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De “mesadas” a viagens de luxo: relembre o que a PF investiga na relação entre Ciro Nogueira e Vorcaro

Polícia Federal sustenta que a proximidade entre o presidente do PP e Daniel Vorcaro teria funcionado como uma relação de benefícios mútuos; defesa nega qualquer participação do senador em ilegalidades.

A decisão do Progressistas de manter a neutralidade na disputa presidencial voltou a colocar sob os holofotes a situação política e jurídica de seu presidente nacional, o senador Ciro Nogueira.

Não se trata de uma nova operação ou de um fato investigativo ocorrido nesta sexta-feira. O que o O Contribuinte apresenta nesta reportagem é uma contextualização dos elementos já revelados pela Polícia Federal sobre a relação de Ciro com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

A investigação ganhou relevância novamente porque Ciro, além de comandar o partido de Tereza Cristina, precisa disputar a reeleição ao Senado pelo Piauí enquanto enfrenta uma apuração de grande repercussão no Supremo Tribunal Federal.

Segundo a Polícia Federal, Vorcaro teria concedido ao parlamentar um tratamento “privilegiado” e “diferenciado”, envolvendo pagamentos mensais, viagens internacionais, hotéis de luxo, restaurantes, voos particulares e vantagens societárias.

Em contrapartida, os investigadores apuram se Ciro atuou no Senado para beneficiar interesses do Banco Master.

A defesa do senador rejeita qualquer acusação de ilegalidade, afirma que ele não participou de atividades ilícitas e sustenta que sua atuação parlamentar foi legítima.

Relembre a operação que atingiu Ciro

Ciro Nogueira foi alvo de uma fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal para aprofundar as investigações sobre suspeitas de fraudes financeiras relacionadas ao Banco Master e ao grupo comandado por Daniel Vorcaro.

A operação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.

Na ocasião, foram cumpridos dez mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão temporária no Piauí, em São Paulo, Minas Gerais e no Distrito Federal.

A decisão também determinou o bloqueio de R$ 18,85 milhões em bens, direitos e valores.

Além do senador, o irmão dele, Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, foi atingido pelas medidas judiciais. Conforme as informações divulgadas sobre a operação, Raimundo teve de usar tornozeleira eletrônica, entregar o passaporte e ficou proibido de manter contato com outros envolvidos.

O ministro André Mendonça também autorizou a prisão temporária de Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, apontado como integrante do núcleo financeiro e operacional do grupo investigado.

O que a Polícia Federal apura

A investigação não se limita a uma transferência financeira isolada.

Os documentos da Polícia Federal reúnem suspeitas relacionadas a uma série de vantagens que teriam sido oferecidas a Ciro por pessoas ligadas a Vorcaro.

Entre os principais pontos investigados estão:

pagamentos mensais entre R$ 300 mil e R$ 500 mil;

repasses que teriam alcançado aproximadamente R$ 6 milhões;

custeio de viagens internacionais;

hospedagens em hotéis de alto padrão;

pagamentos de restaurantes;

uso de jatos particulares;

disponibilização de cartão para despesas pessoais;

participação societária com suposto deságio de R$ 12 milhões;

apresentação de emenda de interesse do Banco Master;

possível utilização de terceiros e empresas para ocultação de recursos;

e o suposto transporte de R$ 350 mil em espécie em uma aeronave.

Esses pontos integram uma investigação ainda em andamento e dependerão de análise judicial, manifestação da Procuradoria-Geral da República e exercício do direito de defesa.

Pagamentos mensais de até R$ 500 mil

Um dos elementos mais comprometedores apresentados pela Polícia Federal envolve mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e ao primo Felipe Cançado Vorcaro.

Nos diálogos, os dois teriam tratado de pagamentos mensais destinados a Ciro Nogueira.

Em uma das conversas destacadas na decisão judicial, Vorcaro reclama que os valores destinados ao senador estavam atrasados havia dois meses:

“Cara, eu no meio dessa guerra atrasou dois meses Ciro?”, teria escrito o banqueiro.

