(67) 9 9689-6297 | ocontribuintebr@gmail.com

Gestão de Juliano Ferro contratou Editora Avante, fez aditivo e entrou no radar da Operação Gutenberg

Prefeitura comandada por Juliano Ferro, conhecido nacionalmente como o “prefeito mais louco do Brasil”, contratou a Editora Avante por inexigibilidade e elevou o negócio a aproximadamente R$ 874 mil.

Administrada por Juliano Ferro, do PL, conhecido nacionalmente como o “prefeito mais louco do Brasil”, a Prefeitura de Ivinhema está entre as administrações municipais que passaram a ser cobradas pelo Ministério Público por contratos firmados com empresas investigadas na Operação Gutenberg.

No caso de Ivinhema, o município contratou a Editora Avante em julho de 2022 por R$ 586.862,50, sem realização de uma disputa convencional entre fornecedores.

Menos de 30 dias depois, em 5 de agosto daquele ano, a gestão municipal assinou um aditivo de R$ 287.267,50. Com o acréscimo, o contrato alcançou R$ 874.130. 

O crescimento foi de aproximadamente 49% sobre o valor originalmente contratado.

A contratação ocorreu durante o primeiro mandato de Juliano Ferro e foi realizada por inexigibilidade de licitação, mecanismo utilizado quando o poder público sustenta que não existe possibilidade de competição devido à exclusividade ou singularidade do produto.

O Gaeco investiga se esse modelo foi utilizado para direcionar contratos milionários de livros paradidáticos a um grupo específico de empresas.

Conversa ocorreu após pagamento de Ivinhema

O contrato ganhou maior relevância para a investigação depois que o Gaeco recuperou conversas entre Felipe Paroschi Jafar e Rhayane Souza Fanaia, que aparecia formalmente como proprietária da Editora Avante.

Segundo o relatório, em 18 de agosto de 2022, Felipe trocou informações bancárias com Rhayane para viabilizar uma transferência destinada ao CNPJ da Gráfica CGR Ltda.

Os investigadores destacaram que a conversa ocorreu logo depois de a Prefeitura de Ivinhema efetuar pagamento à Editora Avante.

O relatório registra que Felipe encaminhou uma chave PIX e que a movimentação estava relacionada aos recursos oriundos do município.

A suspeita do Gaeco está concentrada na sequência dos acontecimentos: o dinheiro público entrava na conta da editora e, logo depois, integrantes do grupo trocavam orientações sobre a distribuição dos recursos.

Administração de Juliano Ferro entrou no radar

Ivinhema aparece formalmente entre os municípios que receberam ofícios do Gaeco para entregar toda a documentação referente à relação com a Editora Avante.

Em despacho assinado em 6 de julho de 2026, o Ministério Público determinou que a prefeitura apresentasse, no prazo de dez dias úteis:

o contrato firmado com a editora;

o procedimento administrativo que antecedeu a contratação;

os documentos relativos à execução;

os elementos que justificaram a inexigibilidade de licitação;

e os registros relacionados à entrega e ao pagamento dos materiais.

Além de Ivinhema, o despacho relacionou Campo Grande, Dourados, Angélica, Miranda, Douradina, Itaporã, Bonito, Ladário, Rio Negro, Santa Rita do Pardo, Porto Murtinho, Deodápolis, São Gabriel do Oeste, Rochedo e Cassilândia. 

Isso não significa que todos os prefeitos ou servidores desses municípios já tenham sido formalmente acusados de crimes. Significa que as administrações passaram a integrar o campo de apuração documental da Operação Gutenberg.

Mais de 30 prefeituras são cobradas

A dimensão da apuração é maior do que a lista inicial de municípios oficiados na deflagração da operação.

Levantamento incorporado aos documentos reunidos sobre o caso aponta que mais de 30 prefeituras celebraram contratos com empresas investigadas e passaram a ter de explicar as razões das aquisições, realizadas em grande parte sem licitação.

Ivinhema está nesse grupo.

A apuração também alcança prefeitos e outros agentes políticos mencionados em mensagens recuperadas pelo Gaeco. Relatórios citam tratativas envolvendo diferentes prefeituras, além de referências a autoridades com foro por prerrogativa de função, como prefeitos e deputados estaduais. 

Em uma etapa anterior, o surgimento desses nomes chegou a motivar a remessa do caso ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul. Posteriormente, entendeu-se que ainda seria necessário produzir mais provas antes da abertura de investigações específicas contra agentes políticos.

Juliano Ferro confirmou contrato e negou irregularidade

Juliano Ferro confirmou que a Prefeitura de Ivinhema adquiriu os materiais da Editora Avante em 2022.

