Governador enfrentou pela primeira vez todos os sete adversários no mesmo palco, respondeu a ataques e apresentou números da gestão enquanto concorrentes tentavam transformar crítica em alternativa política.
O Debate Midiamax desta segunda-feira (21) conseguiu produzir aquilo que a campanha pelo Governo de Mato Grosso do Sul ainda não havia apresentado de maneira completa: Eduardo Riedel (PP), candidato à reeleição, frente a frente, no mesmo palco e sob as mesmas regras, com todos os outros sete candidatos.
E esse elemento definiu praticamente toda a noite.
Durante três blocos de perguntas, respostas, réplicas, tréplicas e comentários, além das considerações finais, o atual governo se transformou na principal referência do confronto.
Mesmo quando Eduardo Riedel não era o candidato questionado, sua gestão apareceu repetidamente nas respostas dos adversários.
Corrupção, Saúde, Segurança Pública, professores, servidores, infraestrutura, Fundersul, povos indígenas, Pantanal, incentivos fiscais, habitação, impostos e tamanho da máquina pública foram utilizados para questionar decisões tomadas ao longo da atual administração.
Mas reduzir o debate à fórmula “sete contra Riedel” seria simplificar demais o que aconteceu.
O encontro revelou também diferenças importantes entre os próprios adversários, uma disputa aberta dentro da esquerda e tentativas distintas de cada candidato de construir identidade na reta final.
Essa talvez seja a principal leitura política do debate.

Audiência ampliou o peso do confronto
Segundo números divulgados pelo próprio Jornal Midiamax, a edição registrou mais de 8,5 mil conexões simultâneas ou acessos na transmissão pelo YouTube e mais de 6,2 mil pelo Facebook.
O debate também foi levado ao público pelo Canal 4 da Claro/Net e retransmitido pela Rádio Difusora Pantanal, TVE, TV Imaculada, Rádio Bela Vista FM 98,5, Rádio Hora, Jornal Dourados Digital, MS Web Rádio e Rede Alerta MS de Comunicação.
A estrutura permitiu que o confronto chegasse a eleitores dos 79 municípios de Mato Grosso do Sul por diferentes plataformas.
Os números consolidados de audiência e a repercussão política ainda poderão ser medidos com maior precisão após a transmissão.
E é justamente nas horas seguintes que começa a segunda parte de qualquer grande debate eleitoral: a batalha pelos cortes, vídeos, frases e interpretações que passam a circular nas redes sociais.
O primeiro teste completo de Riedel
O contexto político também deu peso especial ao encontro.
Riedel não havia participado de todos os debates anteriores da campanha, com justificativas relacionadas a compromissos da agenda de governo em algumas dessas ocasiões.
No Midiamax, porém, estavam os oito.
Pela primeira vez, Daniel Lemes (PCO), Delcídio Amaral (PRD), Fábio Trad (PT), Jeferson Bezerra (Agir), João Henrique Catan (Novo), Lucien Rezende (PSOL), Renato Gomes (DC) e Eduardo Riedel dividiram o mesmo palco.
Isso criou uma oportunidade objetiva para os sete adversários: confrontar diretamente o governador.
E eles fizeram isso.
A pergunta política que permanece depois do debate é outra: quanto desse tempo foi utilizado para apresentar um projeto alternativo e quanto foi consumido exclusivamente na crítica ao governo?
Corrupção atravessou boa parte da noite
O assunto politicamente mais pesado foi corrupção.
Renato Gomes já abriu o primeiro bloco mencionando episódios envolvendo a administração pública.
Fábio Trad utilizou sua resposta para falar em “corrupção generalizada” e citou áreas como Saúde e Detran.
João Henrique Catan também recorreu a operações e investigações para questionar a administração estadual.
As declarações são acusações apresentadas por candidatos durante um debate eleitoral e não significam que todas as responsabilidades mencionadas estejam estabelecidas judicialmente.
Riedel reagiu com uma leitura diferente.
O governador afirmou que investigações, prisões e exonerações mencionadas pelos adversários também demonstrariam o funcionamento dos mecanismos de fiscalização e controle do próprio Estado.
O tema produziu o primeiro direito de resposta do debate.
Depois de declarações de Catan, a comissão jurídica concedeu 30 segundos ao governador.
Riedel utilizou o espaço para dizer que um dos episódios mencionados pelos adversários havia sido encaminhado justamente pela estrutura estadual para auditoria e investigação da Polícia Civil.
Duas narrativas ficaram claramente estabelecidas.
Para os adversários, operações e investigações expõem problemas da atual administração.
Para Riedel, a reação institucional aos casos mostra que os mecanismos de controle funcionaram.
O eleitor recebeu as duas versões.

