Ex-primeira-dama procurou o presidente nacional do Progressistas para defender a senadora como vice, mas Ciro reafirmou a decisão da federação de não apoiar oficialmente nenhum candidato à Presidência.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro entrou pessoalmente nas articulações para tentar viabilizar a indicação da senadora Tereza Cristina como candidata a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro.
Michelle telefonou para o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do Progressistas, e pediu apoio à composição entre Flávio e Tereza.
A ligação foi confirmada pela assessoria da ex-primeira-dama nesta terça-feira, 4 de agosto.
Apesar da intervenção de Michelle, Ciro não alterou sua posição. O presidente do PP negou apoio à indicação e defendeu a manutenção da neutralidade estabelecida pela federação União Progressista na disputa presidencial.
A tentativa representa mais um capítulo da mobilização promovida por aliados da família Bolsonaro, empresários e representantes do agronegócio para colocar Tereza na chapa.
Também evidencia que, mesmo depois de o PP divulgar sua posição oficial, o nome da senadora continuou sendo tratado como prioridade por integrantes do campo político de Flávio.
Michelle tenta destravar composição
Michelle procurou Ciro em busca de uma saída para o impasse partidário.
Tereza já havia aceitado conversar sobre a Vice-Presidência e foi apontada por Flávio como a opção preferencial para o posto. O próprio candidato declarou que o convite havia sido feito e aceito.
A dificuldade passou a ser a posição do Progressistas.
Após consultar seus diretórios estaduais, a cúpula do partido decidiu manter-se neutra na eleição presidencial. A federação formada pelo PP e pelo União Brasil também não oficializou apoio a Flávio.
Na ligação, Michelle tentou convencer Ciro a rever essa decisão ou, ao menos, permitir que Tereza integrasse a chapa sem obrigar todos os diretórios partidários a acompanharem o candidato do PL.
Ciro, entretanto, reafirmou a neutralidade.
Movimento sinaliza reaproximação com Flávio
A iniciativa de Michelle possui significado político que ultrapassa a escolha do vice.
A ex-primeira-dama e Flávio passaram por meses de tensões e declarações públicas que expuseram diferenças dentro do grupo ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
O telefonema a Ciro demonstra que Michelle decidiu participar da construção da candidatura do enteado e atuar diretamente para fortalecer sua chapa.
Outro sinal dessa reaproximação ocorreu durante a Convenção Nacional do PL, realizada no domingo, 2 de agosto.
Diego Torres, irmão de Michelle, fez a leitura de uma carta na qual foi mencionada a intenção de “caminhar juntos e a passos largos” ao lado de Flávio.
A tentativa de liberar Tereza transforma essa disposição em ação política concreta.
Tereza passou de resistente a “vice dos sonhos”
Tereza havia recusado inicialmente a possibilidade de concorrer à Vice-Presidência.
Seu projeto político passava pela permanência no Senado e por uma eventual candidatura à presidência da Casa em 2027.
As articulações avançaram, entretanto, e a senadora demonstrou disposição para formar a chapa com Flávio.
Durante agenda em Campo Grande, o candidato do PL chegou a definir Tereza como a sua “vice dos sonhos”.
A senadora reúne atributos considerados estratégicos pela campanha:
foi ministra da Agricultura no governo Jair Bolsonaro;
possui ligação direta com o agronegócio;
mantém interlocução com diferentes setores políticos;
foi eleita com votação recorde em Mato Grosso do Sul;
e acrescentaria experiência administrativa e presença feminina à chapa.
Tereza recebeu 829.149 votos em 2022, tornando-se a senadora mais votada da história de Mato Grosso do Sul.
Senadora admite que possibilidade diminuiu
Apesar das conversas e do interesse demonstrado por Flávio, Tereza passou a reconhecer publicamente que o tempo para uma composição estava diminuindo.
