Roberta Luchsinger afirmou em conversa obtida pela PF que recusou a possibilidade porque preferia permanecer em sociedade com Fábio Luís Lula da Silva e Fernando.
Novas mensagens encontradas pela Polícia Federal colocam a lobista Roberta Luchsinger ainda mais perto do círculo político e familiar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e acrescentam novos elementos às investigações que já alcançam Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
Em conversas de janeiro de 2024 reproduzidas em relatório da PF e reveladas pela revista Veja, Roberta afirma que o próprio presidente teria lhe dado a possibilidade de escolher onde gostaria de atuar.
A empresária diz ainda que não teria aceitado uma posição no governo porque preferiu continuar na sociedade que mantinha com Fábio, identificado como Lulinha, e Fernando.
“Sabe, fui das poucas pessoas q o Lula chamou e perguntou: escolhe onde vc quer ficar”, escreveu Roberta em mensagem de 21 de janeiro de 2024.
Na sequência, explicou qual teria sido sua resposta.
“Eu disse: onde eu tô. Na minha sociedade com Fábio e Fernando.”
E completou:
“Tô em cargo nenhum e ando onde eu quero.”
O conteúdo das mensagens foi reproduzido pela Veja a partir do material reunido pela Polícia Federal.
“Fábio e eu somos uma coisa só”
Outro trecho localizado pela PF chama ainda mais atenção para o grau de proximidade que Roberta dizia manter com o filho do presidente.
Em mensagem reproduzida no relatório, a lobista escreveu:
“Fefe, Fábio e eu somos uma coisa só. Se um fala vai, tds vão. A gente eh mesmo irmão sabe.”
A frase não trata apenas de uma relação social.
Ela é encontrada em um conjunto de conversas no qual Roberta fala repetidamente sobre negócios, sociedade e decisões tomadas em conjunto com pessoas de seu círculo.
Em outra sequência, a empresária afirma:
“Fábio não faz nada.”
Logo depois, explica:
“Ele só entra em campo qdo precisa.”
E conclui:
“Tem q se preservar.”
O conteúdo passa agora a integrar o quebra-cabeça analisado pelos investigadores para compreender qual seria o papel de cada integrante do grupo e até onde ia a participação de Lulinha nas articulações atribuídas a Roberta.
Roberta aparece no centro de novas revelações
Os novos diálogos surgem no momento em que o nome de Roberta Luchsinger ganha espaço cada vez maior nas investigações derivadas de elementos encontrados pela Polícia Federal durante os desdobramentos da Operação Sem Desconto.
As apurações começaram no rastro do escândalo dos descontos indevidos em benefícios do INSS, mas algumas das informações encontradas deram origem a outras frentes envolvendo suspeitas de tráfico de influência e corrupção em áreas do governo federal.
Lulinha não é acusado de participar diretamente do esquema de descontos fraudulentos contra aposentados.
O filho do presidente, porém, passou a ser investigado em procedimentos abertos depois que a PF encontrou elementos relacionados a outras negociações.
E Roberta aparece repetidamente nesse novo núcleo de informações.
Segundo o material já revelado pelas investigações, a lobista mantinha proximidade com Lulinha e também se relacionava com personagens que transitavam dentro do governo Lula.
Entre eles está Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, que foi chefe de gabinete do presidente e posteriormente integrou a coordenação de sua campanha eleitoral.
Reportagens já mostraram conversas e operações envolvendo Roberta e Marcola. Em um dos novos episódios, revelado pelo jornal O Globo, a lobista teria encaminhado ao ex-assessor presidencial uma minuta relacionada a um negócio milionário envolvendo medicamentos à base de canabidiol e o Ministério da Saúde.
Esse caso será objeto de uma reportagem específica do O Contribuinte.
Da proximidade pessoal aos negócios
A importância das novas conversas está justamente no fato de que elas fornecem uma dimensão adicional à relação que Roberta dizia manter com a família presidencial.
Não se trata apenas de uma pessoa que afirmava conhecer Lulinha.
Nas mensagens encontradas pela PF, ela se apresenta como sócia do filho de Lula, diz que ambos eram “uma coisa só”, afirma que Fábio somente “entra em campo quando precisa” e relata ter recebido do próprio presidente a possibilidade de escolher onde gostaria de ficar.
Segundo trecho destacado pela Veja, Roberta teria contado a um empresário que Lula chegou a lhe oferecer uma posição no governo, mas que ela optou por continuar onde estava.
“Fui das poucas pessoas q o Lula chamou e perguntou: escolhe onde vc quer ficar. (…) Eu disse: aonde eu tô. Na minha sociedade com Fábio e Fernando”, disse.
Esse diálogo ganha peso especialmente porque as investigações tentam identificar até onde pessoas próximas ao filho do presidente conseguiam transitar dentro da administração federal e intermediar interesses empresariais.
Mais mensagens aparecem
Outro diálogo, também reproduzido no material entregue ao O Contribuinte, mostra Roberta falando abertamente sobre suas ambições financeiras.
Em conversa de janeiro de 2024, após uma troca de mensagens descontraída, ela escreveu:
“Eu quero 100 milhões esse ano.”
Questionada na conversa, respondeu:
“Pra mim.”
E depois ironizou:
“Sou modesta.”
PF tenta descobrir tamanho da atuação do grupo
As novas revelações ampliam uma investigação que já deixou de girar exclusivamente em torno das fraudes descobertas no INSS.
A questão agora é saber se pessoas próximas a Lulinha utilizavam suas relações políticas para aproximar empresários de órgãos públicos, facilitar reuniões ou intermediar negócios dentro do governo federal.
É nesse cenário que as conversas privadas de Roberta passam a ter importância.
Elas mostram aquilo que a própria lobista dizia sobre seu poder, suas sociedades e suas relações.
E, principalmente, mostram que Roberta não descrevia Lulinha como alguém distante de seus negócios.
Pelo contrário.
“Fábio e eu somos uma coisa só”, escreveu.
Agora caberá à Polícia Federal separar a ostentação de influência da influência efetivamente exercida, identificar quais negócios avançaram dentro do governo e determinar se houve atuação ilegal.
As próximas revelações encontradas no mesmo relatório adicionam cifras ainda maiores ao caso.
Uma delas envolve uma minuta relacionada à venda de medicamentos ao Ministério da Saúde que poderia alcançar R$ 626 milhões e que, segundo O Globo, teria sido encaminhada por Roberta justamente a Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula.
É o próximo elo dessa história.