Presidente voltou a dizer que segurança pública é responsabilidade dos estados, mas foi confrontado com indicadores de violência em unidades federativas governadas pelo PT
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a atribuir aos estados a responsabilidade principal pela segurança pública durante a sabatina do Jornal Nacional, da TV Globo, nesta quinta-feira (27), mas acabou sendo confrontado com os índices de violência registrados justamente em estados administrados pelo próprio partido.
O momento de maior tensão ocorreu quando um dos entrevistadores citou a situação da Bahia.
“A Bahia tem hoje cinco das dez cidades mais violentas do Brasil”, afirmou o jornalista durante o questionamento.
Lula reagiu.
“Não seja injusto com a Bahia”, respondeu.
Na sequência, o presidente argumentou que o problema da violência não foi resolvido por nenhum governador brasileiro.
“Nenhum governador conseguiu resolver o problema da segurança pública”, declarou.
Lula volta a colocar responsabilidade nos estados
A resposta repetiu um argumento utilizado por Lula em outras ocasiões: a Constituição atribui aos estados parcela central da execução cotidiana da segurança pública, especialmente por meio das polícias Civil e Militar.
O problema político para o presidente surgiu quando a discussão deixou o campo abstrato e passou para exemplos concretos.
A Bahia, comandada pelo PT há vários mandatos consecutivos, possui indicadores graves de violência e presença de organizações criminosas.
O Ceará, outro estado administrado por governos petistas em diferentes períodos, também enfrenta problemas relacionados à criminalidade organizada.
Ao sustentar que a segurança é primordialmente uma atribuição estadual, Lula acabou abrindo espaço para que os resultados dos próprios governos do PT fossem utilizados contra seu argumento.
“Não seja injusto com a Bahia”
A reação de Lula à menção da Bahia foi um dos pontos mais marcantes do bloco.
Em vez de contestar imediatamente os números apresentados, o presidente pediu que o jornalista não fosse “injusto” com o estado.
A resposta, porém, não eliminou a questão central levantada durante a entrevista: se os governos estaduais possuem responsabilidade determinante sobre a segurança, como explicar os índices de criminalidade em um estado administrado há anos pelo partido do próprio presidente?
Lula ampliou a defesa ao afirmar que nenhum governador conseguiu solucionar completamente o problema da violência.
A observação é verdadeira no sentido de que a segurança pública é um desafio nacional e não existe unidade da Federação livre de criminalidade.
Isso, contudo, não impede a comparação de resultados entre estados nem afasta a cobrança sobre governos que apresentam indicadores piores.
Segurança também é responsabilidade da União
Embora as polícias estaduais tenham protagonismo no policiamento ostensivo e nas investigações locais, a União também possui atribuições importantes na segurança pública.
A Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e políticas de controle das fronteiras estão sob responsabilidade federal.
O governo federal também participa do financiamento de programas, operações integradas e estratégias de combate ao crime organizado.
Em um país em que facções atravessam fronteiras estaduais e internacionais, a discussão sobre segurança deixou há muito tempo de ser um problema exclusivamente estadual.
Organizações criminosas atuam simultaneamente em diferentes estados, movimentam recursos em escala nacional e mantêm conexões internacionais para tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro.
Por isso, atribuir o problema apenas aos governadores não encerra a discussão sobre a responsabilidade do governo federal.
Resposta expôs contradição política
O trecho deixou Lula em uma situação politicamente desconfortável.
Se a responsabilidade é dos estados, governos petistas também precisam responder pelos próprios resultados.
Se o crime organizado exige uma estratégia nacional, o governo federal também precisa assumir protagonismo.
A tentativa de separar completamente as duas esferas esbarra justamente na complexidade atual da criminalidade brasileira.
O próprio avanço das facções tornou indispensável a integração entre estados e União.
Tema será central na eleição
A segurança pública já aparece como um dos principais temas da disputa presidencial de 2026.
Durante a campanha, adversários de Lula têm defendido maior endurecimento de penas, mudanças na legislação criminal e atuação mais intensa do governo federal contra facções.
Lula, por outro lado, tem destacado a necessidade de integração federativa e frequentemente lembra que boa parte da estrutura policial está sob comando dos governadores.
Na sabatina do Jornal Nacional, entretanto, essa argumentação acabou enfrentando um obstáculo político imediato: alguns dos estados com graves problemas de violência são governados justamente por aliados do presidente.
Ao tentar afastar do Planalto a responsabilidade pelos índices de criminalidade, Lula acabou colocando no centro do debate os resultados das administrações estaduais de seu próprio partido.