Professores colocaram promessa e gestão frente a frente
Educação também produziu confrontos objetivos.
Jeferson Bezerra questionou a diferença entre professores efetivos e convocados.
Fábio Trad voltou ao assunto posteriormente e cobrou Riedel sobre compromisso relacionado à equiparação salarial.
O governador apresentou números de remuneração, mencionou reformas em escolas e destacou concurso para aproximadamente 2 mil vagas.
Trad respondeu com uma crítica politicamente simples: se limitações fiscais impediam o cumprimento integral de determinado compromisso, esse compromisso não deveria ter sido assumido.
Foi um dos momentos em que o debate conseguiu sair do ataque genérico e colocar promessa, orçamento e execução frente a frente.
Segurança: fronteira, policiais e feminicídio
Segurança Pública também atravessou diferentes rodadas.
Riedel destacou o desafio dos 1.365 quilômetros de fronteira com Bolívia e Paraguai e afirmou que sua gestão realizou investimentos superiores a R$ 600 milhões no setor.
Jeferson Bezerra e Fábio Trad direcionaram o debate para condições de trabalho e valorização dos policiais.
Lucien Rezende defendeu maior investimento em inteligência, câmeras nos uniformes e ampliação das delegacias especializadas, principalmente no enfrentamento ao feminicídio.
A discussão mostrou perspectivas distintas.
O governo enfatizou estrutura e investimento.
Os adversários procuraram deslocar o foco para condições de trabalho, prevenção e funcionamento cotidiano das forças policiais.
Trad e Lucien transformaram a esquerda em palco de disputa
Um dos momentos politicamente mais reveladores do debate aconteceu quando Fábio Trad e Lucien Rezende deixaram temporariamente Riedel de lado e passaram a questionar um ao outro.
Trad iniciou falando sobre economia e distribuição de riqueza.
Lucien respondeu questionando a relação anterior de integrantes do PT com a atual administração estadual.
Da economia, a discussão migrou rapidamente para coerência política.
Apareceram referências ao presidente Lula, ao impeachment de Dilma Rousseff, à eleição estadual de 2022 e à passagem de nomes ligados à esquerda por funções no governo.
Fábio chegou a provocar Lucien perguntando se ele também pretendia conseguir uma “boquinha” posteriormente.
A troca mostrou que a disputa não é apenas entre governo e oposição.
PT e PSOL também disputam entre si o espaço e a legitimidade dentro do campo da esquerda.
Vídeo de Fábio e Catan viraliza e alimenta leitura sobre aproximação
A cobrança de coerência feita por Fábio Trad a Lucien Rezende ganhou uma camada adicional durante o próprio Debate Midiamax.
Enquanto o confronto ainda acontecia, começou a circular nas redes sociais um vídeo mostrando Fábio Trad e João Henrique Catan conversando próximos um do outro.

