Enquanto Lula voltou ao berço do sindicalismo e prometeu um Ministério da Segurança Pública, Flávio ocupou Copacabana e defendeu redução da maioridade penal, penas mais duras e enquadramento de facções como terroristas.
O primeiro domingo oficial da campanha presidencial de 2026 colocou frente a frente duas estratégias bastante diferentes.
De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolheu São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, para iniciar sua tentativa de conquistar mais um mandato.
Do outro, Flávio Bolsonaro levou sua campanha para a Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, um dos principais palcos das manifestações ligadas ao bolsonarismo.
Os dois escolheram locais carregados de simbolismo.
E os dois colocaram a segurança pública entre os principais assuntos do primeiro discurso.
Mas fizeram isso por caminhos diferentes.
Flávio começa em Copacabana
Flávio Bolsonaro subiu ao trio elétrico na Avenida Atlântica acompanhado do candidato a vice Alfredo Gaspar e de aliados do PL no Rio.
O senador iniciou o discurso fazendo referência direta ao legado de Jair Bolsonaro.
“Sei que vocês estão olhando para mim e lembrando de uma pessoa. Sei que me pareço com ele, mas é difícil comparar o filho do Pelé com o Pelé”, declarou.

A fala sintetizou um dos desafios de sua candidatura: preservar o eleitorado do pai e, ao mesmo tempo, construir uma identidade própria.
“O Brasil vai vencer”
A frase escolhida como slogan apareceu repetidamente durante o ato.
Flávio utilizou “O Brasil vai vencer” para apresentar compromissos nas áreas de segurança, economia e combate à corrupção.
Prometeu cortes de despesas e afirmou que faria um “tesouraço” nas contas públicas.
Também responsabilizou o governo Lula pelo endividamento das famílias e pela perda do poder de compra.
Segurança domina discurso de Flávio
Foi na segurança pública, porém, que o candidato apresentou as propostas mais duras.

Flávio afirmou que pretende:
classificar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações terroristas;
reduzir a maioridade penal;
ampliar penas para determinados crimes;
estabelecer pena mínima mais elevada para roubo de celulares;
endurecer punições para agressores de mulheres;
e defender castração química para condenados por estupro.
Em uma das falas mais fortes do ato, declarou:
“A gente vai fazer um governo com responsabilidade, a gente vai meter o cacete nos vagabundos.”
As propostas dependeriam, em diferentes graus, de alterações legislativas e constitucionais para serem implementadas.
Lula retorna às origens
Enquanto Flávio utilizava Copacabana, Lula escolheu o Estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo.
O local está diretamente associado à trajetória política do petista.

Foi naquela região que Lula se projetou nacionalmente como líder sindical durante as grandes greves do final dos anos 1970 e início dos anos 1980.
A campanha explorou intensamente essa simbologia.
O ato teve como um dos motes “Onde tudo começou”.
Nostalgia e trajetória
Lula fez um discurso fortemente baseado em sua história pessoal.
Lembrou da mãe, Dona Lindu, falou sobre sua trajetória como metalúrgico e sindicalista e citou personagens ligados à formação histórica do PT.
Também fez diversas referências religiosas.
O petista agradeceu a Deus em diferentes momentos e associou sua trajetória política às oportunidades recebidas ao longo da vida.
Lula promete Ministério da Segurança Pública
A segurança também teve destaque no discurso presidencial.
Lula voltou a defender a criação de uma estrutura federal específica para a área.
Segundo o presidente, caso a PEC da Segurança Pública seja aprovada pelo Congresso, pretende criar um Ministério da Segurança Pública.
A proposta seria dividir responsabilidades entre União, estados e municípios no enfrentamento ao crime organizado.
“Se a PEC for aprovada, eu vou criar o Ministério da Segurança Pública para dividir a responsabilidade com estados e municípios”, afirmou.

Líderes das facções na mira
Lula também prometeu atacar a estrutura financeira e as lideranças do crime organizado.
Segundo ele, o combate não deve se limitar às comunidades mais pobres.
“É fácil matar o bandido numa favela. Agora, o cara que manda está no apartamento de cobertura. O cara que manda está morando no condomínio”, disse.
O presidente afirmou que pretende atingir os integrantes que financiam e comandam as organizações criminosas.
Educação como política de segurança
Outra diferença apareceu na abordagem preventiva.
Lula defendeu investimentos em educação como instrumento de redução da criminalidade.
“Investir em educação é mais barato que cadeia”, declarou.
A proposta petista procura combinar repressão financeira às organizações criminosas com políticas sociais voltadas à prevenção.
Dois discursos para o mesmo problema
O primeiro dia deixou claro que segurança pública poderá ser um dos principais campos de disputa entre Lula e Flávio.
Flávio apresentou propostas centradas em endurecimento penal, redução da maioridade e enquadramento de organizações criminosas como terroristas.
Lula apostou em maior coordenação federal, investigação financeira das facções e investimentos em educação.
As duas campanhas, portanto, reconhecem o peso eleitoral do tema, mas propõem respostas distintas.
Lula faz aceno às mulheres
O evento petista também teve um esforço explícito para aumentar a presença feminina no palco.
Janja participou dos discursos, falou sobre liderança feminina e combate à violência contra a mulher e cantou um jingle de campanha ao lado do cantor Kleber Lucas.
O movimento ocorre depois de críticas à baixa participação feminina nos discursos da convenção anterior do PT.
Benedita da Silva também participou do início das falas.
Flávio estreia com Alfredo Gaspar
Em Copacabana, a novidade foi a primeira aparição oficial da chapa Flávio–Alfredo em campanha.
Alfredo Gaspar chegou à Vice-Presidência depois de o Progressistas optar pela neutralidade e impedir o avanço da composição com Tereza Cristina.
O ex-promotor e ex-secretário de Segurança Pública reforça justamente uma das principais bandeiras escolhidas por Flávio: o combate ao crime.
Economia também entra no embate
Flávio utilizou exemplos do cotidiano para falar sobre inflação e perda do poder de compra.
Citou famílias que chegam ao caixa do supermercado e precisam devolver produtos e mencionou redução do tamanho de embalagens.
Ao final, atribuiu responsabilidade diretamente a Lula.
O petista, por sua vez, utilizou o ato principalmente para falar de sua trajetória, segurança pública, soberania e continuidade do governo.
Dois palcos, duas identidades
O primeiro domingo de campanha funcionou como uma apresentação pública das narrativas que deverão acompanhar os dois candidatos.
Lula voltou ao lugar onde sua história política começou.
Flávio ocupou um dos lugares mais associados ao movimento construído por Jair Bolsonaro.
Um utilizou o passado para justificar a continuidade.
O outro utilizou o legado familiar para tentar construir uma nova etapa.
A partir de agora, porém, os discursos precisarão ser testados fora de seus redutos tradicionais e diante de um eleitorado que decidirá uma eleição nacional.