Banqueiro afirmou que o Master não quebraria se Andrei Rodrigues conseguisse adiar as medidas; pedido foi feito menos de 24 horas antes da prisão
Na véspera de ser preso, Daniel Vorcaro pediu ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que procurasse o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, para tentar adiar as medidas que estavam sendo preparadas contra o Banco Master.
As mensagens foram enviadas no domingo, 16 de novembro de 2025, quando o banqueiro já demonstrava conhecimento sobre a possibilidade de uma operação policial na segunda-feira.
“Ele tá sabendo das soluções? E quer antecipar pra não deixar acontecer? Qual sua leitura? O que tá havendo? E com Andrei dá pra segurar?”, perguntou Vorcaro.
Minutos depois, às 16h57, o banqueiro fez um pedido ainda mais direto:
“Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível.”
Os textos foram extraídos do celular de Vorcaro, analisados pela Polícia Federal e revelados inicialmente pelo jornal O Estado de S. Paulo.
A ordem de prisão contra o banqueiro seria assinada somente no dia seguinte. Vorcaro foi detido na noite de 17 de novembro, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino inicial a Malta e posterior viagem prevista para Dubai.
Pedido para interferir no calendário da PF
As mensagens mostram que Vorcaro não buscava apenas informações genéricas sobre a investigação. Ele queria modificar o momento em que as medidas seriam executadas.
O objetivo declarado era ganhar mais alguns dias para concluir uma tentativa de venda do Banco Master a um consórcio formado pela Fictor Holding Financeira e por investidores dos Emirados Árabes Unidos.
Segundo o banqueiro, caso a PF adiasse a operação para depois do feriado, o Master não quebraria.
Naquele período, a instituição enfrentava uma corrida contra o tempo. O avanço das investigações e das medidas do Banco Central poderia inviabilizar definitivamente a negociação.
Ao pedir que Moraes “chamasse” e “sensibilizasse” Andrei Rodrigues, Vorcaro tratava o ministro como alguém capaz de acessar diretamente o comando da Polícia Federal e tentar influenciar o cronograma de uma operação sigilosa.
Pedidos começaram antes
As referências a Andrei Rodrigues não apareceram somente na véspera da prisão.
Em 30 de outubro de 2025, quando o Banco Master se preparava para anunciar a suposta venda, Vorcaro pediu a Moraes que reforçasse, junto ao diretor-geral da PF e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, uma orientação para que integrantes da base das instituições não tomassem medidas contra o banco.
Segundo o conteúdo atribuído ao banqueiro, seria necessário evitar que “ninguém de baixo” fizesse “uma sacanagem” com o Master.
No dia 15 de novembro, dois dias antes da prisão, Vorcaro voltou a mencionar as duas autoridades:
“Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso.”
A sequência demonstra que o banqueiro acreditava que Moraes tinha condições de dialogar com as cúpulas da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República para conter ou reverter medidas que atingiriam seus negócios.
Conhecimento prévio sob investigação
Um dos principais pontos que precisam ser esclarecidos é como Vorcaro sabia que uma operação poderia ser realizada na segunda-feira.
No sábado, 15 de novembro, ele perguntou a Moraes:
“Acha que segunda já tenho que estar fora?”
No domingo, questionou se havia alguma chance de a medida acontecer na manhã seguinte. Depois, perguntou se Andrei conseguiria “segurar” a operação e pediu que ela fosse transferida para a outra semana.
Naquele momento, a ordem de prisão preventiva ainda não estava assinada. A decisão foi formalizada às 15h29 de segunda-feira, 17 de novembro.
A cronologia levantou entre os investigadores a suspeita de que o banqueiro possuía informações privilegiadas sobre a fase inicial da Operação Compliance Zero.
A apuração precisa identificar a origem desse conhecimento e verificar se houve vazamento de dados sigilosos.
Menção não comprova participação de Andrei
O fato de Vorcaro mencionar Andrei Rodrigues não comprova que o diretor-geral da Polícia Federal tenha recebido o pedido, tomado conhecimento da tentativa de interferência ou praticado qualquer ato em favor do Banco Master.