A cena chamou atenção justamente porque os dois demonstravam proximidade e aparentavam discutir algum episódio ocorrido durante o debate.
O vídeo rapidamente passou a ser compartilhado e interpretado politicamente.
A repercussão aumentou porque, em diferentes momentos da noite, Trad e Catan direcionaram críticas ao governador Eduardo Riedel, dando margem à leitura de que os dois haviam encontrado um ponto comum: fazer do atual governador o principal alvo.
Isso ficou especialmente evidente em discussões relacionadas a corrupção e gestão pública, quando ambos utilizaram seus espaços para questionar a atual administração.
Considerações finais aumentam a repercussão
O assunto ganhou ainda mais combustível no encerramento.
Durante suas considerações finais, Fábio Trad fez uma referência direta a João Henrique Catan e o descreveu como alguém ligado ao campo bolsonarista.
A fala chamou atenção porque Trad não apenas reconheceu Catan dentro desse espaço político como fez uma consideração que pôde ser interpretada como elogiosa ao adversário do Novo.
Catan construiu sua trajetória política recente no campo da direita e chegou à disputa pelo Governo pelo Novo depois de deixar seu partido anterior em meio à composição partidária que passou a apoiar a candidatura de Eduardo Riedel.
Hoje, apresenta-se como opositor do presidente Lula e do Partido dos Trabalhadores.
Ao mesmo tempo, nesta campanha estadual, sua artilharia tem sido direcionada de maneira especialmente intensa contra Riedel.
O comportamento voltou a chamar atenção no Debate Midiamax.
Mesmo tendo no palco Fábio Trad, candidato do PT, partido que nacionalmente representa um campo político frontalmente oposto ao seu, Catan concentrou parte importante dos ataques no atual governador.
Fábio, por sua vez, também fez de Riedel seu principal alvo em diferentes momentos.
Na prática, os dois acabaram convergindo em algumas das críticas mais duras dirigidas ao governador ao longo da noite.
Essa espécie de “dobradinha” circunstancial contra Riedel, somada ao vídeo que viralizou e à referência feita por Fábio a Catan no encerramento, abriu espaço para uma nova discussão política depois do debate.
Não se trata de afirmar que exista acordo entre as duas campanhas.
Mas os episódios ajudam a mostrar que, na reta final, as fronteiras ideológicas da disputa estadual nem sempre coincidem perfeitamente com o desenho nacional de esquerda contra direita.
E justamente por isso o Debate Midiamax deixou mais perguntas do que respostas sobre algumas relações políticas que podem continuar repercutindo até a eleição.
Catan tentou marcar diferença com propostas próprias
Entre os adversários, João Henrique Catan buscou utilizar parte do tempo para apresentar propostas identificáveis com sua candidatura.
Defendeu a criação de uma agência estadual de mineração e estrutura pública para produção de concreto e asfalto.
A ideia apresentada é reduzir custos e a dependência de empreiteiras privadas.
No Pantanal, Catan voltou a defender maior utilização da pecuária como ferramenta de manejo ambiental, utilizando o conceito de “boi bombeiro”.

Também apresentou propostas relacionadas ao funcionalismo, incluindo jornada de seis horas e alterações na cobrança aplicada a aposentados.
É um exemplo de estratégia diferente da simples contestação ao governador: apresentar propostas que possam ser associadas diretamente à candidatura.
Fundersul entrou na mira de Trad
Fábio Trad utilizou a discussão sobre infraestrutura para lançar outro tema que pode continuar sendo explorado na campanha.
O candidato falou em abrir o que chamou de “caixa-preta” do Fundersul.
Questionou a qualidade de rodovias, pavimentação, acostamentos e destinação dos recursos arrecadados pelo fundo.
Delcídio Amaral respondeu puxando a discussão para projetos estruturantes, defendendo maior protagonismo para a Rota Bioceânica e a antiga Ferrovia Noroeste do Brasil.
Jeferson Bezerra acrescentou críticas ao planejamento de obras de pavimentação e saneamento.

Delcídio tentou puxar o debate para desenvolvimento
Delcídio adotou em vários momentos uma linha mais ligada à infraestrutura e ao desenvolvimento econômico.
Falou em ferrovia, Rota Bioceânica, agricultura familiar, pequenos produtores, incentivos e meio ambiente.
No Pantanal, alertou para queimadas e defendeu políticas relacionadas ao sequestro de carbono.
Também questionou a relação entre grandes investimentos industriais, incentivos fiscais e benefícios concretos para trabalhadores e pequenos negócios.
Renato atacou estrutura do Estado e impostos
Renato Gomes manteve uma linha crítica à máquina pública.
Falou sobre corrupção, impostos, Detran, Saúde, cargos comissionados e revisão do orçamento.
Também apresentou a proposta de criação de um banco estadual, que, segundo ele, poderia operar uma carteira de crédito muito superior ao capital inicial aportado pelo Estado.
No campo tributário, comparou alíquotas e criticou o peso de impostos sobre energia, gás e produtos essenciais.

Jeferson focou servidor e eficiência administrativa
Jeferson Bezerra direcionou parte relevante de suas participações para o cotidiano do serviço público.
Cobrou professores, falou sobre policiais e defendeu revisão detalhada das despesas estaduais.
Seu discurso buscou ligar eficiência administrativa à necessidade de cortar gastos que considera desnecessários e redirecionar recursos.

Daniel fez da questão indígena sua principal bandeira
Daniel Lemes insistiu durante o debate em uma pauta específica: a situação das comunidades indígenas.
Falou sobre água, saneamento, violência e conflitos fundiários.
No terceiro bloco, protagonizou um confronto direto com Riedel e classificou o governo como “genocida”.
Riedel respondeu separando o tema indígena em duas frentes.
Uma delas seria fundiária, envolvendo demarcações e conflitos históricos.
A outra seria relacionada a políticas públicas dentro das aldeias.
O governador citou compra de áreas, habitação, água e participação financeira do Estado em projetos executados junto a comunidades indígenas.
O assunto ganhou um espaço incomum para uma campanha estadual e acabou se consolidando como um dos temas importantes da noite.

