Informações de bastidores apontam conversa entre Lula e Edson Fachin, mas o presidente ainda não prestou esclarecimentos diretamente à população
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou, nesta quinta-feira, 3 de setembro, no segundo dia da maior crise enfrentada pelo Supremo Tribunal Federal nos últimos anos sem apresentar publicamente uma posição clara sobre as revelações envolvendo Alexandre de Moraes, Daniel Vorcaro, Paulo Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Desde que o ministro André Mendonça retirou o sigilo dos documentos apresentados pela PF, o país tomou conhecimento de mensagens, contratos, pagamentos, reuniões e pedidos de intervenção que alcançam algumas das autoridades mais poderosas da República.
Mesmo assim, até a manhã desta quinta-feira, Lula não havia feito pronunciamento público, concedido entrevista ou divulgado nota oficial para explicar como o governo pretende agir diante das informações que atingem diretamente o procurador-geral da República indicado por ele e o atual comandante da Polícia Federal.
Informações de bastidores divulgadas pela imprensa apontam que Lula conversou com o presidente do STF, Edson Fachin, e que auxiliares avaliam adotar o discurso de que “ninguém está acima da lei”. A movimentação reservada, porém, ainda não havia se transformado em um posicionamento público do presidente dirigido à população.
É essa a diferença central: Lula pode estar tratando da crise internamente, mas permanece publicamente em silêncio.
Dois nomes ligados ao governo aparecem no caso
O silêncio presidencial chama ainda mais atenção porque as revelações não estão restritas à relação entre Moraes e Vorcaro.
O relatório da Polícia Federal registra mensagens nas quais o ex-controlador do Banco Master menciona “Paulo” e “Andrei”. Os investigadores relacionaram as referências a Paulo Gonet, procurador-geral da República, e Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal.
Em uma das mensagens atribuídas a Vorcaro, o empresário pergunta a Moraes:
“Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso.”
Em outra comunicação, enviada na véspera da prisão do banqueiro, Vorcaro pede que Moraes tente sensibilizar “Andrei” para atrasar uma medida por mais uma semana:
“Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível.”
As mensagens não comprovam, por si mesmas, que Moraes tenha atendido aos pedidos, procurado as autoridades citadas ou interferido efetivamente nas investigações. Elas demonstram, entretanto, que Vorcaro acreditava poder recorrer ao ministro para tentar alcançar a cúpula da PGR e da Polícia Federal.
Esse cenário cobra uma resposta do presidente da República.
Gonet foi escolhido por Lula
Paulo Gonet foi escolhido por Lula para ocupar o cargo de procurador-geral da República. Mesmo não sendo o nome mais votado na lista elaborada pela categoria, recebeu a indicação presidencial e foi aprovado pelo Senado.
Agora, Gonet aparece mencionado nas mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro e atua diretamente no processo em que esse material é analisado.
Na terça-feira, 1º, o procurador-geral pediu a nulidade do relatório produzido pela Polícia Federal. Gonet argumentou que André Mendonça teria ultrapassado suas atribuições ao determinar uma apuração envolvendo autoridades com foro privilegiado, entre elas um ministro do STF.
A situação provocou questionamentos porque o chefe da PGR pediu a anulação justamente do documento no qual seu nome aparece.
A Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas passou a defender que Gonet também se afaste cautelarmente até que os fatos sejam esclarecidos. Uma reclamação disciplinar apresentada ao Conselho Nacional do Ministério Público pede, ainda, seu impedimento para atuar no Caso Master.
Apesar disso, Lula ainda não explicou se mantém confiança no procurador-geral escolhido por seu governo, se considera que Gonet possui condições de continuar no caso ou se defende uma apuração independente sobre as citações.
Andrei Rodrigues comanda a PF no governo Lula
Andrei Rodrigues também ocupa uma posição diretamente ligada ao Executivo. Escolhido para comandar a Polícia Federal no início do governo Lula, ele permanece como diretor-geral da corporação.
Além de ser citado nas mensagens de Vorcaro, Andrei passou a ocupar o centro de outra acusação grave.
Daniel Vorcaro afirmou em depoimento ao gabinete de André Mendonça que teria sofrido tortura psicológica, maus-tratos e ameaças veladas durante o período em que esteve preso. Segundo informações divulgadas pela imprensa, o ex-banqueiro relatou que as intimidações buscariam impedir que ele apresentasse fatos relacionados à Polícia Federal em uma eventual delação premiada.
Vorcaro teria citado nominalmente Andrei Rodrigues. As acusações ainda não foram comprovadas e precisam ser submetidas a uma investigação independente, com contraditório e direito de defesa.
O gabinete de Mendonça confirmou que o depoimento ocorreu por solicitação urgente da defesa e contou com a presença de um representante do Ministério Público Federal. A Polícia Federal não participou da oitiva, justamente diante da natureza das acusações apresentadas pelo preso.
