Relatório final da Polícia Federal aponta atuação direta em suposta fraude para tomada da Fazenda Paulicéia
A Polícia Federal colocou o nome de Osmar Jeronymo no centro de um dos maiores escândalos já registrados no Judiciário de Mato Grosso do Sul. Segundo o relatório final da Operação Ultima Ratio, concluído em março deste ano, há indícios de que ele atuou diretamente em um esquema que envolve corrupção, falsificação de documentos, extorsão e organização criminosa.
O documento, com 711 páginas, foi encaminhado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e ao Ministério Público Federal (MPF), com sugestão expressa de denúncia. Para o delegado responsável pelo caso, Marcos André Araújo Damato, há elementos suficientes para a abertura de ação penal.
De acordo com a investigação, Osmar Jeronymo, ao lado dos sobrinhos Diego e Danillo Moya Jeronymo, teria participado de uma articulação para tomar a Fazenda Paulicéia, imóvel que pertenceria à viúva Marta Martins de Albuquerque. A estratégia, segundo a PF, envolveu a falsificação de escrituras públicas e manobras judiciais.
O relatório também aponta que, além da suposta fraude documental, houve uso de pressão para consolidar o controle do imóvel. Um dos episódios citados envolve Gerson Pieri, que, conforme a investigação, teria sido coagido a assinar um acordo desistindo de ação judicial relacionada ao caso — o que caracteriza, em tese, crime de extorsão.
A Polícia Federal sustenta ainda que o grupo atuava de forma estruturada, com divisão de tarefas, o que levou ao enquadramento por organização criminosa. Além de Osmar e seus familiares, aparecem como envolvidos Everton Barcello de Souza e Percival Henrique de Sousa Fernandes.
Embora o foco da investigação sobre Jeronymo esteja na disputa pela fazenda, o caso se conecta a um cenário mais amplo. A PF também identificou indícios de venda de decisões judiciais envolvendo desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, o que elevou a Operação Ultima Ratio ao status de maior escândalo recente do Judiciário estadual.
O material já está sob análise do Ministério Público Federal, que deverá decidir se apresenta denúncia formal contra os investigados. Até o momento, todos os citados nas investigações negaram as acusações.
Fazenda de R$ 20 milhões: PF aponta pagamento a filha de ex-presidente do TJMS em decisão sob suspeita
Área de 5,2 mil hectares está no centro da investigação
Um dos casos mais impactantes revelados no relatório da Polícia Federal, ao qual O Contribuinte teve acesso, envolve a negociação da Fazenda Santo Antônio, em Corumbá.
Com cerca de 5,2 mil hectares e avaliada em R$ 20 milhões, a propriedade estava no centro de um processo de inventário cuja decisão judicial teria sido, segundo a PF, objeto de negociação.
O portal O Contribuinte teve acesso ao relatório final da Polícia Federal que coloca a advogada Renata Gonçalves Pimentel no centro de um dos episódios mais sensíveis da Operação Ultima Ratio, que investiga a venda de sentenças no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS).
Filha do desembargador Sideni Soncini Pimentel, ex-presidente do TJMS, Renata foi indiciada por corrupção passiva e, segundo os investigadores, teria atuado diretamente como intermediária em negociações que envolviam decisões judiciais de alto impacto econômico.
DINHEIRO EM COFRE E MOVIMENTAÇÃO SUSPEITA
Durante o cumprimento de mandados em outubro de 2024, a Polícia Federal encontrou na residência da advogada, no condomínio de luxo Damha III, em Campo Grande, vultosas quantias de dinheiro em espécie guardadas em cofres.
Foram apreendidos:
R$ 128.290,00 em moeda nacional
US$ 125 mil em espécie
Considerando a cotação da época, o total ultrapassa R$ 800 mil.

Além disso, a análise do celular da advogada revelou uma intensa movimentação financeira paralela, com indícios de tentativas de dar aparência legal aos valores.
