Petista alcançou 154.157 votos, superou nomes da direita e ficou a apenas 6.399 votos da marca de Zeca, que recebeu 160.556 votos em 2014
Em uma eleição marcada pela força da direita e do bolsonarismo em Mato Grosso do Sul, um dos resultados mais expressivos das urnas veio justamente do outro lado do espectro político.
Camila Jara (PT) foi a candidata a deputada federal mais votada de Mato Grosso do Sul nas eleições de 2026, com 154.157 votos, superando nomes de peso da direita e ficando muito perto de alcançar um recorde que pertence há 12 anos a outro petista: o ex-governador Zeca do PT.
Em 2014, Zeca recebeu 160.556 votos para deputado federal, naquela que permanece como a maior votação para a Câmara Federal já registrada no Estado.
Camila ficou a apenas 6.399 votos dessa marca.
O resultado consolida uma ascensão política extremamente rápida. Em apenas seis anos desde sua primeira eleição, a petista saiu da Câmara Municipal de Campo Grande para chegar ao topo da votação para deputado federal em Mato Grosso do Sul.
E fez isso em um Estado onde a direita demonstrou novamente enorme força eleitoral em 2026.
De vereadora a fenômeno eleitoral em seis anos
Camila Jara chegou ao primeiro mandato eletivo em 2020, quando conquistou uma cadeira na Câmara Municipal de Campo Grande.
Antes disso, sua trajetória já estava ligada à esquerda e aos movimentos estudantis. Com vínculos familiares com a história do Partido dos Trabalhadores em Mato Grosso do Sul, Camila participou da militância política de esquerda e do movimento estudantil antes de chegar às urnas.
Ainda em 2020, quando Jair Bolsonaro ocupava a Presidência da República e Lula ainda estava longe de retornar ao Palácio do Planalto, Camila já carregava publicamente as bandeiras petistas e defendia o ex-presidente.
A primeira eleição foi apenas o começo.
Dois anos depois de chegar à Câmara Municipal, Camila disputou uma cadeira na Câmara dos Deputados.
Em 2022, foi eleita deputada federal com 56.552 votos.
Quatro anos depois, o salto impressiona.
Camila passou de 56.552 para 154.157 votos.
São 97.605 votos a mais, o que representa um crescimento de aproximadamente 173% sobre a votação obtida quatro anos antes.
Mais do que garantir a reeleição, ela terminou em primeiro lugar entre todos os candidatos a deputado federal de Mato Grosso do Sul.

Camila supera nomes fortes do bolsonarismo
O tamanho da votação fica ainda mais evidente quando comparado aos adversários.
Marcos Pollon, um dos principais nomes bolsonaristas do Estado, recebeu 140.129 votos e terminou atrás da petista. Ainda assim, Pollon também protagonizou uma votação histórica e superou com folga os 103.111 votos que havia conquistado em 2022.
Rose Modesto (União Brasil) recebeu 124.409 votos.
A deputada estadual Mara Caseiro (PL), que disputou uma vaga na Câmara, conquistou 120.199 votos.
Já Rodolfo Nogueira (PL) recebeu 103.303 votos.
Resultado chama atenção em eleição de avanço da direita
É justamente o contexto político de Mato Grosso do Sul que torna o resultado ainda mais significativo.
A eleição de 2026 produziu resultados expressivos para a direita no Estado.
No Governo, Eduardo Riedel foi reeleito no primeiro turno com 914.323 votos e 67,07% dos votos válidos, em uma campanha alinhada ao campo político que apoiou Flávio Bolsonaro.
No Senado, o PL conquistou as duas cadeiras em disputa.
Reinaldo Azambuja recebeu 903.554 votos, tornando-se o candidato ao Senado mais votado da história de Mato Grosso do Sul em números absolutos.
Capitão Contar recebeu outros 856.045 votos e assumiu a segunda maior votação nominal da história para o cargo, superando inclusive os 829.149 votos obtidos por Tereza Cristina em 2022.
Nesse ambiente eleitoral amplamente favorável à direita, Camila Jara aparece como uma das principais exceções da esquerda e uma das grandes vencedoras individuais das urnas sul-mato-grossenses.
Base de Lula no Congresso
A votação também veio depois de quatro anos em que Camila não buscou se afastar da identidade política que a levou à Câmara.
Durante o mandato iniciado em 2023, a deputada integrou a base de sustentação do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Congresso e manteve sua identificação com pautas progressistas.
Camila continuou defendendo publicamente Lula e bandeiras tradicionalmente associadas à esquerda, inclusive em um Estado no qual o eleitorado demonstrou nas últimas eleições forte identificação com o bolsonarismo.
Ou seja, o crescimento eleitoral não ocorreu por uma tentativa de esconder sua identidade partidária.
Ao contrário.
A petista mais que dobrou sua votação e chegou muito perto do maior resultado já registrado por um candidato a deputado federal na história de Mato Grosso do Sul.
Zeca ainda segura o recorde
Por enquanto, o primeiro lugar histórico continua nas mãos de Zeca do PT.
Ex-governador de Mato Grosso do Sul por dois mandatos e uma das maiores lideranças da história do PT no Estado, Zeca conquistou 160.556 votos para deputado federal nas eleições de 2014.
Camila chegou a 154.157.
A diferença entre os dois é de apenas 6.399 votos.
A proximidade ganha simbolismo adicional porque os dois pertencem ao mesmo partido.
Zeca construiu uma das trajetórias mais importantes da esquerda sul-mato-grossense, chegando ao Governo do Estado em 1998 e conquistando a reeleição em 2002.
Décadas depois, uma nova geração do PT chega muito perto de sua principal marca eleitoral para a Câmara dos Deputados.
Camila já aparece entre as maiores votações da história
Considerando algumas das votações mais expressivas levantadas pelo O Contribuinte nas eleições para deputado federal em Mato Grosso do Sul, o tamanho do resultado de 2026 fica evidente:

O levantamento mostra que Camila Jara alcançou a segunda maior votação desse recorte histórico, ultrapassando inclusive os 147.343 votos de Edson Giroto em 2010.
E há outro dado curioso: três candidatos de 2026 aparecem entre as cinco maiores votações desse levantamento, mostrando também o crescimento do eleitorado sul-mato-grossense ao longo dos anos.
Se os resultados gerais de 2026 reafirmaram Mato Grosso do Sul como um dos terrenos eleitorais mais favoráveis à direita, a votação para deputado federal deixou uma mensagem paralela: no meio de uma onda conservadora, Camila Jara conseguiu transformar-se na principal força eleitoral da esquerda sul-mato-grossense e ficou a poucos votos de fazer história.