Ex-prefeito defende legado de 20 anos e reage a críticas; principal adversário do grupo em 2024 questiona situação jurídica da candidatura e amplia confronto.
A corrida por uma cadeira na Assembleia Legislativa ganhou contornos de confronto direto em Três Lagoas.
Dois vídeos publicados na reta final da campanha mostram que Ângelo Guerreiro e Dr. Ruy Costa passaram a disputar não apenas o voto para deputado estadual, mas também a narrativa sobre o passado, o presente e o futuro político do município.
De um lado está Guerreiro, ex-prefeito por dois mandatos, que defende uma trajetória de aproximadamente duas décadas na política local e apresenta sua passagem pela Prefeitura como principal credencial para retornar à Assembleia.
Do outro aparece Ruy Costa, médico ginecologista e obstetra que, em 2024, enfrentou o grupo governista na eleição municipal e terminou na segunda colocação.
Naquela disputa, conforme o resultado apresentado, Ruy recebeu 16.027 votos, equivalentes a 28,88% dos votos válidos, concorrendo pelo Democracia Cristã e com uma estrutura eleitoral significativamente menor que a do grupo que venceu a Prefeitura.
Cassiano Maia, apoiado pelo grupo que comandava a administração municipal, venceu.
Dois anos depois, Ruy está no Avante e voltou a colocar Ângelo diretamente no centro de seu discurso.
Ângelo perde a paciência e dispara contra adversários
O vídeo publicado por Ângelo Guerreiro evidencia o aumento da temperatura da campanha.
O ex-prefeito começa destacando sua trajetória política. Lembra que exerceu dois mandatos de vereador, passou pela Assembleia Legislativa e comandou Três Lagoas durante dois mandatos.
Também afirma ter encerrado sua administração com aprovação de 92%, número mencionado pelo próprio candidato no vídeo.
Em seguida, porém, o discurso muda de tom.
Guerreiro afirma que existem vários candidatos concorrendo em Três Lagoas, mas que ele seria o principal alvo dos adversários.
“Na minha cidade de Três Lagoas tem sete candidatos comigo e o único alvo aqui sou eu”, declarou.
Ele atribui os ataques à força de sua candidatura.
“É por conta do quê? Porque aqui a estrela brilha”, afirmou.
Na sequência, Guerreiro usa termos duros contra adversários que, segundo ele, não possuem serviços prestados à população.
O ex-prefeito chama críticos de “lixos” e “covardes”, questiona o histórico político deles e acusa adversários de utilizarem materiais e veículos de comunicação para atingir sua imagem.
“Antes de você colocar o meu nome na sua boca, lava a tua boca podre”, disparou em outro trecho.
Apesar do tom, Guerreiro também diz ao eleitor que, caso não considere que ele deva ser o representante de Três Lagoas, pode escolher outro candidato.
Ao final, reafirma sua candidatura e declara estar apto para continuar na disputa.
Ruy responde e leva situação judicial para o debate
A resposta de Ruy Costa seguiu uma linha diferente.
Em vez de discutir obras ou experiência administrativa, o médico concentrou o vídeo na situação judicial do ex-prefeito e nos possíveis reflexos dela sobre a candidatura.
Ruy ironizou a manifestação do adversário e contestou a alegação de que questionamentos sobre a candidatura seriam simplesmente “fake news”.
Segundo Ruy, o registro de Guerreiro teria ocorrido antes de uma decisão posterior em segunda instância no processo mencionado por ele.
“O registro de candidatura dele foi oficializado antes da condenação em segunda instância”, afirmou.
A partir daí, o médico sustenta que a situação ainda poderia provocar discussões judiciais envolvendo a candidatura.
“Você pode vir nas suas redes sociais e explicar essa situação verdadeiramente para os seus eleitores, que merecem”, provocou.
De adversários indiretos a confronto aberto
O episódio mostra uma mudança importante na campanha de Três Lagoas.
Até aqui, Ruy Costa vinha construindo sua candidatura principalmente em cima do capital eleitoral obtido em 2024 e do discurso de oposição à administração municipal.
