Os sete adversários tiveram o governador frente a frente pela primeira vez, mas parte do tempo foi consumida por ataques pessoais, disputas internas e acusações já conhecidas.
O primeiro Debate Midiamax com Eduardo Riedel (PP) diante de todos os outros sete candidatos ao Governo de Mato Grosso do Sul criou uma expectativa evidente: finalmente os adversários teriam a oportunidade de confrontar diretamente o governador, questionar quatro anos de administração e apresentar ao eleitor aquilo que pretendem fazer de diferente.
O confronto aconteceu.
A grande revelação, porém, não apareceu.
Ao longo dos quatro blocos, Riedel foi pressionado sobre corrupção, professores, Segurança Pública, Saúde, povos indígenas, infraestrutura, meio ambiente, Fundersul, impostos, funcionalismo e incentivos fiscais.
Também recebeu ataques pessoais.
Daniel Lemes (PCO) classificou o governo de Riedel como “genocida”.
Em outro momento, o governador foi chamado de “mentiroso”.
No debate sobre corrupção, João Henrique Catan (Novo) citou episódios envolvendo órgãos e pessoas ligadas à administração estadual, e a comissão jurídica do debate concedeu a Riedel o primeiro direito de resposta da noite.
Isso tudo produziu tensão.
Mas, considerando apenas o conteúdo apresentado no palco, não surgiu uma informação nova de grande impacto que pudesse ser descrita como uma “bala de prata” contra o governador.
Essa talvez seja a principal leitura política deixada pelo encontro.

Sete adversários diante do governador
Era previsível que Riedel fosse o principal alvo.
Ele está no exercício do mandato e busca a reeleição.
Os outros sete candidatos precisam justificar por que o eleitor deveria trocar o atual governo por outra alternativa.
Por isso, o desenho de “sete contra um” não representa, por si só, algo anormal.
O problema para os adversários é outro: uma oportunidade como essa precisa produzir mais do que ataques.
Precisa produzir contraste.
Em alguns momentos, isso ocorreu.
Fábio Trad (PT) cobrou compromissos relacionados aos professores e questionou o Fundersul.
Catan apresentou propostas sobre infraestrutura, mineração e Pantanal.
Lucien Rezende (PSOL) falou sobre agricultura familiar, meio ambiente e habitação.
Delcídio Amaral (PRD) levou ao debate a Rota Bioceânica e a ferrovia.
Renato Gomes (DC) falou sobre impostos, estrutura administrativa e criação de um banco estadual.
Jeferson Bezerra (Agir) discutiu servidores, Segurança Pública e corte de gastos.
Daniel Lemes insistiu na pauta indígena.
Mas boa parte da energia dos adversários continuou sendo consumida pela tentativa de atacar o governador.
Ataques pessoais ocuparam espaço que poderia ser de proposta
O debate saiu diversas vezes do terreno das políticas públicas e entrou no confronto pessoal.
Riedel foi chamado de “mentiroso”.
Daniel Lemes utilizou o termo “genocida”.
Acusações sobre corrupção, propina, operações policiais e relações políticas apareceram repetidamente.
É legítimo que um candidato seja questionado por seu governo.
Também é legítimo que denúncias e investigações sejam discutidas.
Mas existe diferença entre cobrança administrativa e ataque pessoal.
E essa fronteira foi atravessada em diversos momentos.
O resultado foi um debate com muita temperatura e menos profundidade do que alguns dos temas estaduais exigiriam.
O próprio formato impõe limitações
Existe também uma questão estrutural que não pode ser ignorada.
O Midiamax assumiu o compromisso de colocar todos os oito candidatos no mesmo palco.
Do ponto de vista democrático, isso amplia o espaço para candidaturas de diferentes tamanhos e correntes políticas.
Ao mesmo tempo, oito participantes tornam inevitavelmente mais difícil aprofundar qualquer tema.
São muitos candidatos, muitos sorteios e pouco tempo individual.
Segurança Pública, Saúde, infraestrutura, Educação, economia, povos indígenas e meio ambiente poderiam facilmente consumir um debate inteiro cada um.
No formato adotado, tudo precisa caber em minutos.
Assim, o encontro cumpriu bem a função de mostrar diferenças e provocar confronto, mas teve limitações naturais para aprofundar soluções.
Acusação de corrupção produziu o primeiro direito de resposta
O tema mais sensível da noite foi corrupção.
Renato Gomes abriu o debate com críticas à atual administração.
Fábio Trad falou em “corrupção generalizada”.
João Henrique Catan enumerou operações e investigações.
Riedel reagiu.
No primeiro direito de resposta concedido pela comissão jurídica, o governador sustentou que um dos casos utilizados contra sua administração havia sido identificado e encaminhado para investigação por estruturas do próprio Estado.
Essa disputa resumiu bem duas narrativas que atravessaram o debate.
Os adversários apresentaram investigações como evidência de problemas dentro do governo.
Riedel argumentou que prisões, exonerações e apurações também demonstram que os mecanismos de controle funcionaram.
O debate apresentou as duas versões.
Catan e Fábio deixam uma das maiores entrelinhas

