Decano do STF afirma que PGR teve a honra “injustamente manchada”, compara divulgação do material à Lava Jato e acusa André Mendonça de explorar politicamente o episódio
O ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal, publicou na manhã desta quinta-feira (17) uma extensa manifestação em defesa do procurador-geral da República, Paulo Gonet, depois de referências ao chefe da PGR aparecerem no material extraído do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Gilmar afirma que Gonet teve sua honra “injustamente manchada” pela retirada do sigilo e direciona duras críticas à condução do ministro André Mendonça, relator dos procedimentos que deram origem à crise que chegou ao plenário do STF na terça-feira (15).
O ministro chegou a comparar a divulgação do material às práticas que atribui à Operação Lava Jato, mencionando nominalmente Sergio Moro e Deltan Dallagnol.
A publicação acrescenta mais um capítulo à guerra aberta dentro do Supremo em torno do caso Master.
O que apareceu sobre Gonet
A manifestação de Gilmar acontece depois de o levantamento do sigilo permitir conhecer referências a Paulo Gonet encontradas pela Polícia Federal no material de Daniel Vorcaro.
Um dos episódios mais sensíveis aparece em uma anotação no aparelho do banqueiro, modificada em 30 de outubro de 2025.
Segundo o relatório, Vorcaro registrou:
“informações informais e em confidencia de turma do banco central, que G e os diretores estao na pressao máxima de novo pra uma medida, pois o bacen esta sendo muito pressionado pela PF e MP, alegando que farao algo contra mim”
Na sequência aparece:
“importante reforçar com Andrei e Paulo pra nao deixar ninguem de baixo fazer uma sacanagem”
A própria Polícia Federal fez uma ressalva importante.
Os investigadores apontaram que “Andrei” poderia indicar Andrei Rodrigues e “Paulo” poderia indicar Paulo Gonet, mas o relatório não apresenta essa identificação como conclusiva.
A PF também registrou que não encontrou no aparelho contato salvo especificamente como “Paulo Gonet” ou “Gonet”.
Portanto, a anotação não demonstra que Gonet tenha recebido pedido de Vorcaro, atendido qualquer solicitação ou praticado irregularidade.
Outras referências a Gonet
O nome do procurador-geral aparece em outros diálogos analisados pela PF.
Em conversa de 14 de abril de 2024 entre Vorcaro e Ciro Soares, foram enviadas mensagens como:
“Amizade é tudo viu irmão”
e:
“Gonet é firme”
seguida de:
“Fique só com vc”.
Na mesma sequência, Ciro encaminhou a Vorcaro uma mensagem atribuída a “Jarbas” agradecendo a Paulo Gonet.
Há ainda um áudio encaminhado por Ciro no qual o interlocutor relata ter feito um pedido a Gonet relacionado à desistência de uma candidatura.
Em outro episódio, de 15 de março de 2025, Ciro enviou a Vorcaro uma fotografia com Paulo Gonet e escreveu:
“Ele quer falar com você”.
Depois da mensagem aparecem registros de ligações.
Essas comunicações demonstram que Gonet era mencionado dentro da rede de contatos analisada no aparelho de Vorcaro, mas não constituem, isoladamente, prova de participação do procurador-geral em irregularidade.
Gonet se defendeu durante sessão
O assunto chegou ao plenário do Supremo nesta terça-feira.
Durante a longa sessão extraordinária relacionada ao relatório da PF, Gonet se manifestou depois de seu nome aparecer na discussão.
André Mendonça também afirmou em plenário que não identificava conduta ilícita do procurador-geral.
É justamente essa circunstância que Gilmar utiliza agora para atacar a divulgação anterior do material.
“Então por que expor?”
Gilmar começa sua publicação fazendo uma defesa enfática do PGR:
“Paulo Gonet, Procurador-Geral da República, tem reputação ilibada e vida pública de lisura insuspeita. Isso nunca foi objeto de disputa: é reconhecido em todos os espectros, por quem concorda e por quem discorda dele.”
Em seguida, critica diretamente a retirada do sigilo:
“Mesmo assim, teve a honra injustamente manchada pelo levantamento do sigilo de conversas que nada de ilícito retratavam. E, naquele exato momento, o estrago à reputação já estava feito. Ninguém desfaz manchete com reparo tardio em plenário.”
Gilmar então utiliza a manifestação de Mendonça durante a sessão contra a própria divulgação:
“Em plenário, o próprio relator reconheceu, em alto e bom som, a lisura da conduta de Gonet e admitiu que nada havia contra ele. Nada. Então por que expor?”
