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Relatório aponta falta de seguro obrigatório desde 2016 no Consórcio Guaicurus

Documento dos primeiros 90 dias aponta inadimplência desde setembro de 2016; processo fiscalizatório calculou multa superior a R$ 12,2 milhões.

O relatório preliminar dos primeiros 90 dias de intervenção no Consórcio Guaicurus revela mais um capítulo da crise do transporte coletivo de Campo Grande: a concessionária permaneceu por anos inadimplente em relação à contratação do seguro de responsabilidade civil exigido pelo contrato.

Segundo o documento, a irregularidade remonta a setembro de 2016.

O relatório cita o Processo Fiscalizatório nº 75496/2018-69, da Agereg, segundo o qual o Consórcio Guaicurus estava inadimplente quanto à contratação do seguro de responsabilidade civil, geral e de veículos previsto na Cláusula 18.1 do Contrato de Concessão nº 330/2012.

O descumprimento levou à autuação do Consórcio e à apuração de uma multa de R$ 12.238.353,86.

E o problema atravessou anos.

Segundo os elementos do processo fiscalizatório recuperados pela intervenção, a situação ainda permanecia sem regularização quando foi realizada a respectiva análise, em 2024.

Intervenção contratou apólice

A situação mudou depois que a Prefeitura assumiu temporariamente a administração da concessão.

A intervenção começou em 16 de junho de 2026.

De acordo com o relatório, após a entrada dos interventores foram tomadas providências para regularizar a obrigação contratual e uma apólice foi efetivamente contratada.

O documento afirma que a medida passou a atender à exigência estabelecida no contrato e reduziu a exposição financeira das empresas diante de eventos cobertos pelo seguro.

O próprio relatório, em outro trecho, é ainda mais contundente ao classificar a situação como um “descumprimento contratual de natureza objetiva e continuada”, mantido por período superior a nove anos.

Segundo a equipe interventora, a ausência da cobertura expôs usuários, terceiros e o próprio Poder Concedente a risco não coberto.

O que significa o seguro

O seguro de responsabilidade civil é uma das proteções previstas para uma operação que transporta milhares de passageiros diariamente.

Acidentes envolvendo ônibus podem gerar danos a passageiros, pedestres, outros veículos e terceiros.

É justamente por isso que a existência e manutenção das coberturas previstas no contrato não são apresentadas no relatório como uma escolha administrativa da concessionária, mas como uma obrigação contratual.

A intervenção ressalta, inclusive, que a contratação realizada agora não encerra o assunto.

Será necessário acompanhar permanentemente os prazos de vigência, limites de cobertura e condições para renovação da apólice.

Problema não estava isolado

A questão do seguro aparece dentro de um diagnóstico muito mais amplo produzido após a equipe interventora ter acesso às garagens, documentos, sistemas, informações financeiras e estruturas administrativas das empresas.

O relatório reúne problemas operacionais e fiscais anteriores à intervenção, incluindo 21.910 autuações da Agetran entre 2021 e 2025.

Foram 12.279 autuações por descumprimento de horários, 3.444 por omissões de viagens e 1.385 relacionadas a equipamentos obrigatórios defeituosos ou inoperantes.

O documento também recupera denúncias e questões levantadas na ação popular que antecedeu a intervenção, entre elas a precarização da frota, o descumprimento da obrigação de manter seguros e a omissão de informações regulatórias.

Prefeitura assumiu em junho

A intervenção foi decretada pela prefeita Adriane Lopes em 16 de junho de 2026, depois de decisão liminar na Ação Popular nº 0866877-02.2025.8.12.0001 e das conclusões do Processo Administrativo SEI nº 034514/2026-14.

O decreto estabeleceu prazo de até 180 dias para a intervenção, tendo como objetivo declarado interromper a degradação do serviço e restabelecer sua segurança.

Na mesma data, os interventores assumiram as garagens e centros administrativos das empresas.

Desde então, o grupo passou a administrar temporariamente a operação e a levantar documentos para produzir um diagnóstico da situação encontrada.

Relatório é preliminar

Apesar da gravidade dos achados, existe uma distinção importante.

O documento divulgado agora é o relatório preliminar dos primeiros 90 dias.

A intervenção tem função de administrar temporariamente o serviço, reorganizar a operação e levantar informações. A apuração de eventuais responsabilidades ocorre em processo administrativo específico e independente.

Isso significa que as consequências administrativas dos descumprimentos encontrados ainda deverão seguir os procedimentos próprios de apuração.

O que o relatório permite afirmar, neste momento, é que a obrigação do seguro estava prevista no contrato, que o processo fiscalizatório apontou inadimplência desde setembro de 2016, que foi apurada multa de R$ 12,2 milhões e que a regularização ocorreu após o início da intervenção.

É mais um dado que ajuda a dimensionar o cenário encontrado pela Prefeitura ao assumir temporariamente a concessão do transporte coletivo de Campo Grande.