espectro Autista.
O médico afirma que pretende trabalhar na Assembleia por programas de inclusão e atendimento às famílias, além de utilizar sua experiência profissional para apresentar propostas na área de saúde pública.
A saúde da mulher será outro eixo prioritário.
Como ginecologista e obstetra, Ruy promete defender políticas de prevenção, diagnóstico e atendimento, além de mecanismos de proteção às mulheres vítimas de violência.
“Também pretendo atuar no combate ao feminicídio e à violência contra as mulheres, com a criação de mecanismos de proteção às vítimas”, afirmou.
O tema tem especial relevância em Mato Grosso do Sul, onde a violência contra a mulher permanece entre os principais desafios enfrentados pelo poder público.
Escolas técnicas e restaurantes populares
O programa defendido por Ruy não fica restrito à saúde.
Entre as propostas apresentadas pelo candidato estão a criação de escolas técnicas estaduais, inspiradas em experiências existentes em outros estados, para ampliar a formação profissional dos jovens.
Outra bandeira é a implantação de restaurantes populares, oferecendo refeições de baixo custo para famílias de menor renda.
Ruy afirma ainda que pretende atuar pela melhoria da eficiência dos serviços públicos e transformar o combate à corrupção em uma de suas prioridades na Assembleia Legislativa.
E esse último tema ganhou ainda mais peso em Três Lagoas nas últimas semanas.
Operação de R$ 100 milhões abala cenário político de Três Lagoas
A largada da campanha acontece pouco depois de uma operação do Ministério Público colocar sob investigação contratos públicos que ultrapassam R$ 100 milhões no município.
A Operação Máquinas de Areia, deflagrada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul, apura suspeitas envolvendo contratos firmados pela Prefeitura de Três Lagoas entre 2018 e 2026.
Foram cumpridos 19 mandados de busca e apreensão em Três Lagoas, Campo Grande, Terenos e Castilho, no interior de São Paulo.
A investigação é conduzida pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc), pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) e pela 7ª Promotoria de Justiça de Três Lagoas.
Segundo o MPMS, são investigados possíveis crimes de fraude em licitações, corrupção, peculato, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Os contratos envolvem locação e fornecimento de caminhões, máquinas e equipamentos pesados, além de serviços de infraestrutura e revestimento de vias.
O Ministério Público informou ter encontrado indícios de pagamentos públicos que não teriam correspondência com serviços efetivamente executados.
A investigação ainda está em andamento e as suspeitas precisam ser confirmadas no decorrer da apuração.
Secretário nomeado por Guerreiro foi mantido por Cassiano
Um dos pontos politicamente mais sensíveis da Operação Máquinas de Areia está justamente na continuidade administrativa entre os governos.
A Secretaria Municipal de Infraestrutura foi alvo das buscas.
Além disso, investigadores cumpriram mandado na residência do secretário Osmar Dias Pereira.
Osmar assumiu o comando da pasta em abril de 2022, ainda na administração de Ângelo Guerreiro.
Com a posse de Cassiano Maia em janeiro de 2025, o secretário foi mantido no cargo.
Ou seja, apesar da troca formal de prefeito, uma das estruturas mais importantes da administração permaneceu sob o mesmo comando justamente durante parte do período analisado pelo Ministério Público.
Prefeitura apontou origem dos contratos na gestão anterior
Após a operação, a própria Secretaria Municipal de Infraestrutura divulgou manifestação destacando que os contratos relacionados à investigação tiveram origem ainda durante a administração de Ângelo Guerreiro.
A nota informou que três contratos começaram em 2017 e terminaram em 2022, enquanto um quarto teve início em 2023.
A manifestação acabou deslocando politicamente o foco da origem das contratações para a administração anterior.
Há, entretanto, outro lado dessa cronologia.
O último contrato citado pela própria Prefeitura permaneceu vigente até 17 de agosto de 2026, atravessando a mudança de administração.
Além disso, Osmar Dias Pereira, que já comandava a Secretaria de Infraestrutura durante parte da administração Guerreiro, continuou à frente da pasta no governo Cassiano Maia.
É justamente a execução, fiscalização e pagamento dos contratos ao longo desse período que deverá ser esclarecida pelo avanço das investigações.
Investigação coloca oposição ainda mais no centro do debate
Politicamente, a operação trouxe para o centro da campanha justamente um dos discursos que Ruy Costa já vinha apresentando desde a disputa de 2024: fiscalização do poder público, alternância política e combate à corrupção.
Ruy enfrenta um grupo que permanece no comando político de Três Lagoas há sucessivos mandatos e agora vê contratos municipais milionários serem submetidos ao escrutínio do Ministério Público.
É nesse ambiente que o médico começa a nova campanha.
Se em 2024 Ruy Costa precisou provar que conseguiria reunir votos mesmo enfrentando um partido pequeno e uma estrutura eleitoral reduzida, agora a situação é diferente.
Ele já possui uma votação expressiva registrada nas urnas, ganhou projeção como principal nome da oposição local e chega à eleição estadual por uma legenda com maior capacidade de organização.
A presença de uma multidão em sua largada oficial reforçou esse patrimônio político.
O desafio agora será transformar os 16.027 votos conquistados para prefeito em uma base ainda maior e regionalizada.
Caso consiga ampliar essa força para outros municípios da Costa Leste e demais regiões de Mato Grosso do Sul, Ruy Costa pretende fazer o caminho que começou nas urnas de Três Lagoas em 2024 terminar, dois anos depois, em uma cadeira na Assembleia Legislativa.