Felipe responde:

“Vou ver se dou um jeito aqui. Vai continuar os 500k ou pode ser os 300k?”

Na linguagem utilizada nas mensagens, “500k” e “300k” representariam R$ 500 mil e R$ 300 mil.

A Polícia Federal passou a classificar esses pagamentos recorrentes como uma espécie de “mesada”.

Conforme a investigação, os valores repassados entre 2024 e 2025 teriam somado aproximadamente R$ 6 milhões.

Vorcaro chamava Ciro de “grande amigo”

A proximidade entre Daniel Vorcaro e Ciro também aparece em conversas pessoais encontradas no celular do ex-controlador do Master.

Em diálogo com a então namorada, Martha Graeff, Vorcaro teria demonstrado interesse em apresentá-la ao senador.

“Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de vida”, teria afirmado.

A Polícia Federal, entretanto, sustenta que a relação não se restringiria à amizade.

Para os investigadores, havia uma ligação “funcional e instrumental”, baseada em benefícios econômicos concedidos ao senador e em ações políticas favoráveis aos interesses do banqueiro.

Restaurantes e despesas pessoais

A investigação também identificou mensagens relacionadas ao pagamento de restaurantes frequentados por Ciro e por sua companheira.

Em uma delas, Léo Serrano, apontado como operador de Vorcaro, pergunta se as despesas deveriam continuar sendo pagas:

“Só uma pergunta rápida… é pros meninos continuarem pagando conta dos restaurantes do Ciro/Flávia até sábado?”

O documento judicial menciona ainda a suspeita de que teria sido disponibilizado um cartão para a cobertura de despesas pessoais.

Para a Polícia Federal, a frequência e a organização desses pagamentos afastariam a hipótese de simples atos esporádicos de cortesia entre amigos.

Quase R$ 500 mil em viagens internacionais

A PF afirma que Daniel Vorcaro custeou viagens internacionais de Ciro e de sua companheira durante os anos de 2024 e 2025.

O tratamento incluiria:

passagens em aeronaves particulares;

hotéis de luxo;

deslocamentos terrestres;

restaurantes sofisticados;

reservas de chalés;

e até vestuário para prática de esqui.

Entre os destinos mencionados estão Nova York, Paris, Lisboa e Courchevel, nos Alpes franceses.

Os investigadores calcularam em R$ 468.721,78 o benefício econômico direto relacionado às viagens internacionais.

Esse valor não incluiria integralmente os custos dos jatos particulares nem todas as despesas que ainda estavam sendo apuradas.

Segundo a PF, mesmo em um cálculo conservador, o total ultrapassaria R$ 500 mil.

Hotel de luxo em Nova York

Uma das despesas mais altas teria ocorrido em Nova York.

A investigação identificou seis diárias no Park Hyatt New York, entre 12 e 18 de maio de 2024.

O valor total da hospedagem teria sido de US$ 47.779,80, o equivalente a aproximadamente R$ 245.153,37.

Cada diária teria custado cerca de US$ 4.791,24.

A Polícia Federal atribui o pagamento a Vorcaro ou a pessoas e estruturas ligadas ao ex-banqueiro.

Lisboa, Paris e Courchevel

Em Lisboa, uma reserva de cinco diárias no Hotel Four Seasons, atribuída ao senador, teria custado R$ 91.280,59.

Em Paris, uma única despesa em restaurante teria alcançado US$ 1.981,12, aproximadamente R$ 10.175,82.

Já em Courchevel, conhecido destino de luxo nos Alpes franceses, os gastos identificados em restaurantes durante dois dias teriam somado R$ 122.112.

Os investigadores apuram se esses pagamentos guardavam relação com a atuação parlamentar de Ciro em benefício dos interesses financeiros de Vorcaro.

Jatos particulares

Além das hospedagens e refeições, Ciro teria sido beneficiado em ao menos três viagens internacionais realizadas em aeronaves particulares vinculadas a Vorcaro.

A Polícia Federal também cita duas ocasiões em que teriam sido utilizados voos privados dentro dos Estados Unidos.

