Ao revisitar a trajetória política de Alcides Bernal após sua morte, personagens centrais da intensa batalha judicial travada pelo ex-prefeito voltam ao centro do debate. Anos depois de participarem de decisões relacionadas ao caso, parte desses desembargadores passou a ser investigada pela Polícia Federal na Operação Ultima Ratio, que apura suspeitas de corrupção e venda de decisões judiciais no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul.
A morte do ex-prefeito Alcides Bernal, aos 60 anos, na madrugada desta segunda-feira (13), não apenas reabriu o debate sobre uma das maiores crises políticas da história de Campo Grande. Ao revisitar sua trajetória, a política sul-mato-grossense também volta os olhos para alguns dos personagens que marcaram a intensa batalha judicial travada por Bernal após sua cassação e que, mais de uma década depois, passaram a figurar entre os investigados da Operação Ultima Ratio, da Polícia Federal, ou em procedimentos disciplinares conduzidos pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Entre 2014 e 2015, a disputa pelo retorno de Bernal ao comando da Prefeitura percorreu diferentes gabinetes do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS). Liminares, recursos e julgamentos colocaram diversos desembargadores no centro daquele embate institucional, considerado um dos mais marcantes da história recente do Estado.
Passados onze anos da cassação, alguns desses mesmos magistrados voltaram aos holofotes por um motivo completamente diferente.
A Operação Ultima Ratio, deflagrada pela Polícia Federal em outubro de 2024, passou a investigar um suposto esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e comercialização de decisões judiciais envolvendo integrantes do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul. O relatório final da investigação, ao qual o Portal O Contribuinte teve acesso, descreve um patrimônio milionário, movimentações financeiras incompatíveis, pagamentos em espécie, fazendas, imóveis urbanos, veículos de luxo e até dinheiro guardado em cofres como parte do contexto analisado pelos investigadores.
Embora a investigação trate de fatos distintos daqueles relacionados ao caso Bernal, a coincidência de personagens faz com que antigos capítulos da política estadual sejam novamente lembrados.
Os desembargadores que participaram da batalha judicial de Bernal
Durante o período em que buscava retornar ao cargo, Bernal enfrentou sucessivas decisões judiciais.
Entre os magistrados que participaram de momentos importantes daquele processo estavam Vladimir Abreu da Silva, Divoncir Schreiner Maran, Sérgio Fernandes Martins, Sideni Soncini Pimentel e Júlio Roberto Siqueira Cardoso.
Na época, cada um deles participou, em momentos distintos, de decisões relacionadas aos recursos apresentados pelo então prefeito ou aos desdobramentos da crise institucional instalada em Campo Grande.
Agora, anos depois, seus nomes reaparecem em outro contexto: o da Operação Ultima Ratio.
Divoncir Maran e o caso que levou à punição pelo CNJ
Um dos nomes que mais chamam atenção é o do desembargador Divoncir Schreiner Maran.
Responsável por decisões importantes durante a batalha judicial envolvendo Bernal, Maran foi posteriormente aposentado compulsoriamente pelo Conselho Nacional de Justiça após Processo Administrativo Disciplinar relacionado à concessão de prisão domiciliar ao megatraficante Gerson Palermo, condenado a 126 anos de prisão e apontado como uma das principais lideranças do PCC em Mato Grosso do Sul.
Segundo o CNJ, a decisão foi concedida sem comprovação médica formal e em tempo considerado incompatível com a complexidade do habeas corpus.
O relatório disciplinar ainda faz referência a elementos obtidos em investigações da Polícia Judiciária e do Coaf que apontariam indícios de utilização do cargo para o cometimento de crimes, hipótese negada pela defesa do magistrado.
Vladimir Abreu e a investigação sobre venda de decisões
Outro personagem da história de Bernal que voltou ao centro das atenções foi o desembargador Vladimir Abreu da Silva.
Na Operação Ultima Ratio, a Polícia Federal afirma ter encontrado fortes indícios de comercialização de decisões judiciais envolvendo o magistrado.
O relatório destaca o relacionamento próximo entre Vladimir e o advogado Rodrigo Pimentel — filho do desembargador Sideni Soncini Pimentel e ex-secretário de Governo de Gilmar Olarte, vice-prefeito que assumiu o comando do Executivo após a cassação de Bernal.
Segundo a PF, os dois mantinham convivência frequente, participavam do mesmo grupo de pescarias e compartilhavam um rancho pesqueiro.
Os investigadores também apontaram depósitos frequentes em dinheiro vivo e consideraram incompatível a justificativa apresentada para movimentações financeiras em espécie.
A defesa do desembargador nega qualquer irregularidade, sustenta que não houve prova concreta de venda de decisões e afirma que os valores em espécie eram provenientes da atividade comercial da esposa do magistrado.
Sideni Pimentel e a aposentadoria antecipada
Outro nome presente tanto na história de Bernal quanto na Operação Ultima Ratio é o de Sideni Soncini Pimentel.
Durante a crise política envolvendo o ex-prefeito, Sideni figurava entre os desembargadores do Tribunal de Justiça.
Anos depois, tornou-se um dos principais alvos da Operação Ultima Ratio.
A investigação resultou em seu afastamento do cargo por decisão do Superior Tribunal de Justiça. Posteriormente, Sideni antecipou sua aposentadoria voluntária, mantendo remuneração integral superior a R$ 39 mil mensais.
Além dele, filhos do desembargador também passaram a ser investigados pela Polícia Federal.
Após deixar o Judiciário, Sideni reativou sua inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil e anunciou o retorno à advocacia, enquanto continua respondendo a procedimento disciplinar no Conselho Nacional de Justiça.
Sérgio Martins também aparece entre os investigados
O desembargador Sérgio Fernandes Martins, que participou do julgamento que resultou no retorno de Bernal ao cargo em 2015, também passou a integrar o rol de investigados da Operação Ultima Ratio.
Segundo o relatório da Polícia Federal, despesas superiores a R$ 894 mil teriam sido pagas com recursos cuja origem é considerada suspeita pelos investigadores.
A apuração aponta pagamentos recorrentes em dinheiro vivo, utilização frequente de casas lotéricas para quitação de despesas e movimentações financeiras envolvendo assessores do gabinete.
A Polícia Federal sustenta que o padrão financeiro analisado seria compatível com ocultação de recursos provenientes de suposta venda de decisões judiciais.
Sérgio Martins nega qualquer irregularidade. Sua defesa afirma que todas as movimentações possuem origem lícita, foram declaradas aos órgãos competentes e são compatíveis com seu patrimônio e renda, versão que também foi considerada pelo ministro Cristiano Zanin ao autorizar seu retorno ao cargo.
Personagens diferentes, uma mesma página da história
Onze anos depois da cassação de Alcides Bernal, a morte do ex-prefeito faz Campo Grande revisitar um dos períodos mais intensos de sua história política.
Ao recontar essa trajetória, inevitavelmente retornam ao debate personagens que participaram da longa batalha judicial travada pelo então prefeito e que, anos mais tarde, passaram a ocupar o centro de outra investigação de grande repercussão nacional.
Embora a Operação Ultima Ratio trate de fatos distintos e não tenha por objeto as decisões relacionadas ao caso Bernal, o reaparecimento desses mesmos personagens reforça como a história política e institucional de Mato Grosso do Sul permanece interligada por acontecimentos que atravessam diferentes momentos e continuam despertando interesse público mais de uma década depois.