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Santa Casa suspende cirurgias eletivas e crise expõe colapso que vai muito além da falta de recursos

Sem insumos e com médicos ameaçando deixar a instituição, Santa Casa vive uma sequência de crises que inclui atrasos de salários, disputa judicial por repasses milionários e questionamentos sobre sua administração.

A decisão da Santa Casa de Campo Grande de suspender atendimentos ambulatoriais e cirurgias eletivas marca um novo capítulo da crise enfrentada pelo maior hospital filantrópico de Mato Grosso do Sul. O anúncio foi feito nesta quarta-feira (29), após a instituição informar que enfrenta falta de medicamentos, materiais hospitalares e insumos básicos, além do atraso no pagamento de médicos contratados como pessoas jurídicas e autônomos.

A suspensão atinge especialidades como cardiologia intervencionista, urologia, ortopedia, radiologia intervencionista, ultrassonografia e psiquiatria. Também deixam de ser realizados procedimentos eletivos gerais, pediátricos, cardíacos e vasculares. Apenas áreas consideradas essenciais, como oncologia, hematologia e transplante renal, seguem funcionando normalmente em razão da complexidade dos pacientes atendidos.

Além da interrupção dos procedimentos, chefes dos serviços médicos discutem uma saída coletiva da instituição caso os pagamentos não sejam regularizados dentro do prazo estabelecido. Se confirmada, a medida poderá comprometer ainda mais a capacidade de atendimento do principal hospital de referência do Estado.

A direção clínica comunicou oficialmente a situação ao Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul (CRM-MS), à Secretaria Municipal de Saúde, à Secretaria de Estado de Saúde e ao Ministério Público Estadual.

Uma crise que se agravou ao longo dos últimos meses

A suspensão das cirurgias não é um fato isolado. Ela ocorre após uma sequência de acontecimentos que evidenciam o agravamento da situação financeira e operacional da Santa Casa.

Nos últimos meses, médicos relataram atrasos sucessivos nos pagamentos pelos serviços prestados. Enfermeiros e demais funcionários também realizaram paralisações cobrando salários e o pagamento do 13º salário, enquanto fornecedores passaram a pressionar o hospital por débitos em aberto.

Poucos dias antes de anunciar a suspensão das cirurgias, a própria direção da instituição já havia informado que os estoques de medicamentos, próteses, órteses, materiais cirúrgicos e insumos estavam abaixo do nível considerado seguro, obrigando o hospital a priorizar semanalmente quais produtos poderiam ser adquiridos.

Agora, o risco já atinge diretamente a realização de procedimentos eletivos e coloca em alerta pacientes que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS) e da estrutura da Santa Casa.

Disputa por repasses milionários

Paralelamente à redução dos atendimentos, a Santa Casa voltou a recorrer ao Poder Judiciário para cobrar aproximadamente R$ 26,5 milhões que afirma serem devidos pela Prefeitura de Campo Grande e pelo Governo do Estado em razão da atualização monetária dos repasses realizados entre dezembro de 2025 e julho de 2026.

Além da cobrança, a instituição pede a prorrogação do contrato emergencial e defende um novo convênio que eleve os repasses mensais dos atuais R$ 32,7 milhões para cerca de R$ 46 milhões.

O Município, por sua vez, sustenta que mantém os pagamentos conforme o convênio vigente e argumenta que a Santa Casa não estaria cumprindo integralmente as metas assistenciais previstas no contrato, discussão que também é analisada pela Justiça.

Gestão também passou a ser alvo de questionamentos

Enquanto busca novos recursos para enfrentar a crise, a administração da Santa Casa também passou a enfrentar uma série de questionamentos públicos.

Nos últimos meses, reportagens publicadas pelo Portal O Contribuinte revelaram que o diretor financeiro da instituição mantém uma frota de veículos de alto padrão registrada em seu nome. Embora a posse do patrimônio não configure irregularidade, a divulgação ocorreu em meio ao agravamento da crise financeira e aos atrasos salariais enfrentados por profissionais do hospital.

Outra reportagem mostrou que o advogado da Santa Casa mantém escritório registrado no mesmo endereço anteriormente utilizado pela atual presidente da instituição, Alir Terra, além de diversas empresas ligadas ao setor da saúde também registradas no mesmo local. A coincidência, por si só, não caracteriza ilegalidade, mas passou a gerar questionamentos sobre transparência e governança.

Mais recentemente, o advogado Oswaldo Meza ingressou com medidas judiciais buscando acesso a documentos relacionados à gestão da Santa Casa. Após críticas públicas feitas à administração do hospital, ele também foi alvo de um boletim de ocorrência registrado pela presidente Alir Terra.

Sequência de fatos amplia preocupação

A suspensão das cirurgias eletivas passa a integrar uma sequência de acontecimentos que inclui atrasos salariais, paralisações de profissionais, escassez de insumos, disputa judicial por repasses milionários e questionamentos envolvendo a administração da instituição.

Enquanto Estado, Município e direção do hospital discutem responsabilidades e a continuidade do financiamento da unidade, milhares de pacientes acompanham com preocupação o agravamento da situação daquele que é considerado o principal hospital de alta complexidade de Mato Grosso do Sul.