Criado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o Escudo das Américas é a mais nova coalizão político-militar do Hemisfério Ocidental e reúne governos conservadores da América Latina alinhados à política externa de Washington.
Lançada oficialmente durante uma cúpula realizada em Miami, na Flórida, a iniciativa nasceu com o objetivo declarado de fortalecer o combate ao narcotráfico, ao crime organizado transnacional, à imigração ilegal e reduzir a influência de potências estrangeiras, como China e Rússia, na região.
Embora tenha sido apresentada oficialmente como um acordo voltado à segurança continental, o Escudo das Américas rapidamente passou a ser visto como um novo bloco de articulação política entre governos alinhados à agenda de Donald Trump.
Quem faz parte da coalizão
Na cerimônia de lançamento participaram presidentes e chefes de governo de países como Argentina, El Salvador, Paraguai, Equador, Chile, Costa Rica, Panamá, República Dominicana, Guiana, Honduras, Bolívia e Trinidad e Tobago.
Entre os principais nomes estão o presidente argentino Javier Milei, o presidente salvadorenho Nayib Bukele e o presidente equatoriano Daniel Noboa, todos considerados aliados estratégicos de Washington.
O Brasil ficou de fora da iniciativa e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sequer foi convidado para a cúpula que oficializou a criação da coalizão.
Mais do que segurança
Embora o discurso oficial esteja voltado ao combate aos cartéis de drogas e ao crime organizado, o projeto possui objetivos estratégicos mais amplos.
O governo Trump pretende fortalecer a presença norte-americana na América Latina em um momento de crescente expansão econômica e política da China no continente.
Dados apresentados pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) mostram que o comércio chinês com a América Latina ultrapassou US$ 500 bilhões em 2024, além de investimentos bilionários em infraestrutura, energia, mineração e logística.
Para Washington, reduzir essa influência tornou-se prioridade.
Kristi Noem e Marco Rubio comandam o projeto
A coordenação política do Escudo das Américas ficou sob responsabilidade de Kristi Noem, nomeada por Trump como enviada especial da coalizão.
Já o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou recentemente esperar que novos governos eleitos na América Latina passem a integrar a aliança nos próximos anos.
Segundo Rubio, o projeto deverá crescer conforme a região continue elegendo governos alinhados às pautas de segurança defendidas pelos Estados Unidos.
Operações conjuntas
A Casa Branca informou que a coalizão prevê treinamento militar, intercâmbio de inteligência, operações integradas entre forças de segurança e maior cooperação policial para combater organizações criminosas que atuam em vários países da região.
Em documento oficial divulgado durante o lançamento da iniciativa, Trump afirmou que os Estados Unidos ajudarão a mobilizar e treinar forças militares dos países participantes para ampliar a capacidade de combate aos cartéis.
A estratégia foi comparada pelo próprio presidente americano às coalizões internacionais formadas pelos EUA para enfrentar organizações terroristas no Oriente Médio.
Brasil pode ficar ainda mais isolado entre governos conservadores
Nos últimos meses, o governo brasileiro já enfrentou atritos diplomáticos com integrantes da administração Trump e críticas de autoridades americanas sobre decisões envolvendo liberdade de expressão, plataformas digitais e o tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Caso o episódio envolvendo Javier Milei venha a repercutir entre os integrantes do Escudo das Américas, especialistas avaliam que o Brasil poderá enfrentar um ambiente diplomático ainda mais delicado junto aos governos conservadores do continente.
Por enquanto, entretanto, não há qualquer confirmação de que a Argentina pretenda levar oficialmente o caso à coalizão, mas a negativa à visita de Milei colocou o tema no radar da política internacional e reforçou a dimensão externa que as decisões envolvendo Bolsonaro passaram a assumir.