Esses custos não foram integralmente incluídos no cálculo de R$ 468 mil atribuído às viagens.

Segundo os investigadores, o valor efetivo das vantagens seria maior quando considerado o preço dos deslocamentos em aeronaves particulares.

A “Emenda Master”

Outro ponto central do inquérito é a atuação de Ciro Nogueira no Senado.

O parlamentar apresentou a Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023, que pretendia elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante.

A Polícia Federal afirma que o texto da proposta foi elaborado pela assessoria do Banco Master e depois reproduzido integralmente pelo senador.

Conforme o material apreendido, a minuta teria sido impressa e entregue em um envelope endereçado a “Ciro” no endereço residencial do parlamentar.

Depois da apresentação da emenda, Vorcaro teria comemorado:

“Saiu exatamente como mandei.”

Outros interlocutores ligados ao banco teriam afirmado que a medida “sextuplicaria” os negócios do Master.

A proposta não foi aprovada.

“Bomba atômica no mercado financeiro”

Em outra conversa com Martha Graeff, Daniel Vorcaro teria celebrado a iniciativa apresentada pelo senador.

“Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro”, afirmou, segundo as mensagens obtidas pelos investigadores.

Vorcaro teria dito que a proposta ajudaria os bancos médios e reduziria o poder das grandes instituições financeiras.

“Está todo mundo louco”, teria acrescentado.

Após a repercussão da medida, o banqueiro voltou a comemorar:

“Todo mundo me ligando. Sentiram o golpe.”

Para a PF, as mensagens demonstram o interesse direto do grupo de Vorcaro na proposta apresentada por Ciro.

Risco para o Fundo Garantidor

O Fundo Garantidor de Créditos funciona como um mecanismo de proteção a clientes e investidores nos casos de liquidação de instituições financeiras.

A proposta apresentada por Ciro aumentaria de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o valor protegido por depositante.

Na avaliação da Polícia Federal, a medida poderia ampliar significativamente os negócios do Master, ao mesmo tempo em que transferiria um risco maior ao Fundo Garantidor.

As liquidações do Banco Master e do Will Bank, instituição que pertencia ao grupo, teriam produzido um impacto aproximado de R$ 47 bilhões ao FGC, conforme as informações transcritas.

A emenda apresentada pelo senador não chegou a ser aprovada.

Minutas retiradas da residência do senador

A Polícia Federal sustenta que a chamada Emenda Master não teria sido um episódio isolado.

Segundo a investigação, Vorcaro teria determinado, em 2023, a retirada de envelopes da residência de Ciro contendo minutas de projetos de interesse particular.

Os documentos teriam sido levados a um escritório indicado pelo banqueiro, processados e depois entregues a um servidor do gabinete do parlamentar.

Na avaliação do ministro André Mendonça, os episódios poderiam indicar uma relação que ultrapassava as vias normalmente utilizadas entre agentes políticos e representantes da iniciativa privada.

Participação societária com deságio milionário

A investigação também analisa uma operação envolvendo a aquisição de participação societária.

Segundo a Polícia Federal, Ciro teria sido beneficiado por um deságio estimado em R$ 12 milhões.

Os investigadores tentam determinar se a diferença entre o valor real da participação e o montante pago pelo senador funcionou como uma vantagem econômica indevida.

A defesa ainda poderá contestar os cálculos e a interpretação apresentada pela PF.

Suspeitas de lavagem de dinheiro

O inquérito menciona ainda possíveis estruturas destinadas à ocultação e à dissimulação de recursos.

A Polícia Federal cita:

utilização de empresas do núcleo familiar;

circulação de dinheiro dentro de grupos empresariais;

interposição de terceiros;

movimentação de valores em espécie;

e reinserção de recursos de origem considerada incompatível com a capacidade financeira formal dos envolvidos.

Segundo os investigadores, algumas dessas estruturas poderiam ter Ciro Nogueira como beneficiário final.

Trata-se de uma hipótese investigativa que ainda precisa ser comprovada.

R$ 350 mil transportados em avião

Outro episódio sob apuração envolve o suposto transporte de R$ 350 mil em espécie em uma aeronave.

