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Intervenção confirma sucateamento: ônibus de Campo Grande têm idade média de 10,4 anos

Contrato estabelece parâmetro de cinco anos para idade média; levantamento dos interventores aponta 210 veículos fabricados até 2015.

O primeiro relatório oficial produzido após 90 dias de intervenção no Consórcio Guaicurus confirma em números um problema sentido há anos pelos passageiros do transporte coletivo de Campo Grande: o envelhecimento da frota.

O documento aponta que a idade média dos ônibus chegou a aproximadamente 10,4 anos, mais que o dobro do parâmetro de cinco anos previsto no contrato de concessão.

O levantamento também mostra que 210 dos 460 veículos identificados foram fabricados até 2015. Isso significa que aproximadamente 45,7% da frota é formada por ônibus com pelo menos 11 anos de fabricação em 2026.

O diagnóstico faz parte do relatório preliminar elaborado pela equipe que assumiu a administração da concessão em junho deste ano e que agora está nas mãos da prefeita Adriane Lopes (PP).

A intervenção foi decretada em 16 de junho, após decisão judicial e procedimento administrativo conduzido pelo município. Desde então, a Prefeitura, por meio da equipe interventora, passou a controlar temporariamente a gestão do sistema.

Idade média dobrou parâmetro do contrato

A situação encontrada pelos interventores ganha dimensão quando comparada às exigências estabelecidas para a concessão.

Segundo o relatório, o parâmetro contratual estabelece idade média máxima da frota de cinco anos, além das regras específicas relacionadas à idade máxima individual dos veículos.

O levantamento produzido durante a intervenção encontrou uma realidade muito distante desse padrão.

A idade média estimada chegou a 10,4 anos.

O próprio histórico apresentado no documento mostra que o problema vinha se agravando.

Em dezembro de 2023, levantamento da Agetran já apontava idade média de aproximadamente 6,73 anos.

Ou seja, a frota já estava acima do parâmetro naquele período e continuou envelhecendo nos anos seguintes.

210 ônibus foram fabricados até 2015

Outro dado chama atenção.

Dos 460 veículos identificados na frota, 210 foram fabricados até 2015.

Na prática, quase metade dos ônibus relacionados no levantamento ultrapassa uma década desde sua fabricação.

O relatório também aponta que não foram identificadas aquisições ou alienações de veículos entre 2023 e a data-base analisada pelos interventores.

Sem uma renovação suficiente, o resultado foi o envelhecimento progressivo da frota.

O problema ajuda a explicar parte das reclamações que se tornaram frequentes entre passageiros: ônibus quebrados, problemas de conservação, falhas de equipamentos e dificuldades para manter veículos disponíveis diariamente para a operação.

Mais de 21 mil autuações

O relatório dos interventores também recupera dados da fiscalização realizada antes da intervenção.

Entre 2021 e 2025, a Agetran registrou 21.910 autuações contra o Consórcio Guaicurus.

Desse total, 12.279 foram relacionadas ao descumprimento de horários.

Outras 3.444 ocorreram por omissões de viagens.

Também foram registradas 1.385 autuações envolvendo veículos com equipamentos obrigatórios defeituosos ou inoperantes.

Os números ajudam a dimensionar que a crise encontrada em 2026 não começou com a intervenção.

Ao contrário: o próprio relatório reconstrói uma sequência de problemas operacionais e contratuais acumulados ao longo dos anos.

O Contribuinte vinha mostrando sucateamento

O diagnóstico oficial também reforça um problema que vinha sendo acompanhado pelo O Contribuinte.

Antes mesmo da intervenção, o jornal publicou reportagens sobre o sucateamento do transporte coletivo, as condições da frota e as reclamações dos usuários.

O Contribuinte também realizou ampla cobertura da CPI do Transporte Público na Câmara Municipal, onde as condições dos ônibus, a renovação da frota, o cumprimento do contrato e a qualidade do serviço estiveram entre os assuntos discutidos.

A crise posteriormente chegou à Justiça.

O jornal também noticiou em primeira mão a ação popular apresentada por Luso Teixeira pedindo providências relacionadas à intervenção na concessão.

A ação judicial passou a integrar a sequência de acontecimentos que culminou na intervenção.

O próprio relatório registra que a medida adotada pela Prefeitura ocorreu diante da decisão liminar na ação popular e das conclusões do processo administrativo municipal. Em 16 de junho, Adriane Lopes editou o decreto e a equipe interventora assumiu as garagens e estruturas administrativas do sistema.

Intervenção encontrou sistema fragilizado

A equipe relata ter encontrado uma situação que classificou como de “extrema fragilidade financeira e operacional”.

No primeiro dia, a prioridade foi evitar que os problemas existentes provocassem uma interrupção no transporte.

Os recursos disponíveis passaram a ser direcionados prioritariamente para folha salarial e benefícios dos trabalhadores, compra de óleo diesel e aquisição de peças consideradas críticas para manutenção dos veículos.

A preocupação tinha motivo.

Além do envelhecimento da frota, o estoque de diesel encontrado em 16 de junho estava em nível considerado crítico, diante de um consumo médio de 26 mil litros por dia.

Relatório coloca renovação da frota no centro da discussão

Os números agora apresentados colocam a renovação da frota entre os principais desafios para o futuro do transporte coletivo de Campo Grande.

O problema, porém, não deverá ser resolvido apenas com medidas emergenciais.

O relatório preliminar aponta a necessidade de uma reestruturação substancial do próprio contrato de concessão diante do conjunto de deficiências identificadas pelos interventores.

A intervenção ainda não terminou e o documento é preliminar.

Também não cabe à equipe interventora estabelecer culpa ou responsabilidade definitiva pelos problemas encontrados. O próprio relatório esclarece que essa atribuição pertence ao processo administrativo apuratório, no qual deverão ser assegurados contraditório e ampla defesa.

Mas, após 90 dias com acesso às garagens, documentos, sistemas e dados internos da concessão, o primeiro diagnóstico oficial já dimensiona um dos principais problemas do sistema.

O passageiro que há anos reclamava de ônibus antigos agora tem um número para traduzir essa realidade: 10,4 anos de idade média para uma frota cujo parâmetro contratual é de cinco anos.