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Soraya ajudou Lindbergh a acusar vice de Flávio de estupro; agora terá de se explicar ao STF

Senadora de Mato Grosso do Sul e Lindbergh Farias levaram à PF acusação de estupro de vulnerável contra Alfredo Gaspar; novo depoimento afirma que mulher teria sido paga para assumir identidade falsa e sustentar a narrativa.

A senadora por Mato Grosso do Sul Soraya Thronicke (PSB) terá de fornecer novas informações ao Supremo Tribunal Federal sobre uma das mais graves acusações apresentadas durante os trabalhos da CPMI do INSS: a suspeita de estupro de vulnerável atribuída ao deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), atual candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro (PL).

A determinação do ministro Gilmar Mendes ganhou ainda mais relevância diante de um fato novo revelado no caso.

Um comerciante ouvido formalmente pela Polícia Legislativa da Câmara dos Deputados afirmou ter conhecimento de uma suposta trama para fabricar justamente a acusação contra Gaspar. Segundo o depoimento, uma mulher teria sido preparada para assumir identidade falsa, apresentar-se como vítima de abuso sexual e receber dinheiro para sustentar a narrativa.

O relato menciona pagamentos que somam R$ 16,5 mil e cita diretamente o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ), que, ao lado de Soraya, levou a acusação original à Polícia Federal.

O novo elemento não comprova que Soraya tenha participado ou sequer tivesse conhecimento de uma eventual fabricação da história. Mas coloca uma pergunta que agora ganha importância central para a investigação: de onde partiram as informações utilizadas pela senadora de Mato Grosso do Sul e por Lindbergh para apresentar uma acusação de tamanha gravidade contra Alfredo Gaspar?

 

Soraya e Lindbergh levaram caso à PF

O episódio começou publicamente no final de março.

Em 27 de março de 2026, Soraya Thronicke e Lindbergh Farias apresentaram à Polícia Federal uma notícia de fato relatando informações sobre um suposto estupro de vulnerável que teria sido cometido por Alfredo Gaspar.

Segundo a representação, uma menina teria sido abusada sexualmente aos 13 anos, aproximadamente oito anos antes, e engravidado em decorrência do crime.

A denúncia ganhou repercussão justamente no encerramento dos trabalhos da CPMI do INSS, da qual Alfredo Gaspar era relator.

Gaspar negou imediatamente a acusação.

O parlamentar também afirmou que estava disposto a fornecer material genético para a realização de exame de DNA e posteriormente adotou medidas judiciais contra Soraya e Lindbergh.

“Não tenho que provar”, declarou Soraya na época

A postura adotada pela senadora após a apresentação da denúncia também voltou ao centro do debate diante dos novos acontecimentos.

Em 29 de março, ao ser questionada sobre a acusação, Soraya declarou que “não tenho que provar”, sustentando que caberia às autoridades investigar as informações apresentadas.

A parlamentar mencionou, na ocasião, entendimentos judiciais relacionados à presunção de paternidade quando há recusa na realização de exame de DNA.

Gaspar, entretanto, afirmou publicamente que não recusaria o exame.

Pelo contrário, colocou-se à disposição para fornecer seu material genético.

Agora, com o avanço do caso no Supremo e o aparecimento de um depoimento relatando possível fabricação da denúncia, a origem das informações apresentadas pelos parlamentares passa a ser um ponto fundamental para esclarecer o episódio.

STF dá 15 dias para Soraya fornecer informações

Na última quinta-feira, 6 de agosto, Gilmar Mendes determinou que Soraya apresente informações complementares à Corte.

A senadora terá 15 dias para fornecer elementos que auxiliem na identificação dos autores de mensagens existentes nos autos, além de informações relacionadas a ligações telefônicas.

O ministro também quer dados que permitam identificar a suposta vítima e a criança mencionadas na denúncia, incluindo informações como nome, data e local de nascimento.

A determinação ocorre depois de a Polícia Federal ter solicitado ao Supremo a abertura formal de investigação.

Antes de decidir, Gilmar ouviu a Procuradoria-Geral da República (PGR), que pediu diligências adicionais.

O despacho não representa acusação contra Soraya. A senadora está sendo chamada a fornecer elementos necessários para que as autoridades possam avançar na apuração da denúncia que ela própria ajudou a apresentar.

E então surgiu o relato da suposta armação

Enquanto a acusação contra Gaspar seguia seu caminho no STF, outra informação já havia chegado às autoridades.

Em 14 de abril, a assessora do parlamentar, Marise Pena, informou à Polícia Legislativa que recebera uma ligação de Luis Antonio Lopes, comerciante do Rio de Janeiro.

Ele dizia possuir informações sobre uma suposta montagem para acusar Alfredo Gaspar.

Em 23 de abril, Luis Antonio prestou depoimento formal.

E o que relatou mudou completamente a perspectiva do caso.

Mulher seria preparada para interpretar uma falsa vítima

Segundo o comerciante, uma jovem identificada como Marcela Maria Mendes teria sido preparada para assumir a identidade de “Jailma”.

Ela deveria, conforme o depoimento, apresentar-se como uma mulher de origem nordestina e dizer que havia sido abusada sexualmente ainda adolescente por um político, engravidando como consequência do crime.

O político associado à história seria Alfredo Gaspar.

Segundo o relato, teria sido criada inclusive uma filha fictícia, chamada “Eloá”, que seria apresentada como fruto do suposto estupro.

Luis Antonio atribuiu o recrutamento da jovem a um homem chamado Lucas, conhecido como “Doidinho”.

O comerciante afirmou que Lucas se apresentava como assessor legislativo, dizia possuir relações políticas em Nova Iguaçu e posteriormente teria sido associado ao contexto político de Lindbergh Farias.

