Ex-presidente, presa preventivamente na operação de 11 de setembro, abre mão da presidência do triênio 2026/2028 e também do cargo de conselheira; em carta, afirma que saída permitirá “gestão plena” da instituição.
Alir Terra Lima renunciou definitivamente à presidência da Santa Casa de Campo Grande, nesta quarta-feira, 23, após ser afastada do comando da instituição e presa preventivamente durante a Operação Antidotum, deflagrada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul no último dia 11 de setembro.
Na carta de renúncia, Alir informa que deixa não apenas o cargo de presidente, para o qual havia sido reconduzida no triênio 2026/2028, mas também sua posição de conselheira da instituição.
A decisão, conforme registra expressamente no documento, tem caráter “irrevogável e irretratável”.
A renúncia representa o encerramento formal da passagem de Alir pela direção da maior unidade hospitalar de Mato Grosso do Sul justamente no momento em que sua administração está no centro de uma investigação sobre contratos, pagamentos e movimentações financeiras da Santa Casa e da Operadora Santa Casa Saúde.
Alir diz que Santa Casa precisa de “gestão plena”
Na carta, Alir não entra no mérito das acusações feitas pelo Ministério Público.
A ex-presidente concentra sua justificativa na necessidade de garantir que o hospital continue funcionando sem obstáculos administrativos.
“A Santa Casa é uma instituição filantrópica que salva vidas e necessita continuar com gestão plena e sem entraves burocráticos, pois a doença não espera, decisões firmes devem ser tomadas.”
Alir também argumenta que a instituição precisa continuar as negociações e ações junto ao Ministério da Saúde e, para isso, considera necessária uma administração com plenas condições de tomar decisões.
No terceiro ponto da carta, ela relaciona diretamente sua saída definitiva à autonomia da nova direção:
“O afastamento da minha pessoa em caráter definitivo possibilitará decisões na gestão ao entendimento do novo Presidente com a Diretoria Corporativa, Administrativa e Conselho Administrativo.”
A renúncia, portanto, transforma em definitivo o afastamento que já havia ocorrido no contexto da investigação.
“Cumpri minha missão”
Alir também utiliza a carta para fazer um balanço pessoal de sua passagem pela instituição.
Ela afirma ter dedicado 40 anos de serviços e sustenta que sua atuação foi acompanhada pela sociedade e pelas pessoas ligadas ao hospital.
“São 40 anos de serviço prestados à sociedade, onde eu também passo; deste mundo nada levamos. Cumpri minha missão e cada um foi testemunha da minha dedicação.”
Apesar de deixar a presidência e o Conselho, Alir afirma que continuará associada à Santa Casa.
A carta termina com uma frase destacada pela própria ex-presidente:
“Que o doente, na Santa Casa, jamais seja visto como objeto de lucro.”
Renúncia ocorre após prisão na Antidotum
A saída definitiva ocorre menos de duas semanas depois da Operação Antidotum, que mudou completamente o cenário administrativo da Santa Casa.
Em 11 de setembro, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul, por meio do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc), com atuação do Gaeco no cumprimento das medidas, realizou uma ampla operação envolvendo o hospital.
Foram expedidos seis mandados de prisão preventiva e 36 mandados de busca e apreensão, com diligências em Campo Grande, Dourados e Goiânia.
Alir estava entre os seis alvos de prisão preventiva.
Também tiveram a prisão decretada Rinaldo Hakme Romano, Alessandro Dias Junqueira, Paulo Guilherme Gutierres Mariosa, Monique Gregório de Oliveira e Maurício Aparecido Benites.
As prisões são medidas cautelares e não representam condenação definitiva dos investigados.
MP colocou Alir no centro do comando institucional
No relatório que embasou as medidas da Antidotum, o Ministério Público atribui a Alir uma posição central na estrutura administrativa investigada.
Ao analisar o pedido, a própria decisão judicial registra que Alir é apontada como “centro do comando institucional”, relacionada à manutenção da contratação da Redvalue apesar das irregularidades comunicadas, à preservação da estrutura administrativa e a episódios de resistência à fiscalização.
A decisão também relaciona Alir à segunda frente investigada, envolvendo empresas relacionadas a Paulo da Cruz Duarte.
Essas são imputações decorrentes da investigação e ainda estão sujeitas ao contraditório e à análise judicial.
Contrato da Redvalue é uma das principais frentes
Uma das frentes da Antidotum envolve a contratação da Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços Ltda. para digitalização de documentos da Santa Casa.
Conforme já revelou O Contribuinte, a investigação aponta que o procedimento teria começado sem estudo técnico preliminar, termo de referência, análise de viabilidade ou demonstração objetiva de vantagem econômica.
O Ministério Público também encontrou mensagens mostrando que, antes da formalização do negócio, o empresário Maurício Benites teria encaminhado diretamente a Rinaldo Romano uma minuta editável do futuro contrato entre a Santa Casa e a Redvalue.
Posteriormente, o Conselho Fiscal apontou problemas relacionados à execução e aos pagamentos e recomendou a suspensão da contratação.
Segundo o Gecoc, Alir foi formalmente cientificada e, ainda assim, o contrato permaneceu vigente.
Segunda frente chegou à Santa Casa Saúde
A investigação também avançou sobre a Operadora Santa Casa Saúde.
Nesse núcleo, o MP investiga contratos celebrados com diferentes empresas relacionadas a Paulo da Cruz Duarte.
Os serviços alcançavam áreas como cobrança, comercialização e agenciamento de planos, administração de benefícios, telemedicina, publicidade e atividades relacionadas à abertura da filial de Dourados.
Segundo os dados apresentados na investigação, essas empresas receberam aproximadamente R$ 9,6 milhões somente em 2025.
Paulo da Cruz Duarte não foi preso na Antidotum. A Justiça determinou medidas cautelares, incluindo seu afastamento de funções relacionadas à instituição.
Santa Casa já tem novo comando
A renúncia formaliza também a transição administrativa iniciada depois da prisão de Alir.
O cirurgião cardiovascular Luiz Alberto Hiroki Kanamura, que já integrava a estrutura da Santa Casa e ocupava a Superintendência de Gestão Médico-Hospitalar, foi escolhido para assumir o comando da instituição.
Kanamura também já exerceu a função de diretor clínico.
Ele assume uma Santa Casa atravessada por dois problemas simultâneos: de um lado, uma grave crise financeira e operacional, que nos últimos meses atingiu médicos, trabalhadores, fornecedores e procedimentos; do outro, os efeitos de uma investigação criminal que alcançou integrantes da alta administração.
Um ciclo encerrado em meio à maior crise recente do hospital
A carta coloca oficialmente um ponto final no comando de Alir.
Antes da Antidotum, a Santa Casa já enfrentava cobranças por transparência, dificuldades financeiras, suspensão de procedimentos e problemas relacionados aos pagamentos de profissionais.
O Contribuinte acompanhou essa crise e também revelou questionamentos envolvendo empresas e pessoas relacionadas à administração da instituição antes da deflagração da operação.
Agora, enquanto o Ministério Público aprofunda a apuração e as defesas contestam as acusações, a Santa Casa inicia uma nova fase administrativa.
Alir, que havia sido reconduzida para comandar a instituição no triênio 2026/2028, abre mão definitivamente da presidência e do Conselho.
Na justificativa apresentada por ela própria, a decisão pretende permitir que o hospital siga adiante com uma administração sem os entraves provocados por seu afastamento.
A renúncia encerra o vínculo de Alir com os cargos de direção, mas não encerra os desdobramentos da Operação Antidotum nem as investigações sobre os atos praticados durante sua gestão.