Segundo declaração já prestada pelo prefeito, tratou-se de uma única aquisição e todo o material teria sido entregue corretamente.

O prefeito também afirmou que o Gaeco solicitou informações sobre a forma de contratação e que o departamento jurídico municipal estava providenciando a documentação.

“Nós fizemos aquisição, em 2022, uma única aquisição. Todo o material foi entregue perfeitamente. O Gaeco já pediu os modos de contratação. O nosso jurídico da prefeitura está encaminhando, se já não encaminhou, mas estamos bem tranquilos”, declarou Juliano Ferro. 

O chefe do Executivo de Ivinhema negou ainda qualquer envolvimento em negociação de vagas hospitalares, exames ou cirurgias.

Ferro sustentou que a contratação foi feita dentro da legalidade e destacou que as contas de seu primeiro mandato foram aprovadas pelo Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul. 

A aprovação de contas, contudo, não impede a investigação de contratos específicos caso surjam novos indícios.

Por que os prefeitos entraram na apuração

A Operação Gutenberg investiga uma suposta organização que teria atuado simultaneamente em duas áreas sensíveis: educação e saúde.

De acordo com a linha investigativa, integrantes do grupo ofereciam livros paradidáticos da Editora Avante a prefeituras enquanto mantinham influência sobre a regulação estadual de consultas, exames, cirurgias e leitos hospitalares.

O Gaeco apura se o atendimento de demandas municipais na saúde foi usado como moeda de influência para facilitar a venda dos livros.

Essa suspeita ainda precisa ser individualizada município por município.

No caso de Ivinhema, Juliano Ferro nega que tenha existido qualquer relação entre a compra dos materiais e a liberação de procedimentos médicos.

Contrato teve aditivo em apenas 22 dias

A rapidez do aditivo é um dos pontos que deverão ser explicados pela gestão municipal.

O contrato original foi celebrado em 14 de julho de 2022. O acréscimo ocorreu em 5 de agosto, apenas 22 dias depois.

O valor adicional, de R$ 287.267,50, corresponde a quase metade do contrato original.

A investigação deverá verificar:

qual fato justificou a necessidade do aditivo em tão pouco tempo;

se houve aumento na quantidade de materiais;

se a demanda adicional era previsível;

quem elaborou o pedido;

quais secretarias e servidores atestaram a necessidade;

como foi calculado o novo valor;

e se os produtos foram efetivamente entregues e distribuídos.

O aditivo, por si só, não comprova irregularidade. Alterações contratuais são permitidas pela legislação dentro de condições e limites determinados. No contexto da Gutenberg, porém, ele ganhou relevância devido à investigação sobre o destino posterior dos recursos.

Avante havia sido criada oito meses antes

Outro ponto destacado pelo Ministério Público é que a Editora Avante havia sido constituída em novembro de 2021, aproximadamente oito meses antes de fechar o contrato com Ivinhema.

Para o Gaeco, a empresa ainda era recente e sua proprietária formal, Rhayane Fanaia, não demonstrava experiência suficiente no setor para justificar uma contratação milionária baseada em notoriedade e exclusividade.

Mesmo assim, Ivinhema contratou a editora diretamente, alegando inexigibilidade de licitação. O mesmo modelo se repetiu em outras cidades. 

A investigação busca saber se as cartas de exclusividade e as justificativas técnicas eram legítimas ou se serviram para eliminar a concorrência.

Felipe Jafar e o controle informal da empresa

Embora Rhayane aparecesse formalmente como proprietária, o Gaeco sustenta que o controle efetivo da Editora Avante estaria nas mãos de Rossana Paroschi Jafar e dos filhos Giovanni, Olívia e Felipe.

Segundo decisão judicial, os dados bancários indicaram que recursos recebidos de entes públicos eram distribuídos entre Rhayane, Rossana e Heyder Bartz, por meio da Superconteúdo. As conversas recuperadas também apontariam a atuação de outros integrantes e servidores públicos. 

Nesse contexto, a participação de Felipe na indicação de uma conta bancária logo após o pagamento de Ivinhema é tratada como parte do possível controle informal do fluxo financeiro da editora.

O caminho do dinheiro

A apuração relacionada a Ivinhema deverá reconstruir todo o percurso dos R$ 874 mil:

a origem da contratação;

a justificativa da inexigibilidade;

o aditivo assinado em menos de um mês;

os pagamentos feitos pelo município;

as transferências efetuadas pela Avante;

as empresas e pessoas que receberam os valores;

os documentos apresentados para justificar cada saída;

e os beneficiários econômicos finais.

O Gaeco terá de demonstrar se os pagamentos identificados eram despesas comerciais legítimas ou parte de uma distribuição irregular de recursos públicos.