Na segunda-feira, a senadora afirmou respeitar o posicionamento de seu partido e observou que, com a aproximação do encerramento das convenções e do registro das candidaturas, as chances de integrar a chapa haviam diminuído “bastante”.
Mesmo diante do impasse, Tereza declarou que continuará ajudando Flávio durante a campanha.
A posição mostra que a aliança política deverá permanecer, mesmo que a senadora não seja escolhida para a Vice-Presidência.
Exclusivo: por que Ciro não cedeu
A justificativa oficial do Progressistas é que a maioria dos diretórios estaduais preferiu manter a neutralidade.
A legenda reúne candidatos com situações eleitorais muito diferentes pelo país. Enquanto alguns diretórios podem se beneficiar de uma aproximação com Flávio, outros atuam em estados onde Lula e o PT possuem maior força.
Conforme apuração exclusiva do O Contribuinte, entretanto, a posição também estaria diretamente relacionada ao projeto de reeleição de Ciro Nogueira no Piauí.
Interlocutores que acompanham as articulações afirmam que o presidente do PP teria trabalhado por um entendimento político para evitar que sua candidatura ao Senado se tornasse alvo prioritário do PT no estado.
O suposto arranjo envolveria a manutenção da neutralidade nacional do Progressistas e uma redução do confronto contra Ciro no Piauí.
Reeleição no Piauí é prioridade
Ciro precisa renovar seu mandato em um estado no qual Lula e o PT possuem grande força eleitoral.
Uma adesão aberta a Flávio poderia transformá-lo em uma das principais representações do bolsonarismo na disputa estadual e aumentar a mobilização de seus adversários.
A neutralidade permite que o presidente do PP mantenha diálogo com diferentes campos políticos e reduza sua exposição a uma campanha nacional polarizada.
Nos bastidores, fontes avaliam que a preservação da candidatura de Ciro pesou mais do que a possibilidade de o Progressistas ocupar a Vice-Presidência com Tereza.
Investigação também aumenta importância do mandato
A reeleição ganhou importância adicional porque Ciro enfrenta uma investigação da Polícia Federal relacionada ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro.
O senador foi alvo de uma fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
A PF apura suspeitas relacionadas a:
pagamentos mensais que teriam variado de R$ 300 mil a R$ 500 mil;
repasses que poderiam ter alcançado aproximadamente R$ 6 milhões;
viagens internacionais e hospedagens de luxo;
restaurantes e utilização de aeronaves particulares;
uma participação societária com suposto deságio milionário;
e atuação parlamentar de interesse do Banco Master.
A defesa de Ciro repudia qualquer acusação de ilegalidade, afirma que o senador não participou de atividades ilícitas e diz que ele está à disposição da Justiça.
Ciro não foi condenado e possui direito à presunção de inocência.
Nem Michelle conseguiu mudar a posição
A negativa apresentada a Michelle reforça a disposição de Ciro de sustentar a neutralidade, mesmo diante da pressão das principais lideranças do grupo de Jair Bolsonaro.
Antes da ex-primeira-dama, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, empresários paulistas e representantes do agronegócio já vinham tentando convencer a cúpula do Progressistas.
O governador Eduardo Riedel também declarou que brigaria até o último momento para viabilizar o nome de Tereza.
Até agora, nenhuma dessas iniciativas foi suficiente para alterar a decisão comandada por Ciro.
Flávio se prepara para anunciar outro nome
A tentativa de Michelle ocorreu às vésperas do anúncio oficial do candidato a vice.
Flávio marcou uma entrevista coletiva para as 11h desta quarta-feira, 5 de agosto, em Brasília.
Com a resistência do Progressistas, cresceu a possibilidade de o candidato escolher um nome do próprio PL ou buscar uma alternativa em outra legenda neutra na disputa nacional.
A ligação de Michelle demonstra que a chapa com Tereza foi buscada até os momentos finais.
Ciro, entretanto, permaneceu irredutível.