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Com quase 50 anos de amizade com Bolsonaro, Tenente Portela se lança deputado federal

Vice-presidente do PL-MS e suplente de Tereza Cristina aposta em trajetória de lealdade ao ex-presidente para buscar cadeira em Brasília

Uma amizade iniciada dentro de um quartel do Exército no interior de Mato Grosso do Sul, no fim da década de 1970, chega agora a um novo capítulo político. Aparecido Andrade Portela, o Tenente Portela (PL), lançou neste domingo (16) sua candidatura a deputado federal e entra na disputa por uma das cadeiras de Mato Grosso do Sul na Câmara dos Deputados.

Militar da reserva, primeiro suplente da senadora Tereza Cristina e atual vice-presidente estadual do PL, Portela construiu sua trajetória política principalmente em torno de uma característica difícil de ignorar quando seu nome é citado dentro do bolsonarismo: a relação pessoal de quase cinco décadas com o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Portela não é um aliado que se aproximou de Bolsonaro depois de sua chegada ao Palácio do Planalto ou durante a onda eleitoral que levou a direita ao poder em 2018. A relação entre os dois começou muito antes da política nacional.

Eles se conheceram quando serviram juntos no 9º Grupo de Artilharia de Campanha, em Nioaque, a cerca de 180 quilômetros de Campo Grande. Era 1979. Portela ainda era soldado, enquanto Bolsonaro servia como tenente.

Foi dentro e fora do quartel que os dois estreitaram os laços.

Em relatos feitos ao longo dos anos, Portela contou que os dois pescavam juntos e chegaram até a procurar ouro em uma região próxima. Também participou de uma tentativa de Bolsonaro de produzir arroz em uma propriedade rural.

Bolsonaro possuía uma Kombi, dirigida por Portela, utilizada para buscar militares e amigos que ajudavam no trabalho da pequena lavoura aos sábados, domingos e feriados.

“Ele tinha uma Kombi e eu era o motorista”, recordou Portela ao relatar aquele período.

A produção de arroz não prosperou como planejado, mas a amizade sobreviveu à passagem do tempo, às mudanças na carreira militar e, posteriormente, à entrada de Bolsonaro na política.

Uma amizade que atravessou décadas

Depois de deixar Mato Grosso do Sul, Bolsonaro seguiu carreira e posteriormente ingressou na política no Rio de Janeiro, passando pela Câmara Municipal e pela Câmara dos Deputados até chegar à Presidência da República.

Portela também avançou na carreira militar.

Após realizar cursos de formação, passou pela Escola de Sargentos das Armas e serviu em diferentes regiões do país, incluindo Acre, Mato Grosso e Amazonas. Atuou na área de inteligência do Exército e chegou à reserva como primeiro-tenente.

Mesmo separados geograficamente, segundo o próprio Portela, os dois nunca perderam o contato.

“O presidente me trata como um irmão”, já afirmou o militar da reserva ao descrever a relação construída com Bolsonaro.

Essa proximidade ficou ainda mais evidente durante o período em que Bolsonaro ocupou a Presidência da República.

Portela frequentava Brasília e manteve contato direto com o então presidente. Relatório da Polícia Federal posteriormente registrou que ele realizou ao menos 13 visitas ao Palácio da Alvorada somente em dezembro de 2022.

Para a PF, os registros demonstravam a proximidade entre os dois.

Portela também atuou durante o governo Bolsonaro e passou a exercer cada vez mais influência na organização política do grupo em Mato Grosso do Sul.

Em uma das manifestações públicas feitas quando ainda estava na Presidência, Bolsonaro chegou a dizer que Portela frequentemente lhe levava informações sobre o cenário político do Estado.

“Portela está sempre me trazendo informações do Estado para nós em Brasília”, afirmou Bolsonaro na ocasião.

Bolsonaro colocou Portela na chapa de Tereza Cristina

A confiança construída durante décadas teve consequência direta nas eleições de 2022.

Quando Tereza Cristina deixou o Ministério da Agricultura do governo Bolsonaro para disputar o Senado por Mato Grosso do Sul, o nome escolhido para ocupar a primeira suplência foi justamente o de Tenente Portela.

