Alir Terra Lima e Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa são advogados e terão cela especial; outros quatro investigados também foram presos preventivamente e passarão por audiência de custódia.
A sexta-feira (11) terminou com uma mudança radical no cenário da maior instituição hospitalar de Mato Grosso do Sul. Alir Terra Lima, presidente da Santa Casa de Campo Grande, deixará o comando da instituição para cumprir prisão preventiva no Presídio Militar da Capital.
Com ela também será encaminhado à unidade Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa, diretor adjunto de finanças da Santa Casa.
Os dois foram presos durante a Operação Antidotum, deflagrada pelo Gecoc e Gaeco para investigar um suposto esquema envolvendo contratos e recursos da Santa Casa e da operadora Santa Casa Saúde.
Como Alir e Paulo Guilherme são advogados, ambos serão encaminhados ao Presídio Militar, que dispõe de cela especial em razão da prerrogativa profissional.
Seis presos e a cúpula atingida
A operação atingiu diretamente diferentes setores da administração da Santa Casa.
Além da presidente e do atual diretor adjunto de finanças, foi preso Rinaldo Hakme Romano, ex-diretor financeiro, nome que já havia sido objeto de reportagens do Portal O Contribuinte durante a crise financeira enfrentada pela instituição.
Também foram presos Alessandro Dias Junqueira, ex-diretor administrativo; Monique Gregório de Oliveira, coordenadora do Serviço de Arquivamento Médico e Estatística; e o empresário Maurício Aparecido Benites.
Ao todo, foram cumpridos seis mandados de prisão preventiva e 36 mandados de busca e apreensão, com diligências em Campo Grande, Dourados e Goiânia.
Os seis presos ainda devem passar por audiência de custódia.
Contrato de R$ 5,4 milhões e suspeita de R$ 1,4 milhão desviado
Uma das frentes da Antidotum investiga um contrato para digitalização de prontuários médicos da Santa Casa.
O acordo previa pagamentos de R$ 1,8 milhão por ano, durante três anos, chegando a R$ 5,4 milhões.
A suspeita dos investigadores é de que tenham sido realizados pagamentos elevados sem a correspondente prestação dos serviços.
Segundo as informações divulgadas sobre a operação, somente no primeiro ano teriam sido desviados R$ 1,4 milhão.
Santa Casa Saúde entra na mira
A investigação não ficou restrita à estrutura hospitalar.
O Gecoc também identificou supostas irregularidades em contratos celebrados pela Santa Casa Saúde com diversas empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico.
Segundo a investigação, o proprietário das empresas mantinha ligações com a diretoria da Santa Casa.
Outro detalhe chamou a atenção dos investigadores: as empresas estavam registradas no mesmo endereço, porém, de acordo com a apuração, o imóvel estava desocupado.
E os valores são milionários.
Somente em 2025, a Santa Casa Saúde teria destinado aproximadamente R$ 9,6 milhões a essas empresas.
O prejuízo mínimo identificado até agora nessa frente seria de R$ 3,5 milhões.
Pelo menos R$ 4,9 milhões sob suspeita nas duas frentes
Considerando os valores informados até agora, as duas frentes investigadas apontam para pelo menos R$ 4,9 milhões em supostos prejuízos: R$ 1,4 milhão relacionado ao primeiro ano do contrato de digitalização e R$ 3,5 milhões envolvendo negócios da Santa Casa Saúde.
Esse número ainda pode mudar.
O próprio material da investigação informa que o prejuízo total causado à Santa Casa continua sendo apurado.
Documentos teriam sido sonegados até dos órgãos de fiscalização
Outro ponto relevante da Antidotum está na forma como os contratos eram apresentados aos órgãos responsáveis pela fiscalização.
Segundo o Gecoc, contratos, pagamentos e prestações de contas eram sistematicamente sonegados dos órgãos de controle.
Entre os órgãos que teriam ficado sem acesso às informações estão o Conselho Fiscal da própria Santa Casa e a Controladoria-Geral do Estado de Mato Grosso do Sul.
A investigação deverá agora esclarecer quem autorizava as contratações e pagamentos, quais empresas efetivamente receberam os recursos e qual teria sido a participação individual de cada investigado.
De uma crise milionária a uma operação policial
A operação ocorre depois de meses de crise financeira na Santa Casa.
O hospital vinha enfrentando atrasos, problemas com fornecedores e dificuldades para manutenção de serviços, ao mesmo tempo em que buscava novos recursos públicos para sustentar suas atividades.
Agora, a própria administração da instituição está no centro de uma investigação criminal sobre contratos milionários.
A prisão preventiva não representa condenação. Os investigados terão direito à defesa, e as responsabilidades individuais precisarão ser demonstradas ao longo da investigação e do processo.
A Operação Antidotum contou com apoio do Batalhão de Choque da Polícia Militar e participação da Comissão de Defesa e Assistência das Prerrogativas dos Advogados da OAB/MS.