A participação da secretária municipal de Fazenda de Campo Grande, Márcia Helena Hokama, na prova Bonito 21K, no último domingo, reacendeu o debate sobre os critérios para concessão de licenças médicas por estresse e ansiedade, especialmente quando o servidor, durante o afastamento, realiza atividades físicas de intensidade moderada ou alta.
Márcia está oficialmente de licença desde 25 de novembro, com retorno previsto para o dia 10 de dezembro (amanhã), e afirma ter sido afastada por quadro de ansiedade e estresse, condições em que a atividade física é frequentemente recomendada como parte do tratamento.
Para entender o que caracteriza um afastamento nesses casos e se a Prefeitura deve renovar a licença, autorizar o retorno ou considerar exoneração. O Contribuinte conversou com uma psicóloga e uma psiquiatra, ambas especialistas em saúde emocional no trabalho. As duas preferiram conceder entrevista em reservado para evitar exposição profissional e interferência política.
A psicóloga consultada explica que não existe conflito técnico entre estar afastado por ansiedade e praticar atividades físicas, incluindo corridas.
“A prática de exercícios é parte do tratamento para ansiedade e estresse. Em muitos casos, ajuda a regular o humor, o sono e o nível de estresse. Isso não contraria o afastamento.”
Ela reforça que o critério de afastamento não está relacionado à capacidade física, mas à capacidade emocional e cognitiva para lidar com as pressões do cargo.
“Uma pessoa pode estar apta a correr e, ao mesmo tempo, incapaz de lidar com decisões de alto impacto ou conflitos intensos. São habilidades diferentes.”
A psiquiatra ouvida pela reportagem destaca que a corrida não interfere tecnicamente na validade do atestado, mas reforça que isso não elimina a necessidade de avaliar a condição emocional da servidora.
“A questão é se o quadro dela está prejudicando o exercício pleno do cargo. Se estiver, a licença é adequada. Se isso se prolonga, a administração precisa avaliar substituição ou mudança de função.”
Segundo ela, o cargo de secretária de Fazenda é um dos mais estressantes da estrutura municipal, o que torna o impacto emocional ainda maior.
“A intensidade psicológica do cargo exige equilíbrio emocional constante. Uma eventual dificuldade nesse aspecto pode justificar afastamento ou substituição.”
Repercussão política amplia impacto da licença
A corrida ocorreu durante uma crise financeira que mobiliza toda a gestão municipal. Antes da licença, Márcia enfrentou atritos com vereadores, críticas pela ausência em sessão da Câmara e desgaste interno crescente.
Nos bastidores, aliados da prefeita Adriane Lopes afirmam que, diante do acúmulo de tensões políticas e administrativas, o melhor caminho para a gestão seria a exoneração de Márcia após o término da licença. A avaliação, segundo fontes, é de que a sucessão de desgastes tornou “muito difícil” a permanência da secretária no comando da pasta.
O vereador Maicon Nogueira, integrante da base da prefeita na Câmara Municipal, chegou a defender publicamente nas redes sociais a exoneração imediata da secretária, aumentando a pressão política sobre o Executivo.
Outros vereadores e integrantes da administração, porém, preferiram responder ao O Contribuinte em reservado, afirmando que a decisão é “única e exclusivamente da prefeita” e que qualquer mudança no comando da Sefaz dependerá de uma combinação entre avaliação médica, estabilidade política e viabilidade administrativa.
Além das pressões internas, analistas externos também já avaliam que a situação se tornou insustentável. O analista político Mayke Vilalba, ouvido pelo O Contribuinte, afirma que a permanência de Márcia após a repercussão da corrida é politicamente inviável.
“A licença, somada à crise financeira e ao desgaste acumulado, criou um cenário irreversível. Para a prefeita, manter Márcia agora teria um custo político maior do que exonerá-la. A exoneração é o caminho mais lógico do ponto de vista de gestão e estabilidade política.”
Segundo Vilalba, a discussão já ultrapassou o campo médico:
“Não se trata de questionar a licença. O problema é o impacto simbólico e político que o episódio ganhou. Quando a administração perde o controle da narrativa, a saída mais previsível é a exoneração.”
Enquanto a prefeita não anuncia sua decisão, o secretário-adjunto Isac José de Araújo segue no comando interino da Sefaz.