Venda para grupo goiano encerra um dos capítulos mais conturbados da história do transporte coletivo da Capital e abre expectativa por mudanças no sistema
A confirmação da venda das empresas que compõem o Consórcio Guaicurus para a HP Mobilidade representa mais do que uma simples troca de controle societário. O anúncio simboliza o encerramento de um ciclo de 14 anos marcado por promessas não cumpridas, desgaste entre usuários e poder público, sucessivos descumprimentos contratuais e um longo processo de deterioração do transporte coletivo em Campo Grande.
Criado em 2012 para assumir a operação do Sistema Integrado de Transporte (SIT), o Consórcio Guaicurus nasceu com a proposta de modernizar a mobilidade urbana da Capital. Ao longo dos anos, porém, a realidade enfrentada diariamente pelos passageiros passou a contrastar com os compromissos firmados no contrato de concessão.
Ônibus antigos, veículos quebrando durante as viagens, incêndios, atrasos constantes, superlotação e terminais sem a manutenção esperada tornaram-se reclamações frequentes da população.
A venda anunciada nesta semana ocorre justamente após o momento de maior pressão já enfrentado pelo grupo empresarial.
Um contrato que previa modernização
Quando venceu a concessão do transporte coletivo, o Consórcio Guaicurus assumiu uma série de obrigações para garantir qualidade ao serviço.
Entre elas estavam a renovação periódica da frota, investimentos em infraestrutura, manutenção adequada dos veículos, melhoria dos terminais e padrões mínimos de conforto e eficiência para os passageiros.
O contrato estabelecia, por exemplo, que a idade média da frota deveria permanecer em aproximadamente cinco anos, admitindo veículos com até dez anos de fabricação apenas desde que a média geral fosse respeitada.
Na prática, porém, esse cenário nunca se consolidou.
Dados apresentados durante o processo de intervenção mostram que a idade média da frota atualmente gira em torno de dez anos, enquanto ainda circulam ônibus fabricados em 2010 — anteriores, inclusive, ao início da própria concessão.
O sucateamento passou a fazer parte da rotina
Nos últimos anos, tornou-se comum o registro de ônibus quebrando em vias movimentadas da Capital, interrompendo viagens e obrigando passageiros a esperar outro coletivo ou seguir o trajeto a pé.
Também se multiplicaram vídeos mostrando veículos soltando fumaça, apresentando falhas mecânicas ou até sendo consumidos por incêndios.
Para milhares de usuários, esses episódios deixaram de ser fatos isolados e passaram a representar um retrato da situação do sistema.
Ao mesmo tempo, os terminais de integração passaram a receber críticas relacionadas à conservação, limpeza, acessibilidade e conforto.
O resultado foi uma deterioração gradual da confiança da população no transporte coletivo.
Subsídios, multas e cobranças
Durante esse período, o Consórcio Guaicurus continuou recebendo recursos públicos destinados à manutenção do sistema, incluindo subsídios e benefícios previstos em lei.
Paralelamente, também acumulou notificações e multas aplicadas pelos órgãos responsáveis pela fiscalização da concessão.
Segundo a prefeita Adriane Lopes, somente em relação à renovação da frota havia uma cobrança para a substituição de 235 ônibus que deveriam ter sido retirados de circulação.
Apesar das autuações, a obrigação contratual permaneceu sem cumprimento integral.
A CPI mudou o rumo da história
Um dos principais marcos da crise ocorreu com a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Transporte Coletivo na Câmara Municipal.
Ao longo das investigações, vereadores ouviram representantes das empresas, órgãos públicos, especialistas e usuários.
O relatório final apontou uma série de falhas na execução do contrato, reforçando o entendimento de que havia descumprimentos reiterados das obrigações assumidas pelo consórcio.
A divulgação dessas conclusões ampliou a pressão política sobre a concessionária e fortaleceu o debate sobre medidas mais severas.
A intervenção rompeu um paradigma
O passo seguinte veio com a decisão da Prefeitura de decretar intervenção no sistema.
Pela primeira vez desde o início da concessão, o município assumiu temporariamente a administração das empresas para levantar informações financeiras, operacionais e contratuais.
A medida marcou uma ruptura na relação entre o poder concedente e o grupo empresarial.
Além de administrar a operação, os interventores passaram a realizar auditorias e levantamentos internos para compreender a real situação econômica do sistema.
Foi justamente nesse ambiente que surgiu a confirmação da venda para a HP Mobilidade.
A venda muda o controlador, mas não apaga o passado
Embora a negociação represente o encerramento da participação do Consórcio Guaicurus na operação do transporte coletivo, ela não elimina automaticamente os desafios acumulados ao longo dos últimos anos.
A futura controladora herdará um sistema que exige investimentos significativos para recuperar a qualidade do serviço.
Será necessário renovar grande parte da frota, modernizar os terminais, melhorar a regularidade das linhas, aumentar o conforto dos passageiros e reconstruir a confiança da população.
Além disso, a Prefeitura já deixou claro que somente autorizará a transferência caso a nova empresa apresente um plano consistente de transformação.
O desafio da HP Mobilidade
Caso receba a anuência do município, a HP Mobilidade assumirá um dos maiores desafios da mobilidade urbana de Mato Grosso do Sul.
A empresa terá de demonstrar capacidade técnica, financeira e operacional para cumprir obrigações que, segundo o próprio município, deixaram de ser atendidas ao longo da última década.
A expectativa criada pela mudança é elevada justamente porque o histórico recente do sistema foi marcado por frustrações.
A população espera resultados concretos, e não apenas uma alteração no quadro societário.
Mais do que trocar de empresa
O encerramento do ciclo do Consórcio Guaicurus também representa um momento de reflexão sobre a forma como contratos públicos de longa duração precisam ser fiscalizados.
Ao longo de 14 anos, a deterioração do sistema ocorreu de maneira gradual, acompanhando sucessivas reclamações dos usuários e cobranças dos órgãos públicos.
A venda das empresas surge, portanto, como consequência de um processo que envolveu desgaste operacional, pressão política, fiscalização, investigações, atuação do Legislativo e, por fim, a intervenção decretada pela Prefeitura.
A mudança que a população espera
Independentemente de quem esteja no controle da concessão, a expectativa dos passageiros permanece a mesma.
Quem utiliza o transporte coletivo diariamente quer ônibus confiáveis, pontuais, confortáveis e compatíveis com o contrato firmado entre a concessionária e o município.
A venda do Consórcio Guaicurus encerra um dos capítulos mais longos da história recente da mobilidade urbana de Campo Grande.
Agora, a responsabilidade passa a ser transformar a mudança empresarial em melhorias concretas nas ruas.
Se isso ocorrer, a venda poderá ser lembrada como o marco de uma nova fase para o transporte coletivo da Capital. Caso contrário, terá representado apenas a troca do nome de quem administra um problema que há anos acompanha a rotina dos campo-grandenses.