As mensagens divulgadas registram aquilo que Vorcaro pediu a Moraes. Até o momento, não foi apresentada uma resposta de Andrei nem prova de que Moraes tenha feito o contato solicitado.
Para esclarecer esse ponto, a investigação deverá verificar:
Se Moraes procurou Andrei Rodrigues depois das mensagens;
Se houve ligação, encontro ou troca de mensagens entre os dois;
Se a data da operação chegou a ser discutida ou modificada;
Se alguma informação sigilosa foi transmitida ao ministro ou ao banqueiro;
Se integrantes da PF receberam pressões para retardar as diligências;
Se Vorcaro obteve a informação por outra fonte.
Sem essas respostas, não é possível atribuir responsabilidade ao diretor-geral apenas porque seu nome apareceu nas mensagens do banqueiro.
Mendonça cobrou relatório em 72 horas
Ao receber as informações, o ministro André Mendonça determinou que a Polícia Federal aprofundasse a apuração sobre as referências a Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues.
A corporação recebeu prazo de 72 horas para apresentar um relatório sobre as menções às três autoridades e esclarecer quem era o interlocutor das mensagens produzidas por Vorcaro.
A ordem causou tensão entre Mendonça e a direção da PF. A determinação foi interpretada internamente como uma investigação que alcançaria diretamente autoridades da cúpula da República, incluindo um integrante do próprio Supremo.
Mendonça insistiu na necessidade de identificar o interlocutor e compreender a rede de contatos acionada pelo banqueiro. A análise posterior da PF associou as mensagens a Alexandre de Moraes.
O relator também encaminhou o material à Procuradoria-Geral da República e concedeu prazo para manifestação.
Moraes nega recebimento
Alexandre de Moraes nega ter recebido as mensagens de Vorcaro. O ministro também rejeita qualquer acusação de atuação irregular relacionada ao Banco Master.
A PF recuperou as capturas de tela produzidas no celular do banqueiro, mas não teve acesso às eventuais respostas enviadas pelo destinatário.
Parte do material teria sido encaminhada pelo WhatsApp com o recurso de visualização única. As imagens eram inicialmente escritas no aplicativo de notas e depois enviadas ao contato salvo no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
Diante da negativa, os investigadores precisarão buscar registros técnicos independentes para confirmar o recebimento e verificar se houve alguma resposta ou providência depois dos pedidos.
Uma operação policial pode ser adiada por intervenção externa?
A definição da data de uma operação policial deve obedecer a critérios técnicos, jurídicos e de segurança. A programação das diligências não pode ser alterada para favorecer o alvo, preservar seus negócios ou permitir a conclusão de uma negociação particular.
Uma eventual intervenção destinada a avisar o investigado, retardar medidas ou frustrar o cumprimento de decisões judiciais pode assumir gravidade penal e institucional, dependendo da conduta efetivamente comprovada.
No caso Master, ainda é necessário demonstrar se a tentativa de Vorcaro produziu algum efeito. O pedido está documentado; o atendimento, até agora, não.
Essa diferença será decisiva para definir as responsabilidades de cada autoridade citada.
Contrato milionário amplia questionamentos
Quando fez os pedidos, o Banco Master já havia transferido dezenas de milhões de reais ao escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.
O contrato poderia alcançar R$ 131,27 milhões em valores brutos. Documentos apresentados ao Senado indicam que aproximadamente R$ 80,2 milhões foram pagos entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025.
Metadados da versão final também registraram o perfil “Ministro Alexandre de Moraes” como responsável pela última modificação do documento.
Por isso, os pedidos para que Moraes acionasse a direção da PF não ocorreram entre duas pessoas sem relação financeira ou pessoal conhecida. Eles surgiram no contexto de um contrato milionário que beneficiava o escritório comandado pela esposa do ministro.
O O Contribuinte continuará acompanhando os fatos e analisando os documentos liberados por André Mendonça. Na próxima reportagem, o portal mostrará como as mensagens de Vorcaro também atingiram Paulo Gonet e por que a situação do procurador-geral da República passou a ser questionada.