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Vorcaro dizia ter informações privilegiadas de Gonet e pediu “proteção” ao chefe da PGR

Banqueiro afirmou que procurador-geral acompanhava pessoalmente o caso e que seus advogados haviam conversado com ele

As mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro não atingiram apenas o ministro Alexandre de Moraes e a direção da Polícia Federal. Os documentos também colocaram o procurador-geral da República, Paulo Gonet, no centro dos questionamentos sobre a rede de contatos utilizada pelo então dono do Banco Master.

Nos textos enviados ao interlocutor identificado pela PF como Alexandre de Moraes, Vorcaro relatou conversas de seus advogados com Gonet, afirmou que o procurador-geral estava examinando pessoalmente a situação e pediu ajuda para evitar que integrantes do Ministério Público Federal tomassem medidas contra o banco.

Em um dos diálogos, o banqueiro afirmou:

“Estamos no escuro, o Paulo só disse que tava olhando pessoalmente e que não teria sacanagem.”

“Paulo”, segundo a identificação realizada pela Polícia Federal, seria Paulo Gonet.

O conteúdo não comprova, isoladamente, que o procurador-geral tenha feito essa afirmação. Trata-se do relato de Vorcaro sobre uma suposta conversa mantida por seus advogados com a cúpula da PGR.

A mensagem, entretanto, exige apuração porque mostra que o banqueiro acreditava ter acesso a informações sobre uma investigação ainda em fase inicial e sem numeração conhecida pela defesa.

Advogados teriam falado com Gonet

Em 5 de novembro de 2025, Vorcaro escreveu a Moraes dizendo que não sabia exatamente qual investigação estava em andamento.

Na mesma mensagem, afirmou que os advogados criminalistas Pierpaolo Cruz Bottini e Roberto Podval haviam procurado Paulo Gonet:

“Na verdade estou um pouco perdido pois não sei nem qual inquérito é. Estou com o Pier e o Podval, falaram com o Paulo ambos, mas foi dito que nem um número tinha ainda, que estava designando a pessoa que iria cuidar.”

“Pier” seria Pierpaolo Bottini. “Podval” seria Roberto Podval. Os dois criminalistas atuaram na defesa de Vorcaro.

Segundo a mensagem, os advogados teriam recebido a informação de que o procedimento ainda não possuía número e de que uma pessoa estava sendo designada para cuidar do caso.

Procurados pelo Estadão, Bottini e Podval não se manifestaram sobre o conteúdo atribuído a Vorcaro.

A investigação precisará esclarecer se os encontros ou contatos ocorreram, qual informação foi repassada aos advogados e se os dados transmitidos estavam protegidos por sigilo.

Vorcaro submetia movimentos a Moraes

As mensagens também indicam que Vorcaro não queria adotar nenhuma estratégia institucional sem consultar Alexandre de Moraes.

O banqueiro afirmou que Pierpaolo Bottini pretendia apresentar uma petição aos órgãos de investigação para colocar o Master à disposição e tentar descobrir se existiam inquéritos em andamento.

Antes de autorizar a iniciativa, Vorcaro perguntou ao ministro:

“Acha que vale a pena? Não vou fazer nenhum movimento que você não achar produtivo.”

A frase mostra que, ao menos na percepção do banqueiro, Moraes exercia uma função de orientação sobre a estratégia adotada diante da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República.

Não se tratava apenas de informar o ministro sobre as dificuldades do banco. Vorcaro pedia que Moraes avaliasse se a defesa deveria ou não protocolar documentos perante os órgãos responsáveis pela investigação.

A revelação se torna ainda mais sensível porque, naquele período, o Banco Master mantinha um contrato de até R$ 131,27 milhões com o escritório comandado por Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

Não conseguimos reverter com Paulo ou Andrei?”

À medida que a possibilidade de uma operação policial se aproximava, as referências a Gonet se tornaram mais diretas.

No dia 15 de novembro, dois dias antes da prisão, Vorcaro perguntou:

“Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso.”

A referência a “Andrei” seria ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. A menção a “Paulo” foi associada ao procurador-geral.

Em outro trecho analisado pela PF, o banqueiro indicou que precisava de “proteção” de Andrei e de Paulo.

As mensagens demonstram uma tentativa de Vorcaro de alcançar simultaneamente as cúpulas dos dois órgãos que tinham capacidade de investigar e promover medidas contra ele: a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República.

O pedido de Vorcaro não prova que Gonet ou Andrei tenham oferecido proteção, atendido à solicitação ou praticado qualquer irregularidade. O fato comprovado até aqui é que o banqueiro citava os dois e tentava alcançá-los por meio do interlocutor atribuído a Moraes.

