Giroto apresenta três medidas concretas para prevenir esquemas como o da Operação Buraco Sem Fim e relembra obras que tiraram o Aero Rancho da situação de favela, hoje entregues ao descaso
A Operação Buraco Sem Fim prendeu sete pessoas, incluindo o ex-secretário de Infraestrutura Rudi Fiorese. O MPMS fez o que deveria fazer. Mas para Edson Giroto, que foi secretário estadual e municipal de obras por mais de dez anos, além de deputado federal, a pergunta que ninguém está respondendo é: por que esse esquema durou sete anos sem ser detectado pelos mecanismos ordinários de controle?
“Eu fui secretário de obras tanto em Campo Grande e no Estado. O contrato de tapa-buraco tem fragilidades porque a medição depende de um fiscal, de uma planilha e da boa-fé de quem registra. Quando não há boa-fé, o sistema não detecta sozinho. Precisamos mudar isso por lei”, afirmou.
Giroto aponta o que vê como causa política da crise: gestores que chegam a cargos executivos com o olho na próxima eleição, não na cidade.
“Eu não me sentei na cadeira de secretário de Obras querendo ser candidato. Depois é um fato natural que aconteça. Agora, o secretário que vai para lá querendo ser candidato não vai pensar na cidade nem na dedicação ao prefeito. Ele vai querer usar a máquina pública em benefício próprio, e é aí que acontece o que está acontecendo”, afirmou.
A Sisep atual, que além de herdar um rombo de mais de R$ 113 milhões em contratos fraudados, ainda adotou como resposta emergencial o uso de bica corrida, um método que Giroto, engenheiro civil com décadas de experiência em obras públicas, classifica como tecnicamente irresponsável e fisicamente perigoso.
Novo sistema
Contratos de manutenção urbana, tapa-buraco, roçagem, limpeza de bueiros, são historicamente os mais vulneráveis a fraudes municipais no Brasil. A medição é subjetiva, a fiscalização é precária e o volume financeiro é alto. Terreno fértil para o desvio.
Giroto cita três medidas que podem melhorar a governança e fiscalização dos contratos.
“Todos os serviços de manutenção viária financiados com verbas federais ou realizados em municípios acima de 100 mil habitantes devem ser registrados com imagem georreferenciadas antes e depois da execução, armazenada em sistema público auditável”, explica.
“Também seria necessário a criação de protocolo federal com auditorias aleatórias periódicas em contratos de manutenção urbana, com laudos técnicos independentes vinculados à continuidade dos repasses federais ao município”, avalia Giroto, que além de deputado federal, também trabalhou no Ministério dos Transportes.
Outra sugestão seria a criacao de um banco de dados nacional de empresas investigadas, com impedimento automático de novas licitações para empresas e sócios que estejam sob investigação por fraude em contratos públicos, com base em cadastro nacional unificado.
“Em Mato Grosso do Sul, nós temos o MP fazendo o trabalho. Mas não podemos depender só do MP para descobrir o problema sete anos depois. A prevenção tem que estar no contrato, na medição, no sistema. É isso que vamos trabalhar”, declara Giroto.
O que foi construído e o que foi abandonado
Em um vídeo recente publicado nas redes sociais, Giroto revisitou a região do Córrego Anhanduí, uma das mais transformadas durante sua passagem pela Secretaria Municipal de Obras e o que viu o entristeceu profundamente.
“Uma das obras que mais impactaram foi o Córrego Anhanduí. Desde aqui, o Horto Florestal, praticamente o Horto Florestal, até o final do Aero Rancho, que a última rua é a Campestre. Era favela, era lixo, era uma condição das pessoas que lá viviam extremamente insalubre, perigosa. E nós fomos mudando”, relembrou.
O relato é de quem esteve no canteiro de obras: “Nós limpamos, nós urbanizamos, nós tiramos as favelas, nós pavimentamos o Aero Rancho, nós demos dignidade. Hospital Rosa Pedrossian. Nós fizemos uma escola, nós arrumamos o Guanandi, o Marcos Roberto. Isso tudo foi uma mudança grande”.
Décadas depois, o mesmo fundo de vale que recebeu urbanização, arborização e pavimentação foi entregue ao abandono e Giroto não esconde a mágoa.
“O que eu fico triste hoje, muito triste hoje, é ver que foi abandonado. Abandonaram todo aquele fundo de vale que era cuidado, arborizado, gramado e hoje tá abandonado. Todo ele abandonado. Que pena.”
A Prefeitura prometeu novas equipes em julho e ampliação da capacidade até agosto. O secretário André Brandão afirmou que “entre agosto com uma produção muito maior do que estamos fazendo.”
“Campo Grande é a capital de um dos estados mais produtivos do Brasil. Nós exportamos soja, carne, celulose para o mundo inteiro. E a nossa capital não consegue tapar o buraco da rua com asfalto de verdade. Isso não é aceitável”, diz Giroto
A prefeita precisa reconhecer aquilo que os antecessores fizeram de bom e se dedicar ao máximo para que a cidade continue tendo qualidade de vida. Não para fazer campanha usando a máquina pública. Para servir Campo Grande.”