Segundo O Globo, Roberta Luchsinger encaminhou a Marcola documento relacionado à venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde
As novas informações encontradas pela Polícia Federal sobre a atuação da lobista Roberta Luchsinger ganharam uma cifra que chama atenção: R$ 626 milhões.
Segundo informações publicadas pelo jornal O Globo a partir do material da investigação, Roberta teria encaminhado a Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, uma minuta relacionada a um negócio para fornecer medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde.
Marcola não era um personagem qualquer dentro do governo.
Ele foi chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, posteriormente, também atuou na coordenação da campanha eleitoral do petista.
Do outro lado estava Roberta, amiga e parceira comercial de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, segundo as próprias mensagens encontradas pela PF.
A mesma lobista que dizia em conversas privadas ser “uma coisa só” com o filho do presidente aparece agora no centro de uma tratativa milionária que passava por um ex-integrante do núcleo mais próximo de Lula.
R$ 626 milhões em medicamentos
De acordo com as informações atribuídas ao relatório da Polícia Federal, o negócio envolvia medicamentos à base de cannabis e poderia alcançar aproximadamente R$ 626 milhões.
O material citado nas revelações menciona uma operação de grande escala, envolvendo cerca de 1,2 milhão de frascos e dezenas de apresentações de medicamentos.
A minuta teria sido enviada por Roberta justamente a Marcola.
O documento passa a interessar aos investigadores porque ajuda a reconstruir o caminho percorrido por empresários e intermediários que buscavam abrir portas dentro do governo federal.
Marcola estava no coração do governo Lula
Marco Aurélio Santana Ribeiro ocupou uma posição de enorme proximidade com Lula.
Como chefe de gabinete, estava inserido no cotidiano político e administrativo do presidente.
Mais tarde, também passou pela estrutura da campanha eleitoral do petista.
É justamente essa posição que torna relevante o aparecimento de seu nome nas conversas e documentos relacionados a Roberta.
Segundo as informações já reveladas sobre o relatório da PF, a lobista não apenas mantinha contato com Marcola como recorria a ele em assuntos que envolviam interesses empresariais.
E o negócio do canabidiol não é o único episódio que aproximou os dois.
Outras conversas encontradas pelos investigadores já revelaram uma relação de confiança entre Roberta e Marcola, incluindo episódios envolvendo pagamentos e até a compra de joias.
O O Contribuinte já mostrou que diálogos interceptados pela PF apontaram Roberta negociando a aquisição de brincos e colar de diamantes destinados ao ex-assessor presidencial.
Agora aparece algo muito maior do ponto de vista financeiro.
Uma operação potencial de centenas de milhões de reais.
A conexão com Lulinha
O caso ganha outra dimensão porque Roberta também aparece nas mensagens descrevendo uma relação muito próxima com Fábio Luís Lula da Silva.
Em conversa de janeiro de 2024, ela escreveu:
“Fábio e eu somos uma coisa só. Se um fala vai, tds vão. A gente eh mesmo irmão sabe.”
Em outro diálogo, afirmou estar em sociedade com Fábio e Fernando.
“Eu disse: onde eu tô. Na minha sociedade com Fábio e Fernando.”
As mensagens foram reveladas pela Veja a partir do relatório produzido pela Polícia Federal.
Em outra sequência, Roberta dizia que Lulinha precisava permanecer preservado:
“Fábio não faz nada.”
“Ele só entra em campo qdo precisa.”
“Tem q se preservar.”
O “Careca do INSS” também aparece no entorno das apurações
A investigação envolvendo Lulinha e Roberta nasceu de elementos encontrados nos desdobramentos da Operação Sem Desconto.
Um dos nomes que aparece nessa história é Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, personagem central das investigações relacionadas às fraudes contra aposentados.
A Polícia Federal passou a investigar se Lulinha teria atuado para facilitar o acesso de Antunes a integrantes do governo federal em tratativas envolvendo justamente medicamentos à base de cannabis.
O procedimento foi autorizado pelo ministro André Mendonça em 30 de julho.
É importante separar as duas coisas.
Lulinha não é apontado como integrante do esquema de descontos indevidos do INSS.
O que passou a ser investigado são possíveis relações paralelas descobertas a partir do material recolhido pela PF.
Entre elas, possíveis atos de tráfico de influência e corrupção.
Da amizade aos negócios públicos
A sucessão de fatos encontrados pelos investigadores começa a montar um quadro mais amplo.
Roberta dizia ter sociedade com Lulinha.
Dizia ser “uma coisa só” com ele.
Afirmava que o próprio Lula teria lhe oferecido a possibilidade de escolher uma função no governo.
Mantinha relação próxima com Marcola, então homem de confiança do presidente.
E aparece enviando ao ex-chefe de gabinete uma minuta ligada a uma negociação que poderia alcançar R$ 626 milhões dentro do Ministério da Saúde.
A pergunta central da investigação passa a ser cada vez menos sobre quem Roberta conhecia.
Isso as próprias mensagens já ajudam a responder.
O que a PF precisa descobrir agora é para que essas relações eram usadas.
E, principalmente, até onde chegava a capacidade desse grupo de interferir ou abrir portas dentro da máquina pública federal.