Tudo isso ainda precisa ser comprovado pela investigação.

R$ 16,5 mil aparecem no depoimento

O comerciante também declarou que sua própria conta bancária teria sido utilizada para movimentar dinheiro destinado a Marcela.

Ele mencionou três valores:

R$ 10 mil

R$ 4 mil

R$ 2,5 mil

Somados, os valores chegam a R$ 16,5 mil.

Segundo o relato encaminhado às autoridades, foram apresentados comprovantes relacionados às transferências de R$ 10 mil e R$ 2,5 mil.

Um dos pagamentos mencionados pelo depoente, de R$ 4 mil, teria relação com Carlos Roberto Lopes, presidente da Conafer, entidade que esteve sob investigação na CPMI do INSS.

Lindbergh é citado em suposta reunião

O depoimento traz ainda um elemento politicamente explosivo.

Luis Antonio declarou que Marcela teria participado de uma reunião pelo Google Meet na qual estariam, segundo ele, o próprio Lindbergh Farias, Carlos Roberto Lopes, um vereador de Nova Iguaçu conhecido como “Toninho da Padaria” e outras pessoas.

Durante a reunião, Marcela teria cobrado valores que lhe haviam sido prometidos.

O documento registra que, “segundo sua percepção”, o comerciante acreditava que Lindbergh “parecia ter ciência do contexto tratado nas reuniões” e integraria o grupo que discutia os desdobramentos da narrativa.

Essa distinção é importante: trata-se da interpretação apresentada pelo depoente à polícia, não de uma conclusão das autoridades de que Lindbergh participou da eventual fraude.

Câmara já enviou relato ao Supremo

O depoimento não permaneceu apenas na Polícia Legislativa.

Como Lindbergh, deputado federal, foi citado e possui foro por prerrogativa de função, o caso passou pela estrutura da Câmara e acabou encaminhado ao STF.

O envio ocorreu em 5 de maio de 2026.

Ou seja, quando Soraya recebeu agora o prazo de 15 dias para complementar informações sobre a acusação original contra Gaspar, o Supremo já tinha recebido também o relato sobre a existência de uma possível armação.

São versões gravíssimas e conflitantes que terão de ser confrontadas pelas autoridades.

O que Soraya sabia quando levou a denúncia à PF?

Para Mato Grosso do Sul, existe uma questão adicional.

Soraya não é uma personagem secundária no episódio. É uma das duas parlamentares que formalizaram perante a Polícia Federal uma acusação de estupro de vulnerável contra Alfredo Gaspar.

Isso não significa que tenha participado de eventual fabricação da história.

Mas significa que a senadora terá agora a oportunidade de esclarecer qual era a fonte das informações recebidas, quais elementos possuía naquele momento, quem lhe apresentou a denúncia e quais providências tomou para verificar minimamente a história antes de encaminhá-la às autoridades e tratar publicamente do assunto.

Essas respostas se tornaram ainda mais relevantes depois do depoimento prestado à Polícia Legislativa.

Uma coisa é denunciar; outra é fabricar uma denúncia

Também é necessário fazer uma separação fundamental.

Qualquer parlamentar que receba notícia consistente sobre possível violência sexual contra uma adolescente pode e deve encaminhá-la às autoridades competentes para investigação. A simples apresentação de uma notícia de fato à Polícia Federal não significa participação em eventual crime ou fraude.

A situação muda completamente, porém, se ficar comprovado que alguém sabia que a história era falsa e, ainda assim, participou de sua fabricação, financiamento ou divulgação deliberada como verdadeira.

Até o momento, não existe conclusão das autoridades estabelecendo que Soraya tenha feito isso.

É justamente por isso que os próximos esclarecimentos são importantes.

Caso aconteceu no momento mais tenso da CPMI do INSS

Existe ainda o contexto político.

Alfredo Gaspar era o relator da CPMI responsável por investigar o esquema de descontos indevidos sobre benefícios de aposentados e pensionistas.

A acusação sexual surgiu justamente no momento em que a comissão caminhava para seu desfecho e Gaspar apresentava conclusões politicamente prejudiciais ao governo Lula e a pessoas ligadas ao grupo governista.

A campanha de Flávio Bolsonaro afirma que Soraya e Lindbergh utilizaram a acusação para tentar retirar o foco do relatório.

Essa é a versão apresentada pela campanha.

O depoimento sobre a possível fabricação da denúncia, entretanto, acrescenta agora um elemento objetivo a ser investigado pelas autoridades.

Mato Grosso do Sul aguarda as respostas de sua senadora

Eleita para representar Mato Grosso do Sul no Senado, Soraya Thronicke passa a ocupar posição central nesse esclarecimento.

O STF quer informações.

A Polícia Federal realiza diligências.

Existe um depoimento formal apontando uma possível fabricação da história.

E Alfredo Gaspar, que sempre negou o crime, tornou-se candidato a vice-presidente da República, aumentando ainda mais a dimensão política e eleitoral do episódio.

O ponto decisivo agora não deve ser partidário: é descobrir a verdade.

Se a acusação original possuir elementos concretos, eles precisam ser investigados com rigor.

Se, por outro lado, ficar demonstrado que uma acusação de estupro de vulnerável foi deliberadamente fabricada para destruir a reputação de um adversário político ou criar uma cortina de fumaça durante uma investigação parlamentar, as responsabilidades também precisarão ser apuradas até o fim.

E Soraya, por ter ajudado a levar o caso às autoridades e defendido publicamente sua apuração, terá papel fundamental para esclarecer quem lhe apresentou essa história e em quais elementos ela se baseou.

O Contribuinte mantém espaço aberto para manifestação da senadora Soraya Thronicke, do deputado Lindbergh Farias e dos demais citados. Eventuais posicionamentos serão incorporados à reportagem.