Categoria cobra salário e complementação de fevereiro; prazo venceu sem pagamento
Os trabalhadores da enfermagem da Santa Casa de Campo Grande voltaram a cruzar os braços nesta terça-feira (7), em um novo capítulo da crise que atinge o hospital. A paralisação foi motivada pelo não pagamento do salário dentro do prazo legal, encerrado hoje, e pelo atraso na complementação salarial referente ao mês de fevereiro.
A decisão foi tomada durante assembleia realizada na manhã desta terça, quando a categoria definiu que parte dos profissionais permanecerá de braços cruzados em frente à unidade até que os pagamentos sejam regularizados.
Segundo os trabalhadores, o repasse da complementação deveria ter sido feito até o dia 5, o que não ocorreu. Já o salário mensal também não foi depositado dentro do prazo limite desta terça-feira (7), ampliando a insatisfação da categoria.
A paralisação ocorre de forma revezada, com adesão de cerca de 50% dos profissionais, estratégia adotada para evitar impacto direto e imediato nos atendimentos hospitalares.
Histórico recente de paralisações
O movimento não é isolado. Em dezembro, profissionais da saúde já haviam paralisado as atividades pelo mesmo motivo: atraso salarial. Em janeiro, uma nova paralisação chegou a ser cogitada, evidenciando a recorrência do problema.
A repetição dos atrasos reforça o cenário de instabilidade enfrentado pelos trabalhadores e expõe o agravamento da crise financeira da instituição.
Crise estrutural se aprofunda e envolve Justiça
A paralisação acontece em meio a um contexto mais amplo de colapso financeiro e questionamentos sobre a gestão da Santa Casa de Campo Grande.
Na segunda-feira (6), a crise ganhou um novo desdobramento após decisão judicial que autorizou a entrada da Procuradoria-Geral do Estado de Mato Grosso do Sul em uma ação que pode abrir a chamada “caixa preta” da instituição.
A medida ocorre no âmbito de um processo movido pelo Instituto Artigo Quinto, que busca acesso a documentos financeiros, contratos e registros contábeis do hospital e da operadora ligada à entidade.
Estado entra no caso por risco ao dinheiro público
A Justiça entendeu que o caso ultrapassa interesses privados, uma vez que a Santa Casa é referência no atendimento pelo SUS e depende de repasses milionários de recursos públicos.
Com a decisão, o Estado passa a atuar diretamente no processo, podendo apresentar documentos, se manifestar e recorrer, ampliando o peso institucional da investigação.
Nos bastidores, a avaliação é de que a medida representa um endurecimento na fiscalização e pode acelerar a abertura das contas da instituição.

Investigação pode impactar novos repasses
O acesso aos dados financeiros pode influenciar diretamente outras ações em andamento, incluindo uma ação civil pública que cobra um plano de reequilíbrio financeiro envolvendo Estado, Prefeitura e o hospital.
A análise busca responder uma questão central: a crise decorre da falta de repasses ou de problemas na gestão administrativa?
uestionamentos sobre gestão aumentam pressão
A crise também é acompanhada por uma série de informações que ampliam o debate sobre governança e transparência dentro da instituição.
Coincidência de endereços levanta alerta
Registros públicos indicam que o advogado da Santa Casa, Paulo da Cruz Duarte, possui escritório no mesmo endereço anteriormente vinculado à atual presidente da entidade, Alir Terra.
O local, situado no bairro Royal Park, também concentra diversas empresas da área da saúde ligadas ao advogado.
Embora a situação não configure irregularidade por si só, especialistas apontam que o cenário reforça a necessidade de transparência, especialmente diante da crise financeira e da dependência de recursos públicos.
Diretor financeiro acumula patrimônio elevado
Outro ponto que chama atenção envolve o diretor financeiro da instituição, Rinaldo Hakme Romano.
Documentos indicam que ele possui uma frota de veículos avaliada em aproximadamente R$ 455 mil, incluindo modelos de alto padrão.
O patrimônio, embora legal, contrasta com a realidade do hospital, que enfrenta atrasos salariais, pressão de fornecedores e dificuldades operacionais.
Especialistas ouvidos apontam que situações como essa podem afetar a credibilidade institucional, sobretudo em entidades filantrópicas sustentadas por recursos públicos.

Crise no centro do debate público
A Santa Casa de Campo Grande enfrenta uma das fases mais críticas de sua história recente, marcada por:
– atrasos recorrentes de salários
– dívidas elevadas
– dependência de aportes emergenciais
– pressão por transparência na gestão
A paralisação desta terça-feira surge como mais um reflexo direto desse cenário, ampliando a tensão entre trabalhadores, gestão e poder público.
Enquanto isso, pacientes do SUS seguem como os mais impactados potenciais de uma crise que ainda está longe de uma solução definitiva.