Agora, ele começa a entrar diretamente nas chamadas “bolas divididas” com Ângelo Guerreiro.
E existe uma razão política para isso.
Ruy não é apenas mais um candidato do município. Ele saiu da última eleição municipal como o adversário mais votado do grupo que permaneceu no comando da Prefeitura.
A votação de mais de 16 mil votos o colocou naturalmente em posição de destaque na oposição local.
Desde então, o médico tem concentrado críticas na saúde pública, na administração municipal, na fiscalização de contratos e na continuidade política existente entre a gestão anterior e a atual.
Continuidade do grupo também entra na disputa
A atual administração de Três Lagoas chegou ao poder apoiada politicamente pelo grupo de Ângelo Guerreiro.
Essa continuidade tornou-se uma das principais linhas utilizadas pela oposição.
Ruy procura associar os problemas que atribui à administração atual ao modelo político construído ao longo dos governos anteriores, enquanto Guerreiro reivindica justamente o legado das administrações passadas como sua principal credencial eleitoral.
É aí que os discursos se chocam.
Para Guerreiro, a continuidade representa experiência, obras e serviço prestado. Para Ruy, ela representa um modelo que precisa de maior fiscalização e alternância política.
São duas leituras opostas sobre o mesmo período administrativo, e os vídeos divulgados agora mostram que esse confronto tende a ficar cada vez mais explícito.
Operação Máquinas de Areia aumentou pressão sobre o grupo governista
O embate ocorre ainda depois da repercussão da Operação Máquinas de Areia, citada anteriormente nas reportagens fornecidas ao O Contribuinte.
A investigação do Ministério Público de Mato Grosso do Sul alcança contratos municipais superiores a R$ 100 milhões, considerando contratos e aditivos no período investigado entre 2018 e 2026.
Foram cumpridos 19 mandados de busca e apreensão relacionados à apuração de suspeitas de fraude em licitações, corrupção, peculato, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
A investigação atingiu, entre outros locais, a Secretaria Municipal de Infraestrutura.
O secretário Osmar Dias Pereira, nomeado para comandar a pasta durante o governo Ângelo Guerreiro e posteriormente mantido pela administração Cassiano Maia, também teve sua residência alcançada por mandado de busca.
O episódio forneceu à oposição um novo tema para questionar o modelo administrativo que atravessou as duas gestões.
Ruy tenta transformar os 16 mil votos em força estadual
A estratégia de Ruy Costa passa justamente por transformar o desempenho de 2024 em uma candidatura estadual competitiva.
Naquela eleição, ele concorreu por um partido pequeno, com menos estrutura e menor exposição eleitoral, mas conseguiu chegar a 16.027 votos.
Agora pelo Avante, tenta regionalizar esse capital eleitoral.
Ao mesmo tempo, Ruy explora sua posição de opositor do grupo municipal para estabelecer um contraste com Ângelo.
Guerreiro, por sua vez, trabalha no sentido inverso: busca fazer com que o eleitor relembre obras, ações e resultados de seus mandatos e argumenta que possui experiência e serviços prestados que seus adversários não teriam.
A disputa agora é também pelo significado do passado de Três Lagoas
No fundo, a polarização que se desenha entre os dois vai além de uma vaga na Assembleia.
Ângelo Guerreiro pede voto com base no legado que construiu à frente do município. Ruy Costa pede espaço político justamente para fiscalizar, questionar e romper com esse mesmo grupo.
Um chama atenção para a experiência.
O outro coloca no centro do debate oposição, fiscalização e situação jurídica.
Depois de enfrentar o grupo governista nas urnas em 2024, Ruy chega à reta final de 2026 disposto a transformar a eleição estadual em uma continuação daquele embate.
E os vídeos mais recentes deixam claro que Ângelo Guerreiro também decidiu responder.
A partir de agora, cada declaração, cada processo e cada episódio envolvendo a administração municipal tende a alimentar esse confronto político até as urnas.