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Sem salário e sem prazo: caos no Consórcio Guaicurus impulsiona pedidos de intervenção

Prefeitura e Governo do Estado afirmam que estão em dia; consórcio acumula atrasos, enfrenta greve, pressão por intervenção e agora investigação do MPMS

A crise no transporte coletivo de Campo Grande escancara um paradoxo que tem revoltado trabalhadores e usuários do sistema: o dinheiro público foi pago, impostos foram perdoados, mas os salários continuam atrasados. O Consórcio Guaicurus, responsável pela operação do serviço, segue sem honrar compromissos trabalhistas mesmo após receber repasses do poder público e ser beneficiado por isenções fiscais milionárias.

A Prefeitura de Campo Grande reafirmou que cumpriu integralmente todos os repasses previstos em contrato, incluindo subsídios emergenciais ao transporte. O Governo de Mato Grosso do Sul também informou estar rigorosamente em dia com suas obrigações financeiras relacionadas ao sistema.

Ainda assim, trabalhadores denunciam meses de atraso no pagamento de salários, décimo terceiro e vale-alimentação (só vale), sem qualquer cronograma oficial apresentado pelo consórcio para regularização.

Isenção de ISS: milhões deixaram de ser arrecadados

Além dos repasses diretos, o Consórcio Guaicurus também foi beneficiado com isenções do ISS (Imposto Sobre Serviços) concedidas ao longo dos últimos anos. Os valores chamam atenção:

– 2021: R$ 5.158.757,92

– 2022: R$ 7.982.939,59

– 2023: R$ 8.262.804,83

– 2024: R$ 8.558.661,02

– 2025: R$ 7.319.153,71

Somados, os valores ultrapassam R$ 37 milhões em isenções fiscais, recursos que deixaram de entrar nos cofres públicos sob o argumento de garantir a sustentabilidade do transporte coletivo.

Mesmo com esse alívio tributário expressivo, os trabalhadores seguem sem receber e o serviço continua operando de forma precária, levantando questionamentos sobre a real destinação desses recursos.

Greve continua mesmo com multa diária de R$ 200 mil

Diante do impasse, o Judiciário determinou uma multa diária de R$ 200 mil ao Consórcio Guaicurus para forçar o pagamento dos débitos e a normalização do serviço. A penalidade, no entanto, não surtiu efeito prático.

O sindicato da categoria mantém a greve, afirmando que não aceitará retorno parcial ou promessas vagas. A exigência é clara: pagamento integral dos salários atrasados, do décimo terceiro e do vale-alimentação.

Nesta terça-feira (16), uma audiência de conciliação no TRT24 (Tribunal Regional do Trabalho da 24ª Região) terminou sem acordo entre trabalhadores e consórcio. Mesmo com ordem judicial para manter 70% da frota em circulação, a paralisação continua.

Pedidos de intervenção avançam

O agravamento da crise fortaleceu os pedidos de intervenção no transporte coletivo. O ex-candidato a prefeito de Campo Grande, Luso de Queiroz, voltou a defender publicamente que o poder público assuma o controle do sistema, apontando falência administrativa e desrespeito aos trabalhadores.

Paralelamente, o vereador Maicon Nogueira lidera uma petição popular que busca 50 mil assinaturas nas ruas da Capital para formalizar o pedido de intervenção. A mobilização cresce impulsionada pelo colapso do serviço e pela indignação com a situação dos funcionários.

Interessados em apoiar a petição podem realizar a assinatura direto do celular. Para isso, basta abrir o site com o documento e preencher os dados solicitados. Nome completo, telefone e CPF são as informações solicitadas. Então, para acessar o site e participar da petição, clique aqui.

MPMS entra no caso três meses após a CPI

Somente três meses após o encerramento da CPI do Transporte, o Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul (MPMS) instaurou inquérito civil contra o Consórcio Guaicurus para apurar as falhas apontadas pelos vereadores.

A portaria foi assinada na terça-feira (16) e publicada na quarta-feira (17), em pleno andamento da greve, e o procedimento tramita na 30ª Promotoria de Justiça de Campo Grande, sob titularidade do promotor Fabio Ianni Goldfinger, com instauração formal feita pelo promotor substituto George Zarour Cezar.

Apesar de tratar de um serviço público essencial, o inquérito foi aberto sob sigilo, o que tem gerado críticas quanto à transparência e à demora da atuação institucional.

Crise expõe falhas profundas no modelo de concessão

Com repasses públicos pagos, isenções fiscais concedidas e trabalhadores sem salário, a crise do transporte coletivo de Campo Grande deixa de ser apenas operacional e passa a ser estrutural.

O caso expõe fragilidades no modelo de concessão, pressiona o poder público por respostas mais duras e coloca o Consórcio Guaicurus no centro de uma crise que pode culminar em intervenção, revisão contratual ou até rompimento do contrato, caso as irregularidades sejam confirmadas.