Lucien buscou diferenciar sua esquerda
Lucien explorou questões ambientais, agricultura familiar, povos indígenas, servidores e habitação.
Defendeu cinturões verdes para estimular pequenos produtores e reduzir o custo dos alimentos.
Na pauta ambiental, defendeu a manutenção de estruturas fortes de proteção ao meio ambiente e destacou a importância do Cerrado e do Pantanal.
Politicamente, porém, seu momento mais relevante veio no confronto com Fábio Trad.
Foi ali que Lucien tentou se apresentar como uma candidatura de esquerda sem vínculo com a atual administração estadual.

Riedel escolheu defender quatro anos de governo
Riedel não tentou fugir de sua condição de governador.
Ao contrário.
Utilizou boa parte do debate para apresentar números e ações da administração.
Falou sobre Segurança Pública, professores, pobreza, emprego, habitação, escolas e políticas para comunidades indígenas.
Segundo números apresentados pelo próprio candidato durante a transmissão, a pobreza teria recuado no Estado e a extrema pobreza registrado queda significativa.
Também afirmou que o Estado apresenta níveis historicamente baixos de desemprego.
Esses números precisam ser analisados posteriormente em suas fontes oficiais, mas fizeram parte da principal estratégia do governador na noite: apresentar a continuidade como resultado de uma gestão que, segundo ele, possui indicadores a defender.

A principal oportunidade dos adversários
Talvez a pergunta política mais importante depois do debate seja esta:
Os sete adversários conseguiram utilizar plenamente a oportunidade de ter Riedel diante deles?
Em alguns momentos, sim.
Houve questionamentos específicos sobre compromissos, orçamento, investigações, professores e infraestrutura.
Também foram apresentadas alternativas concretas.
Mas em diversos outros momentos, a presença do governador acabou dominando tanto o discurso adversário que a crítica à gestão ocupou o espaço que poderia ter sido usado para detalhar projetos próprios.
Esse é um dilema de qualquer candidatura que enfrenta um governante em busca da reeleição.
Quanto mais se fala exclusivamente do candidato que ocupa o cargo, maior o risco de manter esse próprio candidato como personagem central da eleição.
Ao mesmo tempo, ignorar o histórico administrativo significaria abrir mão de confrontar quatro anos de governo.
Cada candidatura tentou encontrar seu equilíbrio.
O que realmente foi o Debate Midiamax?
Não foi apenas um debate sobre propostas.
Foi um teste simultâneo de governo, oposição e coerência política.
Riedel precisou responder pelo próprio mandato.
Os sete adversários precisaram demonstrar que possuem algo além da crítica à atual administração.
A esquerda mostrou que está longe de ser um bloco homogêneo.
Candidatos conservadores também demonstraram diferenças importantes entre si.
Corrupção apareceu como elemento de disputa narrativa.
Educação colocou compromissos anteriores diante de limitações fiscais.
A questão indígena ganhou espaço.
Infraestrutura trouxe Fundersul, ferrovia e Rota Bioceânica para a discussão.
O Pantanal revelou modelos diferentes de política ambiental.
E a Saúde voltou a ser tratada não apenas como prestação de serviço, mas também como problema de gestão e controle.
Não cabe transformar tudo isso em placar de vencedor e perdedor.
O eleitor terá sua própria leitura.
Mas politicamente o debate produziu algo que a campanha precisava: contraste.
E talvez esse seja o melhor resumo da noite.
Pela primeira vez, os oito candidatos tiveram de defender suas posições diante uns dos outros, sem o conforto de entrevistas isoladas, programas editados ou vídeos preparados para as próprias redes sociais.
A partir de agora, começa a disputa pela memória do debate.
Os milhares que acompanharam ao vivo são apenas uma parte do público que terá contato com esse conteúdo.
Cortes, declarações, acusações e propostas continuarão circulando durante os próximos dias.
É nesse ambiente que será possível perceber quais momentos realmente conseguiram ultrapassar o palco do Crea-MS e entrar na reta final da eleição.
O O Contribuinte seguirá acompanhando essa repercussão, confrontando declarações com fatos e reunindo os principais momentos de uma noite que colocou os oito projetos para Mato Grosso do Sul frente a frente.