Conversas de WhatsApp, e-mails, documentos bancários e quebras de sigilo permitiram ao Gaeco reconstruir o caminho percorrido pelo dinheiro após os pagamentos realizados por municípios
Um dos principais pilares da Operação Gutenberg é a reconstrução do caminho percorrido pelo dinheiro após os pagamentos realizados por prefeituras à Editora Avante. Segundo o relatório do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), a análise de mensagens, extratos bancários, documentos fiscais e quebras de sigilo revelou uma dinâmica financeira considerada fundamental para compreender o funcionamento da suposta organização criminosa.
De acordo com a investigação, os valores pagos pelos municípios não permaneciam por muito tempo na conta da editora. Assim que os recursos eram creditados, iniciava-se uma sequência de transferências, saques e repasses para pessoas físicas e jurídicas ligadas aos investigados.
Grupo discutia pagamentos em tempo real
As mensagens extraídas dos celulares mostram que integrantes do grupo acompanhavam a entrada dos recursos praticamente em tempo real.
Em um grupo de WhatsApp denominado “Editora Avante”, investigados orientavam a proprietária formal da empresa sobre quais valores deveriam ser transferidos e para quem.
Após um pagamento efetuado pela Prefeitura de Ladário, por exemplo, o relatório descreve que participantes identificados como Heyder e Jana passaram a orientar Rhayane Souza Fanaia sobre a destinação do dinheiro.
Em outra conversa, aparecem divisões detalhadas dos recursos, com destinatários e valores específicos, incluindo repasses para Rossana Paroschi Jafar, Superconteúdo e Galeria das Letras.
Papel de Rhayane
Embora figurasse oficialmente como proprietária da Editora Avante, a investigação sustenta que Rhayane Souza Fanaia não administrava a empresa de forma autônoma.
Segundo o Ministério Público, ela seguia orientações de outros investigados para realizar transferências, emitir documentos bancários, encaminhar comprovantes e efetuar pagamentos.
Para o Gaeco, as mensagens reforçam a hipótese de que a editora era administrada coletivamente, apesar de possuir apenas uma representante formal.
Recursos eram pulverizados
A investigação aponta que essa distribuição imediata dos recursos tinha um objetivo específico: dificultar o rastreamento da origem do dinheiro.
Após os depósitos realizados pelas prefeituras, os valores eram fracionados e enviados para diferentes contas bancárias, empresas e pessoas físicas.
Segundo o Ministério Público, esse modelo de pulverização financeira é compatível com práticas investigadas em crimes de lavagem de dinheiro.
Quebras de sigilo fortaleceram investigação
Além das mensagens de aplicativos, o Gaeco obteve autorização judicial para acessar dados bancários, fiscais e telemáticos dos investigados.
Esse conjunto de provas permitiu cruzar:
pagamentos efetuados pelas prefeituras;
entrada dos recursos na Editora Avante;
transferências bancárias posteriores;
saques em dinheiro;
emissão de notas fiscais;
distribuição dos valores entre integrantes do grupo.
Segundo o Ministério Público, foi esse cruzamento que permitiu reconstruir a dinâmica financeira da suposta organização criminosa.
Investigação continua
A Operação Gutenberg apura crimes como organização criminosa, fraude em licitações, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e peculato.
O material financeiro continua sendo analisado pelos investigadores e poderá subsidiar novas diligências, eventuais denúncias e o aprofundamento da apuração sobre a responsabilidade individual de cada investigado.
As conclusões apresentadas pelo Ministério Público representam a linha investigativa do caso e ainda serão submetidas ao contraditório, à ampla defesa e à apreciação do Poder Judiciário.