Nota de repúdio divulgada nesta sexta-feira critica escolhas administrativas e supostas omissões na segurança pública; secretário ainda não apresentou posicionamento pessoal sobre as operações, segundo as informações disponíveis.
A sequência de operações que colocou delegados e policiais civis na mira de investigações por suspeitas de envolvimento com o crime organizado ganhou um novo capítulo político nesta sexta-feira (6). Veteranos do Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garras) divulgaram uma nota de repúdio com duras críticas à condução da segurança pública de Mato Grosso do Sul e uma cobrança direta ao secretário de Estado de Justiça e Segurança Pública, Antônio Carlos Videira.
O documento denuncia o que os veteranos classificam como aparelhamento indevido da unidade, questiona interferências administrativas e afirma que os responsáveis pela gestão estadual não podem se eximir de suas responsabilidades políticas.
Embora o governador Eduardo Riedel também seja citado, a cobrança ganha especial relevância em relação a Videira, responsável pela condução da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) e pela gestão administrativa da pasta à qual a Polícia Civil está vinculada.
A manifestação ocorre após as operações Infiltrados I e II, conduzidas pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), e Ifrit, deflagrada pela Polícia Federal. As investigações apuram suspeitas de desvio de drogas apreendidas, corrupção, lavagem de dinheiro e participação de agentes públicos em organizações criminosas.
Veteranos cobram responsabilidade política de Antônio Carlos Videira
O trecho mais contundente da nota é direcionado à gestão da segurança pública.
“O Secretário de Estado de Justiça e Segurança Pública e o Governador do Estado não podem se eximir da responsabilidade política pelo atual estado de coisas.”
Na sequência, os veteranos fazem uma cobrança ainda mais direta:
“Cabe-lhes responder pelas escolhas administrativas, pelas interferências promovidas e pela omissão diante de situações que comprometem a instituição.”
A manifestação coloca em discussão a responsabilidade administrativa pela condução das unidades policiais, especialmente no que diz respeito às escolhas para cargos de chefia e aos mecanismos de fiscalização.
Os postos de comando das delegacias especializadas fazem parte da estrutura administrativa da Polícia Civil, vinculada à Sejusp. As nomeações e designações seguem competências próprias da administração estadual.
Sejusp se manifestou, mas secretário ainda não comentou pessoalmente os escândalos
Desde a segunda fase da Operação Infiltrados, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública apresentou posicionamento institucional.
A pasta afirmou que não compactua com desvios de conduta ou práticas ilícitas cometidas por integrantes das forças de segurança e que eventuais irregularidades devem ser apuradas com rigor, respeitando o devido processo legal.
Entretanto, conforme O Contribuinte apurou, não foi identificada manifestação pessoal de Antônio Carlos Videira tratando especificamente das suspeitas reveladas pelas operações Infiltrados e Ifrit.
O secretário tem aparecido em veículos locais nesta semana discutindo a Proposta de Emenda à Constituição relacionada à segurança pública nacional, mas ainda não foi apresentada uma declaração sua sobre a gravidade das acusações envolvendo integrantes da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul.
Ex-chefe do Garras está entre os principais investigados
Um dos personagens centrais das investigações é o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, que já esteve à frente do Garras e da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar).
Hoffman foi preso preventivamente em setembro, durante a primeira fase da Operação Infiltrados.
Segundo o Gaeco, o delegado é suspeito de integrar uma organização criminosa que utilizava a própria estrutura policial para desviar drogas apreendidas e comercializá-las com traficantes.
Nesta semana, a Justiça recebeu denúncia criminal contra Hoffman e outros 23 investigados, que passaram à condição de réus.
Na quarta-feira (4), Hoffman também recebeu um novo mandado de prisão preventiva, desta vez durante a Operação Ifrit, da Polícia Federal.
A investigação federal aponta suspeitas de participação do delegado em uma organização ligada ao tráfico internacional de drogas e armas.
Segundo a PF, Hoffman teria participado do desvio de aproximadamente duas toneladas de cocaína armazenadas na Denar. Os investigadores suspeitam que os entorpecentes eram substituídos por material adulterado, de qualidade inferior, para dificultar a identificação do desvio.
A Polícia Federal também investiga movimentações milionárias relacionadas ao esquema.
A defesa do delegado informou que ainda não teve acesso integral aos autos da nova investigação e ressaltou que medidas cautelares não representam condenação.
Nova operação atingiu ex-chefe da Defron e policiais civis
Na quinta-feira (5), o Gaeco deflagrou a Operação Infiltrados II, ampliando as investigações sobre suspeitas de desvio de drogas dentro da Polícia Civil.
