(67) 9 9689-6297 | ocontribuintebr@gmail.com

‘Presença ilustre’ de José Dirceu é um vexame sem precedentes para Campo Grande

A Câmara Municipal de Campo Grande protagonizou, nesta sexta-feira (15), um dos episódios mais constrangedores da história política recente da capital: recebeu José Dirceu como presença ilustre em uma audiência pública. Sim, o mesmo José Dirceu, condenado por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa, apontado como o cérebro de alguns dos maiores esquemas de corrupção da última década.

O encontro, que tinha como pauta a reativação da Malha Oeste, poderia ter seguido o curso normal de uma discussão técnica. Mas a escolha do “convidado especial” transformou o evento em um ato simbólico de inversão de valores. Ao ser tratado como referência, com honras e microfone aberto, Dirceu não apenas ocupou espaço político, mas recebeu um carimbo de legitimidade que é, no mínimo, um escárnio com a memória recente do Brasil.

As condenações de Dirceu foram anuladas pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, em outubro de 2024. Antes disso, o próprio STF e o STJ já haviam reduzido ou extinguido penas alegando prescrição e questões processuais. No papel, ele está livre de qualquer sentença. Na realidade, nada disso apaga as delações, as provas e as confissões registradas nas investigações conduzidas pelo Ministério Público.

O ex-ministro passou anos na prisão. Foi descrito por sentenças como um operador profissional de corrupção, capaz de usar o poder público como instrumento de negócios ilícitos. As manobras jurídicas que o “descondenaram” não reescrevem esse histórico, apenas demonstram como parte do sistema de Justiça está disposta a ignorar o passado em nome de conveniências políticas.

O resultado? Um vexame sem precedentes para Campo Grande. O Legislativo municipal, que deveria representar o povo e zelar pelo decoro, abriu as portas para transformar um ex-presidiário em celebridade. A mensagem é clara: no Brasil, o crime pode até compensar, desde que você tenha os amigos certos nos lugares certos.

Quando José Dirceu é tratado como “presença ilustre”, o problema não é apenas a memória curta da política brasileira. É a constatação de que estamos vivendo em um país onde a moral pública foi completamente terceirizada e, no fim das contas, o poste já está mijando no cachorro.