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Empresário enviou minuta do próprio contrato antes de Santa Casa formalizar contratação, diz MP

Dados telemáticos mostram que Maurício Benites encaminhou a Rinaldo Romano versão editável do futuro contrato da Redvalue; posteriormente, setor de Compras foi acionado para formalizar pedidos de orçamento.

A investigação que levou à prisão preventiva da presidente e de integrantes da cúpula administrativa da Santa Casa de Campo Grande revela novos detalhes sobre os bastidores da contratação da Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços Ltda., empresa escolhida para realizar a digitalização de documentos do hospital.

Documentos da Operação Antidotum, analisados pelo O Contribuinte, mostram que o empresário Maurício Aparecido Benites, posteriormente beneficiado pela contratação e atualmente preso preventivamente, teria participado diretamente da preparação documental do negócio antes da formalização do contrato.

Segundo a decisão judicial baseada nos elementos apresentados pelo Ministério Público, em 27 de agosto de 2024, Maurício encaminhou diretamente ao então diretor administrativo-financeiro Rinaldo Hakme Romano uma minuta do contrato de prestação de serviços que seria celebrado entre a Santa Casa e a Redvalue.

Mais que isso: o arquivo enviado estava em formato editável.

A constatação aparece expressamente na decisão que autorizou as medidas da Operação Antidotum:

“Em 27 de agosto de 2024, antes mesmo da formalização da avença, foi ele quem encaminhou a Rinaldo Hakme Romano a minuta do contrato de prestação de serviços a ser celebrado entre a Santa Casa e a REDVALUE, inclusive enviando versão editável do documento.”

O episódio é um dos elementos utilizados pelos investigadores para questionar se o processo que culminou na contratação da Redvalue ocorreu de maneira efetivamente independente ou se, como sustenta o Ministério Público, a escolha da empresa já estava sendo articulada previamente.

Compras teria entrado posteriormente no processo

A relevância do envio da minuta aumenta quando o episódio é confrontado com as demais comunicações encontradas nos aparelhos analisados.

Segundo o Ministério Público, posteriormente Rinaldo pediu a Maurício informações de contato da Redvalue porque o setor de Compras precisaria formalizar pedidos de orçamento.

Em uma das mensagens recuperadas, Rinaldo teria explicado:

“A doutora pediu pra entrar pelo Compras.”

Para o Gecoc, a sequência indica que o empresário já mantinha interlocução direta com integrantes da administração antes de o procedimento passar pelo setor responsável pela formalização das cotações.

O Ministério Público sustenta, portanto, que a passagem pelo setor de Compras teria ocorrido em momento posterior à articulação que já estava em andamento.

A conclusão é da investigação e ainda poderá ser contestada pelas defesas. 

MP questiona as empresas usadas nas cotações

Esse ponto se conecta a outro elemento central da investigação.

A contratação da Redvalue, segundo a decisão judicial, foi iniciada sem estudo técnico preliminar, termo de referência, análise de viabilidade ou demonstração objetiva da vantagem econômica da contratação.

Além disso, as empresas utilizadas para fornecer as cotações, apesar de formalmente distintas, apresentariam, segundo os investigadores, vínculos diretos com Maurício Benites. 

O Ministério Público encontrou ainda dados em que Maurício aparecia profissionalmente como:

“CEO do Grupo Exbe – Redvalue”.

A investigação também aponta compartilhamento de estrutura, recursos e relações profissionais entre empresas envolvidas no procedimento.

É justamente essa sucessão de elementos que levou o Gecoc a questionar se houve uma competição efetiva na contratação.

“Já está tudo certo”

As conversas recuperadas avançam até os dias imediatamente anteriores à assinatura.

Segundo o relatório, sete dias antes da formalização do contrato, Rinaldo conversou novamente com Maurício e afirmou:

“Já está tudo certo.”

Na mesma sequência de comunicações, há referência a uma cobrança atribuída a “doutora” para que o contrato fosse assinado.

O Ministério Público relaciona essa menção ao contexto da administração superior da Santa Casa, mas qualquer atribuição individual precisa ser feita exatamente nos limites estabelecidos pelo relatório e pelas demais provas reunidas.

Para os investigadores, o conjunto das conversas demonstra que Maurício não teria se limitado ao comportamento normal de uma empresa que simplesmente apresenta uma proposta comercial e aguarda a decisão da contratante.

Contrato foi assinado em outubro

O contrato acabou formalizado em 29 de outubro de 2024.

O objeto era a digitalização do acervo documental da Santa Casa.

A previsão inicial era de aproximadamente 3 milhões de páginas digitalizadas mensalmente, e o negócio poderia alcançar aproximadamente R$ 1,8 milhão por ano, chegando a cerca de R$ 5,4 milhões durante os três anos previstos.

A Redvalue acabaria se tornando uma das principais empresas investigadas pela Operação Antidotum.

Meses depois, Conselho Fiscal encontrou diferença nos pagamentos

A execução começou a provocar questionamentos internos.

