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Infiltrados II: Gaeco mira delegado e nove policiais por esquema que desviava cocaína apreendida em MS

Ofensiva ocorre um dia após operação da Polícia Federal e na mesma semana em que a Justiça recebeu denúncia contra investigados da primeira fase.

A investigação sobre a participação de policiais no narcotráfico ganhou um novo capítulo nesta quinta-feira (5), em Mato Grosso do Sul. Desta vez, o alvo do Ministério Público é uma unidade policial responsável justamente por combater a criminalidade na região de fronteira.

O Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) deflagrou a Operação Infiltrados II, que investiga um esquema de desvio de drogas apreendidas, especialmente cocaína, envolvendo agentes que atuaram na Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Fronteira (Defron).

Entre os investigados estão nove policiais civis que trabalharam na unidade e o delegado Guilherme Scucuglia Cezar, que comandou a Defron em 2025 e atualmente está lotado na Delegacia Especializada de Roubos e Furtos (Derf).

A operação prevê o cumprimento de quatro mandados de prisão preventiva e 11 de busca e apreensão em Dourados, Ponta Porã e Nova Andradina, além de Santa Terezinha de Itaipu, no Paraná.

O Ministério Público apura fatos ocorridos entre junho de 2025 e maio de 2026. Nesse período, segundo os investigadores, agentes públicos teriam utilizado suas funções e o acesso a entorpecentes apreendidos para abastecer organizações criminosas.

A suspeita é grave: policiais encarregados de retirar drogas das ruas teriam participado de um esquema que colocava parte desses mesmos entorpecentes novamente nas mãos de traficantes.

Cocaína que deveria ser destruída teria voltado ao tráfico

Um dos episódios mais expressivos identificados pelo Gaeco ocorreu em setembro de 2025.

Na ocasião, mais de 500 quilos de cocaína destinados à incineração teriam sido desviados antes de serem destruídos.

A quantidade representa mais de meia tonelada de entorpecentes que, segundo o Ministério Público, teria retornado ao mercado ilegal.

A investigação aponta que o esquema funcionava de três maneiras.

A primeira envolvia a retirada de drogas durante as próprias operações policiais. A segunda ocorria depois das apreensões, quando os entorpecentes já estavam armazenados nos depósitos das delegacias. A terceira acontecia durante o transporte das cargas destinadas à incineração.

Em todas essas situações, os investigados teriam se aproveitado do acesso proporcionado pela função pública para retirar drogas da custódia do Estado.

Depois, os entorpecentes seriam entregues a traficantes encarregados da comercialização.

Na avaliação do Ministério Público, os policiais investigados teriam deixado de atuar exclusivamente no combate ao crime para assumir o papel de fornecedores do próprio narcotráfico.

Ex-chefe da Defron está entre os investigados

Um dos nomes de maior repercussão na nova fase é o delegado Guilherme Scucuglia Cezar.

Ele esteve à frente da Defron em 2025, período que coincide parcialmente com os fatos investigados pelo Gaeco.

Nesta quinta-feira, agentes cumpriram mandado de busca e apreensão em um apartamento ligado ao delegado, na Rua Nova Era.

Atualmente, Guilherme está lotado na Derf, unidade especializada na investigação de roubos e furtos.

A presença de um ex-chefe da Defron entre os alvos amplia a repercussão institucional da operação, já que a investigação atinge uma unidade estratégica no combate ao tráfico de drogas na fronteira com o Paraguai.

Até o momento, porém, o Ministério Público não detalhou publicamente qual teria sido a participação individual de Guilherme no esquema.

Também não há confirmação de prisão do delegado. A medida divulgada contra ele foi de busca e apreensão.

Nove policiais civis são atingidos por medidas cautelares

Além do delegado, nove policiais civis que atuavam na Defron durante o período investigado foram alvos de medidas cautelares.

As informações divulgadas apontam medidas de afastamento das funções.

O Ministério Público não apresentou publicamente a relação completa desses nove agentes nem esclareceu quais investigados são destinatários dos quatro mandados de prisão preventiva.

A operação contou com apoio da Corregedoria da Polícia Civil, do Batalhão de Choque da Polícia Militar e do Gaeco do Paraná.

O envolvimento da Corregedoria também coloca em discussão os mecanismos internos de fiscalização, controle de entorpecentes e acompanhamento da conduta dos servidores.

Primeira fase já havia levado delegado à prisão

A Operação Infiltrados II é um desdobramento de uma investigação que ganhou repercussão em 24 de setembro de 2026.

Naquela data, o Gaeco deflagrou a primeira fase da Operação Infiltrados, que teve como um dos principais alvos o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, ex-titular da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar) e do Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garras).

Na primeira ofensiva, foram expedidos 24 mandados de prisão preventiva, dois de prisão temporária e 38 de busca e apreensão.

As diligências ocorreram em Campo Grande, Dourados e Terenos.

A investigação atingiu policiais civis, militares, um policial penal e pessoas suspeitas de participar da comercialização de drogas desviadas.

Segundo o Ministério Público, os agentes investigados teriam utilizado a própria estrutura policial para identificar carregamentos, realizar apreensões e desviar entorpecentes.

Parte da droga seria retirada antes do registro oficial. Outra parte teria sido subtraída de depósitos policiais.

Os entorpecentes eram então repassados a integrantes de organizações criminosas.

Documento detalha suspeitas antigas

A reportagem do O Contribuinte também analisou uma representação cautelar do Gaeco, assinada em agosto de 2026, com 491 páginas.

