Ministro indicado por Lula afirma que “não existe hierarquia” entre integrantes do STF e quer analisar pessoalmente a mídia antes da sessão de terça-feira (15); André Mendonça reage e diz que introdução de elementos que não estão nos autos pode tumultuar julgamento e colocar investigações em risco.
A menos de 48 horas da sessão extraordinária que colocará o caso Alexandre de Moraes-Daniel Vorcaro diante do plenário do Supremo Tribunal Federal, uma nova disputa entre ministros explodiu neste domingo (13).
O ministro Cristiano Zanin determinou diretamente ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, a entrega ao seu gabinete de uma cópia integral da mídia extraída do celular de Daniel Vorcaro.
O prazo estabelecido por Zanin é curto:
até as 23 horas deste domingo.
O aparelho é um iPhone 17 Pro apreendido em 18 de novembro de 2025, durante a primeira fase da Operação Compliance Zero, e está na origem de parte relevante do material posteriormente analisado pela Polícia Federal.
“Não existe hierarquia”
No Ofício nº 15/2026, Zanin constrói uma série de fundamentos para justificar a requisição.
Entre eles, registra expressamente:
“Considerando que não existe hierarquia entre os Ministros do Supremo Tribunal Federal”.
O ministro também afirma que a própria PF informou ser possível disponibilizar cópia da mídia a todos os gabinetes sem comprometer a cadeia de custódia.
Zanin acrescenta que o material já havia sido compartilhado com os advogados de Daniel Vorcaro e com o Congresso Nacional, para instrução da CPMI, por determinação de André Mendonça.
Zanin diz precisar conhecer material para formar voto
O ministro afirma que deseja formar sua convicção para a sessão do dia 15 e que, para isso, precisa conhecer o material que deu origem ao procedimento requisitado por Mendonça.
Zanin escreve:
“este Ministro deseja formar a sua convicção para estar apto para o julgamento designado para o próximo dia 15/9”.
E determina:
“que faça a entrega de cópia da mídia […] no gabinete deste Ministro do Supremo Tribunal Federal até às 23 horas do dia de hoje”.
O ofício foi encaminhado diretamente a Andrei Rodrigues.
Zanin também comunicou a iniciativa ao presidente do STF, Edson Fachin, por meio de outro ofício.
Indicado por Lula
A movimentação ganha dimensão política porque Zanin integra o grupo de ministros que tem protagonizado os conflitos internos surgidos durante a crise.
Cristiano Zanin foi indicado ao STF pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2023 e, antes de chegar à Corte, atuou como advogado de Lula em processos da Operação Lava Jato.
Outro ministro que tomou decisões importantes durante a crise é Flávio Dino, também indicado por Lula e ex-ministro da Justiça de seu governo.
Essa origem política não demonstra, por si só, coordenação com o Palácio do Planalto ou atuação destinada a proteger Moraes.
Mas tornou-se elemento inevitável do debate político diante da atuação dos dois ministros às vésperas de um julgamento que envolve um colega da Corte.
Mendonça reage
A reação de André Mendonça veio no próprio domingo.
Em despacho na Pet 16.704, Mendonça afirmou que todo o material necessário para o julgamento de terça-feira já está integralmente disponível aos ministros.
E advertiu que acrescentar agora informações que não integram os autos poderia alterar o curso do julgamento.
O trecho é duro:
“A inserção de elementos adicionais, que não constam dos autos até o presente momento, o que inclui a abertura de todas as informações contidas no celular do senhor Daniel Vorcaro, somente contribuiria para tumultuar o julgamento”.
Mendonça foi além.
Segundo ele, isso:
“colocaria em risco todo o seguimento e êxito das investigações”.
E poderia gerar questionamentos capazes de:
“desviar o feito especificamente apregoado para julgamento de seu caminho natural”.
“Subterfúgios ou desvios de rotas”
No encerramento, Mendonça utiliza expressão ainda mais contundente.
Recorrendo a uma manifestação anterior de Fachin, escreveu:
“A gravidade dos fatos não autoriza atalhos”.
E completou:
“mas também não tolera subterfúgios ou desvios de rotas, rumo a outros interesses que não os da Justiça.”
A troca de ofícios mostra que o conflito deixou definitivamente os bastidores.
Agora está documentado nos autos.