Desta vez, a apuração se concentrou em policiais que atuaram na Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Fronteira (Defron).
Segundo o Ministério Público, o esquema teria funcionado entre junho de 2025 e maio de 2026.
Um dos episódios mais graves envolve mais de 500 quilos de cocaína que deveriam ser incinerados em setembro de 2025, mas teriam sido desviados e entregues a traficantes.
A operação teve quatro mandados de prisão preventiva e 11 de busca e apreensão, além de medidas cautelares contra nove policiais civis.
Entre os alvos de busca estava o delegado Guilherme Scucuglia Cezar, que comandou a Defron em 2025 e atualmente está lotado na Delegacia Especializada de Roubos e Furtos (Derf).
O Ministério Público não detalhou publicamente a participação individual do delegado no suposto esquema.
As operações atingem unidades especializadas que desempenham funções estratégicas no combate à criminalidade e ao tráfico de drogas em Mato Grosso do Sul.
Veteranos denunciam aparelhamento e defendem história do Garras
A nota dos veteranos não se limita às investigações criminais.
O documento apresenta uma crítica à forma como o Garras estaria sendo administrado e sustenta que a unidade não pode ser submetida a interesses políticos ou particulares.
“O GARRAS foi construído com sacrifício, coragem, profissionalismo e compromisso incondicional com a sociedade. Não é propriedade de gestores, tampouco instrumento de conveniências políticas ou interesses particulares.”
Os veteranos também repudiam o que classificam como aparelhamento indevido da unidade.
“Repudiamos o aparelhamento indevido da Unidade e qualquer interferência que subordine sua finalidade operacional a interesses alheios à atividade policial.”
A manifestação não apresenta exemplos específicos das interferências denunciadas nem identifica quem teria praticado cada ato.
Ainda assim, o posicionamento amplia a pressão por esclarecimentos sobre a gestão das unidades especializadas e a preservação de sua autonomia operacional.
Quem responde pelas escolhas e pela fiscalização?
A nota dos veteranos abre uma discussão que ultrapassa as prisões e os mandados de busca.
As investigações criminais buscam identificar quem desviou drogas, quem recebeu os entorpecentes e quem participou das organizações investigadas.
Já a administração pública precisa esclarecer outras questões.
Quem escolheu os responsáveis pelas unidades especializadas? Quais controles eram utilizados sobre as drogas apreendidas? Como eram fiscalizados os depósitos policiais? Que providências administrativas foram adotadas diante de eventuais irregularidades?
E, principalmente, o que a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública fez para impedir que a estrutura policial fosse eventualmente utilizada por integrantes do crime organizado?
São perguntas que não significam atribuir culpa antecipada a gestores, mas que fazem parte da fiscalização de uma área essencial para a população.
A nota dos veteranos reforça a necessidade de preservar a imagem dos policiais que atuam corretamente e que não podem ser confundidos com agentes suspeitos de práticas criminosas.
O documento termina defendendo a história e a identidade da unidade:
“O GARRAS TEM HISTÓRIA, TEM IDENTIDADE E NÃO PODE SER SUBMETIDO A INTERESSES POLÍTICOS OU PESSOAIS!”
Confira a nota dos veteranos do Garras na íntegra
NOTA DE REPÚDIO DOS VETERANOS DO GARRAS
Campo Grande – MS, 06 de novembro de 2026.
Nós, veteranos do GARRAS, repudiamos veementemente os acontecimentos que vêm desfigurando a identidade e comprometendo os valores históricos desta Unidade.
O GARRAS foi construído com sacrifício, coragem, profissionalismo e compromisso incondicional com a sociedade. Não é propriedade de gestores, tampouco instrumento de conveniências políticas ou interesses particulares.
Repudiamos o aparelhamento indevido da Unidade e qualquer interferência que subordine sua finalidade operacional a interesses alheios à atividade policial.
O Secretário de Estado de Justiça e Segurança Pública e o Governador do Estado não podem se eximir da responsabilidade política pelo atual estado de coisas. Cabe-lhes responder pelas escolhas administrativas, pelas interferências promovidas e pela omissão diante de situações que comprometem a instituição.
Não se trata de saudosismo ou resistência a mudanças, mas da defesa intransigente de uma história construída por gerações de profissionais que honraram o uniforme e o nome do GARRAS.
Pessoas passam, cargos passam, mas o legado institucional permanece.
O GARRAS TEM HISTÓRIA, TEM IDENTIDADE E NÃO PODE SER SUBMETIDO A INTERESSES POLÍTICOS OU PESSOAIS!
HONRA E LEALDADE!