Investigado por soltar o narcotraficante Gerson Palermo, ex-presidente é citado por uso de dinheiro vivo em pagamentos
O inquérito final da Operação Ultima Ratio, encaminhado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e ao Ministério Público Federal (MPF), revela um padrão considerado suspeito pela Polícia Federal: o uso recorrente de dinheiro em espécie pelo desembargador Divoncir Schreiner Maran, ex-presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), e sua esposa, Viviane Alves Gomes de Paula.
Investigado por sua atuação na soltura do narcotraficante Gerson Palermo, condenado a 126 anos de prisão, Maran aparece no relatório como alvo de indícios que, segundo a PF, podem apontar para corrupção e venda de decisões judiciais.
Salário alto, mas pagamentos em dinheiro
Apesar de receber mais de R$ 100 mil mensais entre salários e benefícios, totalizando mais de R$ 1,3 milhão apenas em 2025, a investigação identificou o uso frequente de dinheiro vivo em diversas despesas.
A quebra de sigilo telefônico revelou que, em maio de 2022, a esposa do magistrado realizou o pagamento de três boletos em uma lotérica, somando R$ 5,6 mil, quitados integralmente em espécie.
O padrão se repete em situações ainda mais incomuns: até mesmo a compra de um cachorro, no valor de R$ 8 mil, foi realizada por meio de depósito em dinheiro na conta da vendedora.
Mansão de luxo e pagamentos milionários
Grande parte das suspeitas gira em torno da construção de uma mansão no condomínio de alto padrão Riviera Home Club, empreendimento da Plaenge localizado na Chácara dos Poderes, em Campo Grande.
Recibos obtidos pela Polícia Federal mostram que:
– Dos R$ 577 mil gastos com móveis planejados, R$ 372,5 mil (65%) foram pagos em dinheiro vivo
– Um pagamento adicional de R$ 70 mil também foi feito em espécie
– Outros R$ 152,5 mil são suspeitos de terem sido pagos em dinheiro, embora sem comprovação formal por transferência bancária
Além disso, o mestre de obras responsável pela construção relatou que recebia pagamentos quinzenais entre R$ 5 mil e R$ 7 mil, sempre em espécie.
Documentos ainda apontam um repasse de R$ 140 mil ao profissional, também realizado com dinheiro físico.
Indício de corrupção, diz delegado
Para o delegado da Polícia Federal, Marcos André Damato, responsável pelo inquérito, o conjunto das movimentações levanta fortes suspeitas.
“Entendemos que o uso de dinheiro em espécie por Divoncir Maran e sua esposa, somado aos demais elementos expostos, é forte indício de corrupção na venda de decisões judiciais”, concluiu.
Silêncio na investigação
Convocado a prestar esclarecimentos na Superintendência da Polícia Federal, o desembargador optou por exercer o direito ao silêncio e não respondeu aos questionamentos.
Histórico: caso Palermo e punições
Divoncir Maran já havia sido alvo da Operação Tiradentes, deflagrada em fevereiro de 2024, que investigou corrupção e lavagem de dinheiro relacionadas à soltura de Gerson Palermo.
O narcotraficante, considerado de alta periculosidade, foi beneficiado por habeas corpus concedido por Maran durante o feriadão de Tiradentes de 2020. Após a soltura, Palermo rompeu a tornozeleira eletrônica e desapareceu, estando foragido até hoje.
O caso resultou em punições administrativas:
O magistrado foi afastado pelo STJ
Posteriormente, reassumiu por decisão do STF
Em 2025, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou sua aposentadoria compulsória, convertendo a aposentadoria por idade
Com a penalidade, Maran ainda pode responder criminalmente e, em caso de condenação, perder a aposentadoria.
Operação segue sob sigilo
Deflagrada em 24 de outubro de 2024, a Operação Ultima Ratio segue sob sigilo e apura um esquema mais amplo. Além de Maran, são investigados:
DESEMBARGADORES NA MIRA
om base nas provas reunidas, a Polícia Federal sugeriu ao Ministério Público Federal o indiciamento de sete desembargadores:
Sideni Soncini Pimentel
Vladimir Abreu da Silva
Julio Roberto Siqueira Cardoso
Alexandre Aguiar Bastos
Sergio Fernandes Martins
Divoncir Schreiner Maran
Marcos José de Brito Rodrigues
O caso segue em análise no STJ e no Ministério Público Federal.