O material integra a investigação anterior e apresenta registros de conversas, apreensões e movimentações financeiras utilizados pelo Ministério Público para fundamentar pedidos de medidas judiciais.

A representação relata que a investigação foi instaurada em outubro de 2025, a partir de informações obtidas nas operações Traquetos e Blindspot.

O documento aponta suspeitas relacionadas a fatos ocorridos desde 2021.

Um dos episódios envolve uma apreensão de aproximadamente 30 quilos de pasta-base de cocaína realizada pela Denar em novembro de 2022.

Mensagens analisadas pelo Gaeco levantaram a suspeita de que o entorpecente teria sido oferecido a traficantes.

Em uma das conversas reproduzidas na representação, um interlocutor afirmou:

“Esses 30 eles ia vender pra gente mais arrependeram.”

Para os investigadores, a frase fazia referência à cocaína apreendida pela polícia.

O episódio é apresentado como um dos elementos que sustentam a suspeita de negociação de entorpecentes sob custódia policial. A conversa, por si só, não demonstra que aquela carga tenha sido efetivamente desviada.

Delegado Hoffman e outros investigados viram réus

Enquanto a segunda fase avançava sobre a Defron, a primeira investigação também registrava um importante desdobramento judicial.

O Poder Judiciário de Mato Grosso do Sul recebeu a denúncia criminal apresentada pelo Ministério Público contra Hoffman D’Ávila e outros 23 investigados.

Com isso, o grupo passou a responder formalmente a uma ação penal em Campo Grande.

A decisão foi divulgada no Diário da Justiça desta quinta-feira (5).

Segundo a acusação, Hoffman teria ocupado posição de comando na estrutura investigada, utilizando sua autoridade institucional para dar respaldo às atividades do grupo e dificultar investigações.

Outros policiais são apontados como responsáveis por identificar carregamentos, participar das apreensões e repassar drogas desviadas.

No núcleo ligado à comercialização dos entorpecentes, Lucas da Silva dos Santos, conhecido como “LK”, é apontado como um dos principais articuladores.

A denúncia envolve suspeitas de organização criminosa, tráfico de drogas, peculato, corrupção e lavagem de dinheiro.

O Ministério Público também solicitou a perda das funções públicas dos agentes envolvidos e reparação de R$ 10 milhões por danos morais coletivos.

O recebimento da denúncia não representa condenação. Os acusados terão direito de apresentar suas defesas durante o processo.

Dinheiro do tráfico teria circulado entre familiares e empresas

A investigação da primeira fase também identificou movimentações financeiras consideradas suspeitas.

Segundo as informações divulgadas, Rayane Luiz Vieira, companheira de LK, teria recebido R$ 314.308,40 em apenas cinco meses, por meio de 46 transferências Pix realizadas por outra investigada.

A mãe e a irmã de LK também aparecem na apuração por suspeita de participação na circulação e ocultação de recursos.

Outra frente envolve uma garagem de veículos que, segundo os investigadores, teria sido utilizada para dar aparência lícita ao dinheiro obtido com o tráfico.

A investigação procura identificar quem teria recebido os recursos, como o dinheiro circulava e quais operações comerciais teriam sido utilizadas para ocultar sua origem.

Operação da PF amplia investigação sobre policiais

A sequência de operações ganhou outro capítulo na quarta-feira (4), quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Ifrit.

A ofensiva investiga uma organização criminosa transnacional suspeita de tráfico de drogas e armas, lavagem de dinheiro e crimes violentos.

Entre os alvos estavam novamente o delegado Hoffman D’Ávila e o investigador Douglas Tobias, ambos já atingidos pela primeira fase da Operação Infiltrados.

A PF investiga a atuação de uma organização com ramificações em sete estados brasileiros e ligações com atividades criminosas na fronteira.

As informações divulgadas apontam suspeitas de obtenção de drogas e armas na Bolívia, no Peru e no Paraguai, com distribuição no Brasil e utilização de rotas internacionais, inclusive para a Europa.

Conforme apuração divulgada pelo O Contribuinte, Hoffman também é investigado por suspeita de participação na comercialização de aproximadamente duas toneladas de cocaína desviadas, em negociações que teriam movimentado valores milionários.

A estimativa de R$ 15 milhões atribuída ao esquema ainda não permite estabelecer quanto teria sido efetivamente recebido pelo delegado.

As operações Ifrit e Infiltrados são investigações distintas, embora apresentem investigados em comum.

Segurança pública terá de responder sobre controles

A nova operação também levanta questionamentos sobre a fiscalização das drogas apreendidas pelas forças de segurança.

Como uma carga superior a 500 quilos de cocaína, que deveria ser incinerada, teria sido desviada?

Quais mecanismos eram utilizados para conferir a quantidade de entorpecentes apreendidos, armazenados, transportados e destruídos?

Houve divergências entre os registros oficiais e o material efetivamente incinerado?

Essas perguntas são relevantes para compreender como o esquema investigado teria funcionado e quais controles poderiam ter impedido os desvios.

Durante a primeira fase, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) afirmou que não compactua com desvios de conduta e que eventuais irregularidades seriam apuradas com rigor, respeitando a legislação e as garantias individuais.

Nas informações disponibilizadas até esta atualização, não consta manifestação da secretaria sobre a segunda fase.

A Operação Infiltrados II reforça a dimensão de uma investigação que atinge agentes encarregados de combater o narcotráfico em Mato Grosso do Sul.

O desafio das autoridades agora é esclarecer a participação individual dos investigados, identificar o destino das drogas e dos valores envolvidos e verificar como os controles institucionais teriam sido contornados.