O MPMS apura possível direcionamento de compras públicas; a existência dos contratos, por si só, não caracteriza irregularidade por parte dos municípios.
A investigação da Operação Gutenberg começa a revelar a dimensão dos contratos firmados entre a Editora Avante, sediada em São Paulo, e prefeituras de Mato Grosso do Sul.
Segundo levantamento obtido pela reportagem, entre 2022 e 2025, ao menos 12 municípios contrataram a empresa, em negócios que somam aproximadamente R$ 22,1 milhões.
A editora tem como proprietário o empresário Joatan Gomes Peixoto, preso na operação, enquanto seu filho, Matheus Oliveira Peixoto, também foi alvo de mandado de prisão preventiva.
De acordo com o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), a investigação apura a existência de uma organização criminosa suspeita de direcionar compras públicas de livros paradidáticos por meio de procedimentos sem licitação, movimentando mais de R$ 27 milhões em recursos públicos.
É importante destacar que o fato de um município ter contratado a empresa investigada não significa, por si só, que tenha cometido qualquer irregularidade. A legalidade de cada procedimento será analisada individualmente no curso das investigações.
Ranking dos contratos
1º — Dourados: R$ 13 milhões
Dourados aparece como o município que mais contratou a Editora Avante.
Foram dois contratos:
Setembro de 2023 — R$ 4,3 milhões
Julho de 2024 — R$ 8,6 milhões
Os recursos foram destinados à aquisição de kits pedagógicos voltados à educação infantil, saúde preventiva, combate ao bullying, violência escolar, obesidade infantil, saúde bucal e prevenção ao uso de drogas.
2º — Campo Grande: R$ 3,2 milhões
Na Capital, o contrato foi firmado em maio de 2024 para implantação do projeto Craque na Vida.
Segundo a Prefeitura, aproximadamente 29 mil alunos da Rede Municipal de Ensino seriam atendidos pelo programa, que utiliza livros, ferramentas tecnológicas e avaliações pedagógicas para mapear habilidades, identificar situações de vulnerabilidade e orientar ações de prevenção à violência e ao uso de drogas.
3º — Ladário: R$ 1,2 milhão
Ladário firmou quatro contratos com a empresa entre dezembro de 2022 e agosto de 2024.
Os valores foram:
R$ 459,2 mil;
R$ 350,2 mil;
R$ 149,2 mil;
R$ 249 mil.
4º — Miranda: R$ 1 milhão
Miranda contratou kits pedagógicos da empresa em contrato que totalizou aproximadamente R$ 1 milhão.
5º — Ivinhema: R$ 874,1 mil
O município realizou duas contratações em julho de 2022, que juntas alcançaram R$ 874,1 mil.
6º — São Gabriel do Oeste: R$ 640,1 mil
O contrato foi firmado em abril de 2024, totalizando R$ 640,1 mil.
7º — Caarapó: R$ 589,3 mil
Em dezembro de 2025, a Prefeitura contratou a empresa pelo valor de R$ 589,3 mil.
8º — Deodápolis: R$ 474,8 mil
O município adquiriu kits pedagógicos em contrato de aproximadamente R$ 474,8 mil.
9º — Bonito: R$ 357,6 mil
A contratação ocorreu em dezembro de 2024 e totalizou R$ 357.618,00.
10º — Sonora: R$ 302,2 mil
Entre novembro de 2024 e março de 2025, a Prefeitura firmou contratos que somaram R$ 302,2 mil.
11º — Porto Murtinho: R$ 249,9 mil
O contrato foi celebrado em agosto de 2023, no valor de R$ 249,9 mil.
12º — Anaurilândia: R$ 207,6 mil
O menor contrato identificado no levantamento foi firmado em abril deste ano, totalizando R$ 207,6 mil.
O que investiga o Gaeco
Segundo o MPMS, a organização investigada teria utilizado procedimentos de contratação direta para direcionar a aquisição de livros paradidáticos em diversos municípios.
Além dessa frente, os investigadores apuram a suspeita de que servidores públicos ligados ao Complexo Regulador Estadual (Core) tenham utilizado influência sobre a liberação de consultas, exames, cirurgias e leitos hospitalares para favorecer interesses relacionados aos contratos investigados.
Durante a operação, equipes do Gaeco cumpriram mandados de busca no Core e apreenderam documentos e outros materiais que agora serão submetidos à análise pericial.
Próximos passos
Com a conclusão das buscas e prisões, a investigação entra em uma etapa de análise detalhada dos contratos, processos administrativos, pareceres jurídicos e movimentações financeiras.
O Ministério Público deverá examinar individualmente cada contratação para verificar se houve ou não irregularidades na aplicação dos recursos públicos.
Até eventual denúncia, julgamento e decisão definitiva, os investigados permanecem amparados pelos princípios constitucionais da ampla defesa, do contraditório e da presunção de inocência.