Denúncia aponta uso de empresas para movimentar grãos, operações suspeitas e até possível destruição de provas antes de ação policial.
O Ministério Público de Mato Grosso denunciou o ex-deputado estadual de Mato Grosso do Sul Sérgio Pereira Assis, de 67 anos, seu filho, Mário Sérgio Cometki Assis, de 36, e os empresários Pedro Henrique Cardoso, de 36, e Wanderley Soares Barboza Júnior, de 44, pelos crimes de associação criminosa e estelionato.
Os quatro foram alvos da Operação Agro Fantasma e, conforme a denúncia apresentada na terça-feira (3), poderão ser obrigados a pagar R$ 57,734 milhões em reparação à vítima, caso o pedido seja acolhido pela Justiça.
Segundo o promotor Leoni Carvalho Neto, o grupo teria utilizado duas empresas, Santa Felicidade Agro Indústria e Imaculada Agronegócios, para realizar operações comerciais que resultaram em prejuízos ao produtor rural Silvano dos Santos, na região de Comodoro, em Mato Grosso.
Primeiro pagaram, depois conquistaram a confiança
Conforme o Ministério Público, a aproximação começou em março de 2025, quando Pedro Henrique e Mário Sérgio negociaram a compra de 60 mil sacas de soja do produtor.
O pagamento, dividido em duas parcelas de R$ 3,1 milhões, foi realizado normalmente.
A quitação teria servido para conquistar a confiança do agricultor. Posteriormente, os investigados alegaram dificuldades de crédito e pediram autorização para utilizar o nome e a reputação comercial de Silvano em negociações com outros produtores.
A partir daí, segundo a acusação, começaram as operações consideradas fraudulentas.
A denúncia também menciona a aquisição de uma aeronave avaliada em R$ 5,817 milhões, da qual teriam sido pagos apenas R$ 2,061 milhões.
Caminhão teria feito viagem impossível
Um dos pontos mais curiosos da investigação envolve os registros de transporte de grãos.
Segundo a documentação analisada, uma carreta teria sido carregada com 47.880 quilos de mercadoria em Comodoro, às 9h02, com destino a Alto Taquari, distante aproximadamente 1.124 quilômetros.
Entretanto, o mesmo veículo aparece em outro registro de carregamento em Comodoro às 13h26 do mesmo dia.
Na prática, os documentos indicariam que o caminhão percorreu mais de 2.200 quilômetros, considerando ida e volta, em pouco mais de quatro horas.
A inconsistência levantou suspeitas sobre a efetiva circulação das mercadorias e a correspondência entre notas fiscais e transportes realizados.
Empresa milionária sem estrutura compatível
Outro ponto destacado pelo Ministério Público envolve a Santa Felicidade.
Relatório da Secretaria de Fazenda de Mato Grosso identificou inconsistências entre o volume de grãos declarado pela empresa e sua estrutura operacional.
A fiscalização apontou consumo insuficiente de energia e insumos para justificar a quantidade de produtos supostamente beneficiados, além de questionamentos sobre créditos fiscais vinculados ao PRODEIC.
Também foi identificada incompatibilidade entre a capacidade financeira declarada de Wanderley e a aquisição formal da totalidade das cotas da empresa por R$ 2 milhões.
Segundo a denúncia, Pedro Henrique seria responsável por aproximadamente 80% a 90% dos contratos comerciais da Santa Felicidade, embora Wanderley figurasse formalmente como proprietário.
Grãos revendidos com prejuízo chamaram atenção
A investigação também identificou operações comerciais consideradas atípicas.
Em uma delas, uma carga adquirida pela Santa Felicidade por R$ 51,8 mil foi revendida à Imaculada por R$ 52,2 mil.
Posteriormente, a mercadoria teria sido negociada com a Usimat por apenas R$ 41 mil.
A última operação representaria uma redução de aproximadamente 21% em relação ao valor anterior.
Para o Ministério Público, operações dessa natureza, analisadas em conjunto com os demais elementos, reforçam as suspeitas sobre o funcionamento do esquema.
MP aponta divisão de tarefas
De acordo com o promotor, os quatro denunciados teriam desempenhado funções diferentes dentro da suposta organização.
Pedro Henrique seria o responsável pela condução comercial e pelas negociações com produtores e fornecedores.
Mário Sérgio integrava a estrutura societária da Imaculada e participava das tratativas financeiras.
O ex-deputado Sérgio Pereira Assis teria contribuído para dar credibilidade patrimonial às operações e participado de articulações financeiras.
Já Wanderley aparecia como proprietário formal da Santa Felicidade, utilizada como intermediária em operações fiscais.
O Ministério Público sustenta que a atuação não teria sido eventual, mas resultado de uma associação estável entre os envolvidos.
Suspeita de destruição de provas antes da operação
A denúncia também apresenta uma acusação adicional contra Pedro Henrique e Mário Sérgio.
Segundo o Ministério Público, na véspera da deflagração da Operação Agro Fantasma, realizada em 4 de março de 2026, os dois teriam comparecido à sede de uma das empresas para retirar caixas com documentos.
Também teriam sido formatados computadores, numa possível tentativa de eliminar registros das operações investigadas.
O episódio foi incluído na denúncia como suposta destruição de provas.
Justiça vai analisar as acusações
A denúncia foi apresentada à Vara Cível e Criminal de Comodoro. Caberá ao Judiciário decidir sobre seu recebimento e, posteriormente, examinar a responsabilidade individual dos acusados.
O pedido de reparação de R$ 57,734 milhões não representa uma condenação já estabelecida.
Os denunciados têm direito à ampla defesa e ao contraditório. O texto fornecido não apresenta manifestações das defesas, que devem ser procuradas para posicionamento.