Orientação para evitar “sacanagem”

Os pedidos teriam começado antes da semana da prisão.

Em 30 de outubro de 2025, quando o Banco Master tentava viabilizar uma venda para um consórcio formado pela Fictor e por investidores dos Emirados Árabes Unidos, Vorcaro pediu que Moraes reforçasse uma orientação junto a Gonet e Andrei.

A intenção, segundo a mensagem, era evitar que “ninguém de baixo” fizesse “uma sacanagem” com o banco.

A expressão sugere que Vorcaro buscava uma espécie de garantia das cúpulas institucionais contra medidas adotadas por delegados, procuradores ou outros integrantes dos órgãos de investigação.

Em um Estado de Direito, as decisões da Polícia Federal e do Ministério Público não podem ser condicionadas aos interesses econômicos do investigado. Também não podem ser retardadas por pressão de autoridades externas ou por contatos mantidos fora dos autos.

Por isso, a apuração precisa esclarecer se o pedido ficou limitado às mensagens de Vorcaro ou se houve efetiva atuação para interferir no trabalho de delegados e procuradores.

Gonet terá de se manifestar sobre mensagens que o citam

Após receber o relatório policial, André Mendonça encaminhou o material à Procuradoria-Geral da República e solicitou informações complementares.

A situação é institucionalmente delicada: a PGR foi chamada a se manifestar sobre mensagens que citam o próprio procurador-geral como uma autoridade que estaria acompanhando pessoalmente o caso e da qual Vorcaro buscava “proteção”.

Isso não significa que Gonet esteja automaticamente impedido de atuar. A eventual existência de interesse pessoal, participação nos fatos ou comprometimento da imparcialidade precisa ser analisada de acordo com as provas e as normas aplicáveis.

Por outro lado, a resposta da PGR não pode ignorar que o nome de seu chefe aparece repetidamente nas mensagens de um investigado que tentava antecipar e impedir medidas contra si.

Gonet precisará esclarecer:

Se recebeu Pierpaolo Bottini ou Roberto Podval;

Se falou com os advogados sobre investigações envolvendo Vorcaro;

Se informou que o procedimento ainda não possuía número;

Se afirmou que estava analisando pessoalmente o caso;

Se disse que “não teria sacanagem” contra o banco;

Se foi procurado por Moraes a pedido de Vorcaro;

Se alguma medida foi adiada, revista ou redirecionada depois desses contatos.

Até a conclusão desta reportagem, não havia manifestação pública detalhada da PGR respondendo individualmente a esses pontos.

Quem fiscaliza o procurador-geral?

A revelação abriu um debate sobre quem deve investigar eventual crime comum atribuído ao procurador-geral da República.

A Lei Orgânica do Ministério Público da União estabelece, no artigo 57, inciso X, que compete ao Conselho Superior do Ministério Público Federal designar um subprocurador-geral da República para conhecer de inquérito, peças de informação ou representação sobre crime comum atribuível ao PGR e, sendo o caso, promover a ação penal.

Isso não significa que Gonet já tenha cometido crime ou que deva ser imediatamente denunciado. Significa que, se surgirem elementos concretos de participação em conduta criminosa, a apuração não precisa ficar sob o controle da própria autoridade mencionada.

Esse procedimento será explicado em uma reportagem jurídica específica do O Contribuinte, incluindo as hipóteses de afastamento, investigação e eventual responsabilização do procurador-geral.

Caso ameaça confiança nas instituições

A gravidade das mensagens não está somente nos nomes citados. Ela está na imagem de um banqueiro que acreditava poder mobilizar as cúpulas da Polícia Federal, da Procuradoria-Geral da República e do Supremo Tribunal Federal para impedir medidas contra seus negócios.

Mesmo que nenhuma autoridade tenha atendido aos pedidos, o fato de Vorcaro se sentir à vontade para solicitar “proteção”, discutir a investigação e pedir a reversão de providências exige uma resposta institucional.

A sociedade precisa saber se ele apenas mencionava contatos importantes para demonstrar influência ou se realmente possuía acesso privilegiado às autoridades responsáveis por investigá-lo.

O O Contribuinte continuará acompanhando os documentos, cobrando as versões dos envolvidos e mostrando todos os desdobramentos em Brasília.

Na próxima reportagem, o portal revelará as mensagens segundo as quais Daniel Vorcaro teria oferecido levar um filho de Paulo Gonet a Londres, em um episódio que amplia os questionamentos sobre a proximidade do banqueiro com a cúpula da PGR.