E completa:
“Quem atesta a honra de alguém só depois de tê-la arrastado pela praça pública não está corrigindo um erro: está confessando que ele era evitável.”
Gilmar acusa exploração política
A parte mais dura da publicação vem logo depois.
Gilmar associa a divulgação do material à postura pública de André Mendonça:
“A intenção de lucrar politicamente com o episódio ficou escancarada quando o relator fez publicar vídeo nas redes sociais agradecendo o apoio popular.”
E pergunta:
“Apoio a quê, exatamente?”
Na sequência, utiliza uma expressão de forte teor político:
“Quem age assim não é magistrado imparcial: é boneco de campanha, um pixuleco eleitoral.”
Trata-se de uma acusação política feita por Gilmar Mendes, e não de uma conclusão estabelecida judicialmente sobre a conduta de Mendonça.
Gilmar compara Mendonça a Moro e Dallagnol
O decano ainda estabelece uma comparação direta com a Operação Lava Jato.
“Já vimos esse filme. Na Lava Jato, Deltan Dallagnol e Sergio Moro transformaram vazamento seletivo em método.”
Segundo Gilmar:
“A ideia era sempre criar o fato consumado antes da ação penal, colher os dividendos políticos e deixar a defesa correndo atrás de um julgamento que a opinião pública já havia feito.”
O ministro classifica esse comportamento como:
“Linchamento coletivo”
e afirma que ele serviria para:
“esvaziar o direito de defesa e enterrar a presunção de inocência”.
Eleição entra na manifestação
Gilmar também associa temporalmente a divulgação dos dados ao calendário político.
Segundo ele:
“como na Lava Jato, a hora nunca é ao acaso.”
O ministro menciona episódios próximos a eleições durante a operação e sustenta que, no caso atual, o levantamento teria ocorrido às vésperas do 7 de Setembro:
“para inflar as ruas, arrancar dividendos políticos, sujar reputações e intimidar quem se opõe a esse método.”
Novamente, essa é a interpretação apresentada por Gilmar Mendes. A proximidade de datas, isoladamente, não comprova que a retirada do sigilo tenha sido determinada com finalidade eleitoral.
“Vingança” em vez de Justiça
Gilmar termina essa parte com outra acusação severa:
“No fundo, o alvo é o direito de defesa de pessoas contra as quais esses agentes nutrem algo que se parece muito mais com vingança do que com justiça.”
E conclui:
“Instituição séria respeita o devido processo desde o primeiro ato.”
Ao final, presta solidariedade integral a Gonet:
“A Paulo Gonet, minha integral solidariedade. O Brasil e as instituições são devedores da coragem, da seriedade e da correção de homens como ele.”
Relação entre Gilmar e Gonet merece contexto
A defesa pública também torna relevante esclarecer a relação profissional anterior entre Gilmar Mendes e Paulo Gonet.
Antes de publicar que Gonet foi “ex-sócio de Gilmar”, eu confirmaria a natureza jurídica exata dessa relação, porque sociedade em escritório, vínculo acadêmico e atuação conjunta em instituição jurídica são coisas diferentes e essa qualificação pode alterar substancialmente a matéria.
Se o documento que você tem comprova sociedade entre os dois, aí o melhor título muda bastante para:
“Ex-sócio, Gilmar sai em defesa de Gonet após nome do PGR aparecer em material do celular de Vorcaro”
E o subtítulo poderia ser:
Decano diz que procurador-geral teve honra “injustamente manchada” e acusa Mendonça de exploração eleitoral; relatório da PF trouxe mensagens e referências a Gonet, mas não apontou prova de conduta ilícita do chefe da PGR.
A guerra no STF continua
A manifestação desta quinta-feira demonstra que a sessão do dia 15 não encerrou a crise.
Ao contrário.
O julgamento terminou sem uma decisão sobre o destino da apuração envolvendo Alexandre de Moraes depois de Flávio Dino pedir vista.
Agora, fora do plenário, Gilmar Mendes direciona uma das manifestações públicas mais duras até aqui contra André Mendonça.
No centro da discussão está Paulo Gonet.
O material da PF demonstra que seu nome e possíveis referências a ele apareceram nas comunicações relacionadas a Vorcaro.
Até aqui, porém, isso é diferente de demonstrar participação do procurador-geral em qualquer ilícito.
É justamente essa diferença que Gilmar transformou, nesta quinta-feira, em mais uma frente da disputa que divide o Supremo.