Um dos episódios que ganhou vida própria fora das perguntas formais envolveu João Henrique Catan e Fábio Trad.
Durante o debate, um vídeo mostrando os dois conversando muito próximos circulou nas redes sociais.
As imagens não permitem afirmar o conteúdo da conversa nem concluir que havia qualquer combinação política.
Mas chamaram atenção.
A repercussão aumentou porque, em diferentes momentos, Catan e Trad convergiram na artilharia contra Riedel.
Nas considerações finais, Fábio ainda fez referência a Catan como alguém que conhece como bolsonarista e adotou um tom que foi interpretado por parte do público como elogioso ao candidato do Novo.
Politicamente, isso cria uma situação curiosa.
Catan construiu trajetória dentro da direita, hoje se apresenta como opositor de Lula e do PT e disputa o Governo pelo Novo.
Ao mesmo tempo, sua principal mira estadual vem sendo Eduardo Riedel.
Fábio, candidato do PT, também concentrou seus ataques no governador.
Essa convergência não prova aliança.
Mas cria uma entrelinha que certamente será explorada na campanha: onde terminam as diferenças ideológicas nacionais e começam os interesses eleitorais estaduais?
A direita também pode cobrar Catan
Essa discussão tende a ser particularmente sensível para João Henrique.
Seu eleitorado inclui setores conservadores e ele possui histórico político nesse campo.
Ao direcionar ataques sobretudo para Riedel e manter uma relação pública cordial com Fábio Trad, Catan abre espaço para que seus próprios eleitores questionem como ele organiza suas prioridades políticas na disputa estadual.
Isso não significa que um candidato de direita seja obrigado a apoiar Riedel.
Significa apenas que, em uma campanha polarizada, seus movimentos serão interpretados também à luz das alianças nacionais de seus adversários.
Esse é um debate que provavelmente continuará fora do palco.
Daniel fez da pauta indígena sua razão de estar ali
Daniel Lemes teve uma participação muito vinculada à sua principal bandeira.
Falou repetidamente sobre povos indígenas, violência, água potável, infraestrutura e conflitos fundiários.
Foi também o responsável por um dos ataques mais duros contra Riedel.
Quando teve o governador diretamente diante dele, classificou a atual administração como “genocida”.
Riedel respondeu citando aquisição de áreas, habitação e participação do Estado em políticas nas aldeias.
O ponto politicamente interessante é que Daniel não diluiu sua presença em dezenas de assuntos.
Ele insistiu na pauta indígena.
Isso deu clareza ao lugar que pretendia ocupar no debate, mesmo com uma linguagem extremamente dura contra o governador.

Renato ganhou exposição mantendo a mesma linha
Renato Gomes também teve uma noite importante do ponto de vista de exposição.
Menos conhecido por parte do eleitorado estadual, utilizou diferentes participações para repetir uma linha já presente em sua campanha: críticas ao tamanho da máquina pública, impostos, corrupção e estrutura administrativa.
Falou sobre Detran, ICMS, Saúde, cargos comissionados e apresentou a proposta de criação de um banco estadual.
Independentemente da concordância com suas propostas, Renato manteve coerência temática entre suas intervenções
.
Lucien e Fábio travaram outra disputa
A esquerda também protagonizou seu próprio confronto.
Fábio Trad tentou questionar Lucien Rezende sobre coerência política.
Lucien respondeu afirmando que o PT esteve próximo da atual administração até recentemente, enquanto o PSOL não participou do governo.

A discussão avançou para Lula, Dilma Rousseff, eleição de 2022 e trajetórias partidárias.
Depois do debate, Lucien reforçou sua versão de que possui décadas de militância na esquerda e questionou a trajetória de Fábio por partidos situados em outros campos políticos.
Essas são alegações e interpretações dos próprios candidatos sobre suas trajetórias.
O efeito político, porém, foi evidente: Fábio tentou colocar Lucien sob pressão e acabou também tendo sua própria coerência questionada.
O debate que agora muda de palco
Segundo números divulgados pelo Midiamax, mais de 8,5 mil conexões acompanharam a transmissão pelo YouTube e mais de 6,2 mil pelo Facebook.
Além disso, houve transmissão pela televisão e retransmissão por emissoras de rádio e outros veículos, ampliando o alcance para os 79 municípios.
Mas o debate presencial acabou.
Agora começa outro.
É o debate dos cortes.
Das redes sociais.
Das campanhas selecionando seus melhores momentos.
Dos adversários recortando erros.
Dos candidatos explicando falas.
Das páginas políticas produzindo interpretações.
E das campanhas tentando convencer o eleitor de que seu candidato teve a melhor atuação.
Esse segundo debate pode ser tão importante quanto o primeiro.
O que ficou
A grande oportunidade dos sete adversários era colocar Riedel sob pressão diante de todo o Estado.
Isso aconteceu.
O governador foi questionado, atacado e obrigado a defender seu governo.
Mas, com base no que foi apresentado durante o confronto, nenhum dos adversários revelou um fato novo de proporção capaz de, sozinho, reorganizar a campanha.
O debate produziu críticas.
Produziu poucas propostas.
Produziu ataques.
Produziu contradições.
Produziu ainda cenas e falas que devem alimentar a campanha nas redes durante vários dias.
O que não produziu foi uma resposta definitiva.
Talvez justamente porque eleição não se decida em 90 minutos de debate.
A partir de agora, serão os eleitores, as pesquisas posteriores e a repercussão pública que mostrarão quais falas realmente sobreviveram à noite de segunda-feira.