Em mais um movimento que evidencia o desgaste entre o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto, lideranças do Centrão se uniram ao Partido Liberal (PL) para defender o nome do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) como relator da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investigará o INSS. A articulação é vista como uma resposta direta ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), acusado por parlamentares de “tentar jogar o Congresso contra a opinião pública”.
A escolha do relator está nas mãos do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que, segundo apuração do portal O Contribuinte, passou a considerar nomes mais próximos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A preferência inicial de Motta era por um nome do Centrão, mas o aumento da tensão entre o governo e o Congresso ampliou o espaço para perfis mais ideológicos, especialmente ligados à oposição.
O líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), confirmou que trabalha ativamente para garantir Nikolas Ferreira como relator.
“Se depender de mim, o relator seria o Nikolas”, afirmou. O relator é o responsável por conduzir os trabalhos da comissão, podendo solicitar quebras de sigilo e apresentar o relatório final com eventuais pedidos de indiciamento.
A assessoria de Nikolas respondeu ao O Contribuinte que o deputado está “pronto para assumir a relatoria da CPMI” e que pretende realizar um “trabalho técnico e responsável”.
A presidência da CPMI ficará com o Senado, e o nome mais cotado é o do senador Omar Aziz (PSD-AM), aliado do governo Lula. Ainda assim, partidos que integram a base governista também articulam nomes mais alinhados ao bolsonarismo para indicar à mesa diretora da comissão.
A movimentação ocorre num momento de atrito crescente entre Congresso e Planalto. Nesta segunda-feira, 30, Hugo Motta rebateu críticas do governo à derrubada do decreto que aumentava o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), decisão que contou com apoio de ampla maioria dos deputados.
“Quem alimenta o ‘nós contra eles’ acaba governando contra todos. A Câmara dos Deputados, com 383 votos de esquerda e direita, decidiu derrubar um aumento de imposto sobre o IOF, o imposto que afeta toda a cadeia econômica”, declarou Motta.
A reação veio após o Partido dos Trabalhadores divulgar um vídeo nas redes sociais que intensificava a retórica de que os “ricos pagam menos impostos que os pobres”, numa crítica indireta à derrubada da medida pelo Legislativo.
Nikolas Ferreira, conhecido por sua atuação combativa e alta projeção nas redes sociais, tem se destacado como uma das principais vozes da oposição. Um vídeo em que critica as regras de fiscalização propostas pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, viralizou e ultrapassou a marca de 300 milhões de visualizações, trazendo prejuízos à imagem do governo.
Caso confirmado como relator, Nikolas poderá aprofundar o desgaste político do Planalto, em meio à crescente insatisfação com temas ligados à Previdência, à carga tributária e à atuação do INSS. A comissão ainda não tem data definida para início dos trabalhos, mas os bastidores indicam que a disputa pela relatoria é um dos principais focos da oposição neste segundo semestre legislativo.