A indicação partiu de Jair Bolsonaro.

Portela, que até aquele momento nunca havia exercido mandato eletivo, passou a integrar uma das principais chapas daquele processo eleitoral.

Tereza Cristina venceu a eleição e Portela tornou-se seu primeiro suplente. Dessa forma, caso a senadora deixe definitivamente o mandato ou seja chamada para outra função que gere vacância nos termos previstos pela legislação, Portela está na linha sucessória da cadeira de Mato Grosso do Sul no Senado.

A escolha também revelou uma estratégia recorrente de Bolsonaro naquele período: colocar pessoas consideradas de sua confiança em posições relevantes dentro da estrutura política.

Para Portela, confiança sempre foi a palavra utilizada para explicar a relação.

Comando do PL em Mato Grosso do Sul

Essa relação também pesou na reorganização partidária da direita em Mato Grosso do Sul.

Portela assumiu o comando estadual do PL com respaldo de Bolsonaro e participou diretamente do crescimento da legenda no Estado.

Posteriormente, com a reorganização partidária que levou o ex-governador Reinaldo Azambuja ao PL, Portela deixou a presidência estadual e passou a ocupar a vice-presidência da sigla.

A movimentação colocou grupos que estiveram em campos distintos em eleições anteriores dentro de uma mesma estrutura partidária.

Portela permaneceu no partido e na direção estadual.

O movimento foi interpretado dentro da legenda como parte da acomodação necessária para ampliar o PL em Mato Grosso do Sul, preservando Portela em uma posição de destaque na executiva.

Agora, ele inicia uma nova etapa.

Desta vez, a busca é por mandato próprio

Se em 2022 Portela chegou ao Senado na condição de primeiro suplente de Tereza Cristina, em 2026 a missão é diferente.

Ele quer votos para conquistar um mandato próprio.

O lançamento da candidatura a deputado federal neste domingo abre oficialmente um novo capítulo de uma trajetória que começou nos quartéis, atravessou décadas de amizade com Bolsonaro e chegou aos bastidores mais importantes da política nacional.

Portela entra na disputa em um momento no qual Jair Bolsonaro e seus familiares buscam ampliar o número de parlamentares identificados com seu grupo político no Congresso Nacional.

A Câmara dos Deputados terá papel decisivo na próxima legislatura em debates envolvendo segurança pública, economia, pautas conservadoras, relação entre os Poderes e propostas defendidas pela direita.

É nesse espaço que Portela pretende atuar.

Ao contrário de políticos que se aproximaram do bolsonarismo apenas depois do crescimento eleitoral do ex-presidente, Portela carrega como principal ativo político uma relação que antecede em décadas a chegada de Bolsonaro ao Palácio do Planalto.

Quando Bolsonaro ainda não era vereador, deputado ou presidente, Portela já estava ao seu lado.

Dos tempos de Nioaque à política

A história dos dois é também uma das relações pessoais mais antigas de Bolsonaro ainda presentes em seu núcleo político.

De uma Kombi percorrendo estradas de terra na região de Nioaque aos corredores do Palácio da Alvorada, passaram-se quase cinco décadas.

Nesse período, Bolsonaro virou vereador, deputado federal por sete mandatos e presidente da República. Portela seguiu carreira no Exército, chegou à reserva, participou da organização política do bolsonarismo em Mato Grosso do Sul, comandou o PL estadual e tornou-se primeiro suplente de Tereza Cristina.

Agora tenta dar o passo que ainda falta em sua trajetória política: conquistar diretamente nas urnas uma cadeira no Congresso Nacional.

Quase 50 anos depois, uma nova missão

A candidatura de Tenente Portela à Câmara coloca à prova, agora nas urnas, o capital político acumulado durante anos de atuação nos bastidores do PL e de proximidade com Jair Bolsonaro.

A diferença é que, desta vez, Portela não entra apenas como dirigente partidário, articulador ou suplente.

Quer ser deputado federal.

E aposta justamente naquilo que marcou sua trajetória até aqui: a relação construída desde os tempos do Exército e a lealdade mantida ao longo de quase cinco décadas ao amigo que, anos depois daquela convivência em Nioaque, chegaria à Presidência da República.