Em abril de 2025, o Conselho Fiscal passou a cobrar documentos que permitissem comparar o que havia sido efetivamente digitalizado com aquilo que estava sendo pago.

Posteriormente, o colegiado calculou uma diferença aproximada de R$ 511,3 mil entre pagamentos realizados e produção cuja execução teria sido comprovada, segundo a investigação.

Em 28 de agosto de 2025, o Conselho Fiscal formalizou os problemas, recomendou a apuração de responsabilidades e pediu a suspensão imediata do contrato.

Apesar disso, segundo o Gecoc, a presidente Alir Terra Lima não determinou a suspensão e a relação contratual continuou vigente. 

Essa conduta é uma das atribuídas a Alir pelo Ministério Público.

MP diz que tentaram reduzir serviço sem reduzir pagamento

Outro capítulo ocorreu em 2025.

Segundo a investigação, Rinaldo Romano e Alessandro Dias Junqueira participaram de uma tentativa de modificar o contrato.

A alteração pretendia reduzir de 3 milhões para 1 milhão o número mensal de páginas a serem digitalizadas, mas manter a possibilidade de a Redvalue receber até R$ 150 mil mensais.

Na prática, a obrigação máxima cairia em cerca de dois terços, sem redução proporcional do teto financeiro.

Esse episódio também entrou no conjunto de elementos considerados pela Justiça ao analisar as responsabilidades individuais.

A decisão registra que Rinaldo aparece relacionado à tentativa de reduzir substancialmente a obrigação da empresa “sem correspondente diminuição da remuneração”, enquanto Alessandro é relacionado à proposta de redução da produtividade mantendo a remuneração máxima. 

Da contratação à prisão dos envolvidos

O que começou como um contrato administrativo de digitalização terminou como uma das principais frentes da maior investigação recente envolvendo a Santa Casa.

A Justiça entendeu, em análise cautelar, que havia elementos suficientes para autorizar prisões, buscas, apreensões e afastamentos.

A decisão aponta indícios de uma atuação coordenada entre pessoas posicionadas em setores estratégicos da Santa Casa, integrantes das empresas contratadas e pessoas relacionadas à movimentação dos recursos. 

Quem está preso preventivamente

A Operação Antidotum resultou na prisão preventiva de seis pessoas:

Alir Terra Lima — presidente da Santa Casa;

Rinaldo Hakme Romano — ex-diretor administrativo-financeiro;

Alessandro Dias Junqueira — ligado à área administrativa e apontado como fiscal do contrato;

Paulo Guilherme Gutierres Mariosa — diretor-adjunto de Finanças;

Monique Gregório de Oliveira — responsável pelo setor de documentação/prontuários;

Maurício Aparecido Benites — empresário relacionado à Redvalue e às demais empresas investigadas.

O Ministério Público também pediu a prisão de Jary de Carvalho Castro, ex-vice-presidente da Santa Casa, mas a Justiça não acolheu esse pedido.

Paulo da Cruz Duarte e Beatriz Lemes da Silva não foram presos. Ambos tiveram o afastamento cautelar das funções determinado pela Justiça no âmbito da investigação.

O que é a Operação Antidotum

Deflagrada em 11 de setembro, a Operação Antidotum é conduzida pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul por meio do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc), com participação do Gaeco no cumprimento das medidas.

A investigação está dividida, em linhas gerais, em duas grandes frentes.

Uma delas envolve justamente a Redvalue, o processo de contratação, a execução do serviço de digitalização, os atestos, pagamentos e a posterior movimentação dos recursos.

A outra alcança a Operadora Santa Casa Saúde e sucessivos contratos celebrados com empresas relacionadas a Paulo da Cruz Duarte.

A Justiça registrou, ao analisar o pedido do MP, indícios de utilização da própria estrutura administrativa para contratação, fiscalização, pagamento e posterior ocultação das operações investigadas. 

O Contribuinte acompanha caso antes da Antidotum

A Operação Antidotum surgiu depois de meses de questionamentos sobre a administração da maior unidade hospitalar de Mato Grosso do Sul.

Antes mesmo das prisões, O Contribuinte vinha acompanhando a crise da Santa Casa, incluindo atrasos, reclamações de médicos, dificuldades financeiras, suspensão de procedimentos, questionamentos sobre dirigentes, empresas contratadas e relações empresariais existentes ao redor da instituição.

Com acesso ao relatório que fundamentou as medidas da Antidotum, a reportagem passa agora a reconstruir como os contratos investigados nasceram e quais conversas ocorreram antes de sua formalização.

No caso da Redvalue, a cronologia descrita pelo Ministério Público acrescenta uma questão central à investigação:

se o próprio futuro contratado já havia enviado a minuta editável do contrato ao gestor da Santa Casa antes da formalização do negócio, em que momento a escolha efetiva da empresa ocorreu?

Essa é uma das questões que o processo deverá esclarecer.

O espaço permanece aberto às defesas de todos os citados para manifestação. As imputações descritas nesta reportagem são provenientes do Ministério Público e ainda serão submetidas ao contraditório e à análise judicial.