O piloto Mauro Mattosinho afirmou que, em agosto de 2024, transportou o dinheiro em um voo.

No momento do desembarque em Brasília, um passageiro identificado como Roberto Leme teria perguntado se “estava tudo certo com o Ciro” e se o senador já estava esperando o grupo.

A própria Polícia Federal reconhece que ainda não há comprovação material de que os valores tenham sido efetivamente entregues a Ciro Nogueira.

O relato foi considerado relevante por sua compatibilidade cronológica e contextual com os demais elementos investigados, mas ainda necessita de aprofundamento.

Vorcaro está preso

Daniel Vorcaro foi preso no âmbito das investigações sobre fraudes financeiras e outras irregularidades relacionadas ao Banco Master.

Segundo as informações apresentadas, ele tenta negociar uma colaboração premiada com as autoridades.

Propostas anteriores teriam sido rejeitadas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público.

A possibilidade de uma delação é acompanhada com preocupação por empresários e políticos que mantiveram relações com Vorcaro.

O que diz a defesa de Ciro

Os advogados de Ciro Nogueira repudiaram qualquer associação do senador com atividades ilícitas.

Em nota, afirmaram rejeitar “qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”.

A defesa também declarou que Ciro pretende contribuir com a Justiça para demonstrar que não participou dos fatos criminosos investigados.

O senador não foi condenado e todos os elementos levantados pela Polícia Federal ainda precisam ser submetidos ao contraditório e à análise definitiva do Judiciário.

Investigação volta ao debate após neutralidade do PP

Embora a operação não seja nova, ela voltou ao centro da discussão política depois de o Progressistas manter a neutralidade na eleição presidencial, mesmo após Tereza Cristina aceitar o convite para ser vice de Flávio Bolsonaro.

Ciro é presidente nacional do partido e precisa renovar seu mandato de senador pelo Piauí.

Uma eventual derrota eleitoral alteraria sua posição política e institucional em um momento no qual enfrenta uma investigação que tramita no Supremo Tribunal Federal.

Como senador, Ciro possui foro por prerrogativa de função nos casos previstos pela Constituição.

Exclusivo: acordo com o PT estaria ligado à reeleição

Conforme apuração exclusiva do O Contribuinte, a neutralidade do Progressistas não teria sido motivada apenas pela posição dos diretórios estaduais.

Interlocutores que acompanham as articulações nacionais afirmam que Ciro teria trabalhado por um entendimento político para reduzir os ataques do PT contra sua candidatura ao Senado no Piauí.

O estado é amplamente favorável ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e um apoio ostensivo de Ciro a Flávio Bolsonaro poderia transformar o senador em um alvo prioritário da estrutura política petista.

Segundo a versão apresentada ao portal, o arranjo funcionaria da seguinte maneira:

o Progressistas evitaria apoiar oficialmente Flávio Bolsonaro;

Ciro manteria distância formal da disputa presidencial;

e setores do PT reduziriam o enfrentamento contra sua reeleição no Piauí.

Tereza encontrou uma barreira no próprio partido

A neutralidade teve impacto direto sobre Tereza Cristina.

A senadora aceitou o convite de Flávio, recebeu apoio de Tarcísio de Freitas, de empresários e de lideranças do agronegócio, mas foi impedida de avançar imediatamente pela posição adotada pelo próprio partido.

Nos bastidores, a avaliação é de que a preservação dos projetos estaduais, especialmente a reeleição de Ciro,  pesou mais do que a possibilidade de o PP ocupar a Vice-Presidência da República.

A investigação sobre a relação entre Ciro e Vorcaro não prova, por si só, que a neutralidade foi decidida para protegê-lo.

Mas ajuda a dimensionar o cenário político vivido pelo presidente do Progressistas: alvo de uma operação da Polícia Federal, dependente da reeleição no Piauí e pressionado a evitar um confronto direto com o PT.

É nesse ambiente que Ciro passou a comandar a decisão partidária que, ao menos por enquanto, travou a chapa entre Flávio Bolsonaro e Tereza Cristina.