Mesmo diante da gravidade desse novo episódio, Lula não havia defendido publicamente uma apuração, cobrado esclarecimentos de Andrei ou declarado se mantém confiança irrestrita no diretor-geral.
Fachin reconheceu a gravidade
Enquanto o presidente da República se manteve publicamente em silêncio, Edson Fachin reconheceu a gravidade do momento enfrentado pelo Supremo.
O presidente da Corte declarou que os fatos exigem encaminhamento institucional e anunciou que adotará, nos próximos dias, as medidas consideradas cabíveis e necessárias.
“A elevada autoridade do cargo não confere privilégios, mas impõe deveres, limites e responsabilidades”, afirmou Fachin.
O ministro também destacou que cabe à Presidência do STF proteger a integridade da instituição e impedir que suspeitas envolvendo um integrante contaminem a credibilidade de toda a Corte. Segundo a Folha, Fachin classificou o momento como de “especial gravidade”.
André Mendonça, por sua vez, determinou a retirada do sigilo e defendeu que os elementos sejam analisados pelo plenário, em sessão pública, presencial e transparente.
Advocacia criminal pediu afastamento de Moraes
A Abracrim também se manifestou. A entidade nacional pediu o afastamento cautelar de Alexandre de Moraes até a completa elucidação dos fatos.
Para a associação, a medida é necessária para assegurar a isenção das apurações, impedir ingerências indevidas e preservar a respeitabilidade das instituições republicanas.
A entidade mencionou a gravidade dos diálogos, das minutas contratuais, dos fluxos financeiros e das tratativas identificadas no material da Polícia Federal. Também ressaltou que Moraes deve ter assegurados o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa.
Ou seja, enquanto ministros, juristas, entidades da advocacia, parlamentares e candidatos se posicionam, o presidente da República evita apresentar sua opinião diretamente aos brasileiros.
Revelações se acumulam
O silêncio ocorre diante de uma sucessão de informações que não pode ser tratada como um episódio menor.
Metadados encontrados em documentos apreendidos pela Polícia Federal atribuíram ao perfil “Ministro Alexandre de Moraes” a edição de versões do contrato firmado entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do magistrado.
O acordo previa pagamentos que poderiam alcançar R$ 131,2 milhões. O próprio escritório confirmou que Moraes foi consultado e teve acesso ao documento, sustentando que sua participação se limitou à análise de eventuais impedimentos legais.
Também foram reveladas mensagens nas quais Vorcaro demonstra gratidão a Moraes, pede ajuda para tentar conter medidas contra o banco e pergunta, dois dias antes de ser preso, se deveria deixar o país.
Registros analisados pela PF indicam ainda sucessivos encontros entre os dois. Surgiram informações sobre cartões de crédito com limites elevados destinados aos filhos de Moraes, negociações envolvendo cotas de aeronaves e pagamentos tratados internamente como prioritários.
Nenhum desses elementos, isoladamente, representa condenação. Em conjunto, contudo, eles exigem uma investigação independente e respostas das autoridades citadas.
Bastidores não substituem resposta pública
A imprensa informou nesta quinta-feira que Lula teria conversado com Fachin e começado a se afastar politicamente de Moraes. Aliados do presidente discutem a adoção do discurso de que ninguém está acima da lei.
A conversa mostra que o Planalto acompanha a crise. Mas uma articulação reservada não equivale a uma manifestação oficial.
Lula ainda precisa responder se defende a abertura de uma investigação formal contra Moraes, se considera adequado o afastamento cautelar, se mantém confiança em Paulo Gonet e Andrei Rodrigues e se entende que ambos podem continuar participando de procedimentos nos quais seus nomes aparecem.
Também precisa explicar se o governo garantirá plena autonomia aos investigadores, inclusive quando as apurações alcançarem autoridades próximas ao Palácio do Planalto.
O peso político do silêncio
Lula costuma se apresentar como defensor das instituições e do Estado Democrático de Direito. Essa defesa, porém, não pode ser seletiva nem depender da identidade política das autoridades envolvidas.
Se os fatos atingissem adversários do governo, dificilmente o presidente permaneceria por tanto tempo sem uma manifestação pública. É justamente essa diferença de tratamento que torna seu silêncio politicamente relevante.
O silêncio não constitui prova de envolvimento, concordância ou responsabilidade de Lula. Também não significa necessariamente que o governo esteja tentando interferir no caso.
Mas, diante da dimensão institucional da crise, a ausência de uma palavra pública produz consequências. Ela alimenta dúvidas sobre a disposição do presidente de cobrar transparência de autoridades com as quais mantém relação política e institucional.
No segundo dia após a divulgação das novas revelações, o país já ouviu o presidente do Supremo, o relator do caso, parlamentares, candidatos, juristas e entidades da advocacia.
Até a manhã desta quinta-feira, ainda faltava ouvir o presidente da República.
O Contribuinte continuará acompanhando as manifestações do Palácio do Planalto. Caso Lula ou o governo federal se pronunciem, a reportagem será atualizada.