Em uma das conversas interceptadas, Renata discute com seu contador como justificar um depósito em espécie de R$ 213 mil, sugerindo classificá-lo como “honorários”. O profissional orienta registrar como “empréstimo”.
Para a Polícia Federal, o diálogo é um indicativo claro de estratégias para ocultação da origem dos recursos, dentro de uma possível estrutura de lavagem de dinheiro.
FAZENDA DE R$ 20 MILHÕES E DECISÃO SOB SUSPEITA
O relatório detalha que Renata Pimentel atuou como intermediária na negociação envolvendo a Fazenda Santo Antônio, em Corumbá — uma área de aproximadamente 5,2 mil hectares avaliada em R$ 20 milhões.
O imóvel, pertencente ao espólio de Darci Guilherme Bazanella, estava inicialmente bloqueado para venda por pendências de ITCD. Mesmo sem integrar formalmente o processo, Renata teria participado ativamente das tratativas.
As negociações envolveram advogados do espólio e o comprador, representado por Cláudio Bergmann. Após a liberação judicial do negócio, a advogada teria recebido ao menos R$ 920 mil.
A decisão que destravou a venda foi posteriormente concedida por desembargadores do TJMS — entre eles, o próprio pai de Renata.
MENSAGENS, VALORES “POR FORA” E DIVISÃO DE RECURSOS
O relatório ao qual O Contribuinte teve acesso traz trechos de conversas que detalham os bastidores da negociação.
Entre os conteúdos interceptados, aparecem propostas com valores estruturados:
“880 k à vista 120 k segunda parcela”
“E 500 do por fora nos 4 apartamento do inventário”
Para a PF, os diálogos indicam a existência de pagamentos oficiais e valores paralelos não declarados.
Em outro trecho, Renata menciona diretamente o interesse financeiro na operação ao pedir que um dos envolvidos fosse até ela para acertar o que chamou de “nosso ganha-pão”.
As mensagens também mostram preocupação com a divisão dos valores entre os participantes. Em um momento, a advogada afirma:
“Agora que chamo, ele vai ter que se sentir parte, senão, fudeu (sic)”
Em seguida, propõe:
“Consegui tirar 100 k para matar os seus 50 p cada 1”
O avanço do negócio é tratado com naturalidade nas conversas. Em determinado ponto, o advogado do comprador afirma:
“Negócio tá pronto”
e avalia em apenas 10% o risco de a Justiça barrar a operação. Renata responde:
“kkk boa”
Após a confirmação do pagamento, comemora:
“Aí simmmmm”
“Pagou”
INDÍCIOS DE LAVAGEM E FRAUDE
A Polícia Federal identificou que parte dos pagamentos foi formalizada por meio de transferências e notas fiscais com descrições genéricas, como “assessoria jurídica para aquisição de imóvel rural”, sem vinculação direta ao processo judicial.
Para os investigadores, há indícios de tentativa de dar aparência legal a valores de origem ilícita.
Além disso, o caso levanta suspeitas de fraude fiscal, já que a fazenda teria sido avaliada no inventário por valor inferior ao efetivamente negociado.
O QUE DIZ A PF
Na avaliação da Polícia Federal, os elementos reunidos indicam que Renata Pimentel atuava como peça operacional do esquema, intermediando negociações, articulando pagamentos e auxiliando na circulação de recursos.
O caso foi encaminhado ao Ministério Público Federal, que deve analisar o oferecimento de denúncia.
DESEMBARGADORES NA MIRA
om base nas provas reunidas, a Polícia Federal sugeriu ao Ministério Público Federal o indiciamento de sete desembargadores:
Sideni Soncini Pimentel
Vladimir Abreu da Silva
Julio Roberto Siqueira Cardoso
Alexandre Aguiar Bastos
Sergio Fernandes Martins
Divoncir Schreiner Maran
Marcos José de Brito Rodrigues
