Senador apresentou representação criminal contra o diretor-geral afastado da PF e Leandro Almada, pediu preservação urgente de provas e defendeu prisão caso sejam confirmados os requisitos legais
O senador Carlos Viana (PSD-MG) apresentou nesta terça-feira, 8 de setembro, uma representação criminal à Procuradoria-Geral da República para pedir a apuração imediata da atuação de Andrei Rodrigues, afastado preventivamente da direção-geral da Polícia Federal, e de Leandro Almada da Costa, também afastado do comando da Inteligência Policial.
No documento encaminhado ao procurador-geral Paulo Gonet, Viana requer a preservação urgente das provas e a análise individualizada de medidas cautelares contra os dois delegados, “inclusive prisão preventiva”, caso sejam concretamente demonstrados os pressupostos e requisitos previstos na legislação.
A representação amplia a pressão sobre a cúpula afastada da PF poucas horas depois de o ministro André Mendonça determinar a retirada de Andrei e Almada de suas funções.
O que Carlos Viana pede
A representação foi encaminhada por meio do Ofício nº 428/2026, assinado pelo senador e endereçado diretamente a Paulo Gonet.
Viana pede que sejam investigados os fatos relacionados à produção e à circulação dos relatórios de inteligência elaborados dentro da Polícia Federal. O senador também quer que a apuração alcance uma possível participação, ciência, autorização ou supervisão de agentes públicos, incluindo os dois dirigentes afastados.
O documento requer:
apuração criminal imediata dos fatos;
identificação dos responsáveis pela produção dos relatórios;
investigação sobre quem autorizou ou supervisionou os documentos;
preservação urgente das provas;
adoção das medidas cautelares necessárias;
avaliação de prisão preventiva, caso os requisitos legais sejam demonstrados.
A medida alcança Andrei Rodrigues e Leandro Almada, mas a investigação poderá identificar outros servidores ou autoridades eventualmente envolvidos na elaboração e no compartilhamento do material.
Representação surge após decisão de Mendonça
O documento de Carlos Viana foi apresentado no mesmo dia em que André Mendonça determinou o afastamento preventivo dos dois dirigentes.
O ministro classificou como de “superlativa gravidade e ilicitude” a produção dos relatórios que analisaram sua atuação, sua relação com o advogado-geral da União, Jorge Messias, e até a religião compartilhada pelos dois.
Segundo Mendonça, os documentos indicam que existia um “monitoramento e coleta dirigida” de informações havia mais de um mês.
Os relatórios foram posteriormente utilizados por Alexandre de Moraes para pedir providências contra Mendonça dentro do Inquérito das Fake News. Parte do material era apócrifa, não possuía valor probatório e apresentava conclusões classificadas como de confiança baixa ou moderada.
Mesmo com essas advertências, Moraes utilizou o conteúdo para imputar ao colega possíveis práticas de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade.
Mendonça não decretou prisão
A decisão assinada por André Mendonça nesta terça-feira analisou pedidos apresentados pelo Partido Novo nos dias 2 e 3 de setembro.
Entre as medidas solicitadas estava a prisão preventiva de Andrei Rodrigues. Mendonça, porém, não acolheu essa parte do pedido naquele momento. O ministro optou pelo afastamento preventivo, pela abertura de investigações criminal e disciplinar e pela suspensão da produção de relatórios semelhantes.
Agora, Carlos Viana busca reabrir a discussão sobre a cautelar mais grave.
A representação sustenta que a prisão deverá ser avaliada se a investigação demonstrar riscos concretos, como interferência na apuração, destruição ou ocultação de provas, pressão sobre testemunhas ou continuidade das condutas investigadas.
Maioria do STF mantém afastamento
A Segunda Turma do Supremo formou maioria para referendar a decisão de Mendonça.
Luiz Fux e Kassio Nunes Marques acompanharam o relator, formando três votos pela manutenção do afastamento de Andrei e Almada. Gilmar Mendes, entretanto, pediu vista e suspendeu a conclusão do julgamento.
O pedido de vista não revogou a cautelar. Os dois continuam afastados enquanto o processo permanece sob análise.
A cúpula da Polícia Federal reagiu à medida e passou a classificá-la como política. O diretor-executivo da corporação, William Murad, manifestou publicamente confiança em Andrei Rodrigues.
Pedido foi entregue justamente a Paulo Gonet
A representação também contém uma questão institucional delicada: o documento foi enviado a Paulo Gonet, autoridade igualmente mencionada nas mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro.
Gonet já enfrenta pedidos para se declarar impedido de atuar nos procedimentos relacionados ao Caso Master. A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal e outras entidades sustentam que o procurador-geral não deveria conduzir medidas ligadas a fatos nos quais seu próprio nome aparece.
Foi Gonet quem pediu a nulidade do relatório policial que expôs as mensagens de Vorcaro para Alexandre de Moraes e referências ao próprio procurador-geral.
Agora, caberá à PGR comandada por ele avaliar a representação criminal apresentada por Carlos Viana contra Andrei Rodrigues, outro nome citado no mesmo conjunto de mensagens.
Essa circunstância deverá aumentar a pressão para que Gonet explique se participará pessoalmente da análise ou se encaminhará o documento a outro integrante do Ministério Público, preservando a aparência de independência e imparcialidade.
Prisão preventiva exige requisitos
Embora a repercussão política seja imediata, a prisão preventiva não pode ser adotada como antecipação de pena.
Para sua decretação, a legislação exige a existência de indícios de autoria, prova da ocorrência de crime e risco concreto decorrente da liberdade do investigado, como ameaça à ordem pública, à instrução criminal ou à aplicação da lei penal.
A representação de Viana reconhece essa exigência ao pedir a prisão somente “caso concretamente presentes os pressupostos e requisitos legais”.
A partir de agora, a PGR deverá avaliar se os fatos narrados justificam a abertura de apuração, se as provas precisam ser preservadas imediatamente e se existem fundamentos para solicitar novas medidas ao Supremo.
Pressão sobe de afastamento para possível prisão
O afastamento de Andrei Rodrigues já representava o episódio mais grave enfrentado pela Polícia Federal durante o atual governo.
A representação de Carlos Viana aumenta o peso da crise ao deslocar a discussão do campo administrativo e institucional para a esfera criminal.
O que começou com mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro chegou ao contrato milionário entre o Banco Master e o escritório da família de Alexandre de Moraes, passou pelo uso do Inquérito das Fake News contra André Mendonça e desembocou na denúncia de possível monitoramento realizado pela Inteligência da PF.
Agora, o diretor-geral afastado e o chefe da Inteligência estão formalmente apontados em uma representação enviada à Procuradoria-Geral da República.
A pergunta que a investigação deverá responder é objetiva: os relatórios foram um trabalho regular de inteligência ou a estrutura da Polícia Federal foi utilizada para monitorar autoridades e abastecer uma disputa interna no Supremo?
Se a segunda hipótese for comprovada, o afastamento poderá ser apenas o início das consequências.