Mensagens reproduzidas pelo Gaeco mostram que Ed Carlo convidava Gabriel Taquino e Francisco Anízio para reuniões dentro da Coordenadoria de Regulação enquanto o Ministério Público aponta um suposto esquema de corrupção que teria movimentado cerca de R$ 27 milhões.
As investigações da Operação Gutenberg revelaram um detalhe que chamou a atenção do Ministério Público: parte das reuniões entre investigados do suposto esquema que teria movimentado cerca de R$ 27 milhões em contratos públicos era marcada dentro da própria Coordenadoria de Regulação da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul.
As mensagens analisadas pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) mostram que Ed Carlo Britto Burgatt, então chefe da Regulação Estadual, utilizava o órgão público como local de encontro com Gabriel Taquino de Paula e Francisco Anízio dos Santos, dois dos investigados na Operação Gutenberg.
Segundo o Ministério Público, as conversas fazem parte do conjunto de provas reunidas para apurar um suposto esquema de corrupção, organização criminosa e fraude em contratos públicos de livros paradidáticos.
“Podemos reunir na Regulação”
Um dos diálogos reproduzidos no relatório ocorreu em 16 de junho de 2023.
Na conversa, Ed Carlo convida Gabriel Taquino para um encontro e define, sem qualquer hesitação, o local da reunião:
“Às 15h30 podemos reunir na Regulação eu, você, Anízio e o Júlio.”
Gabriel responde apenas:
“Sim.”
Logo em seguida, Ed Carlo complementa:
“Vamos alinhar umas coisas…”
Para o Gaeco, a conversa demonstra que a própria estrutura da Coordenadoria de Regulação era utilizada como ponto de encontro entre integrantes do núcleo investigado.
Novas reuniões no mesmo local
O relatório mostra que esse não foi um episódio isolado.
Dez dias depois, Gabriel volta a procurar Ed Carlo para marcar outro encontro.
Na mensagem, informa:
“Eu e o Anísio queremos falar com o senhor.”
Questionado sobre o assunto, responde:
“As emendas.”
Em seguida acrescenta:
“É sistema.”
Ed Carlo responde:
“Espero vocês.”
As mensagens indicam que o encontro também ocorreria na Regulação da Saúde.
O mesmo grupo aparece repetidamente
Ao longo do relatório, Gabriel Taquino, Francisco Anízio e Ed Carlo aparecem juntos em diferentes conversas.
Os diálogos tratam de agendas, visitas a municípios, reuniões com prefeitos, contatos políticos e alinhamentos internos, sempre relacionados às atividades que o Ministério Público investiga no âmbito da Operação Gutenberg.
Na avaliação dos investigadores, a repetição desses encontros demonstra que os três atuavam de forma coordenada durante o período investigado.
Um órgão estratégico da Saúde
À época das mensagens, Ed Carlo ocupava um dos cargos mais sensíveis da Secretaria de Estado de Saúde.
A Coordenadoria de Regulação é responsável por gerenciar o acesso da população a leitos hospitalares, exames, consultas e procedimentos especializados pelo SUS.
Foi justamente nesse ambiente, destinado à administração da fila da saúde pública, que, segundo o relatório do Gaeco, ocorreram reuniões entre investigados que hoje respondem às apurações da Operação Gutenberg.
O que diz a investigação
O Ministério Público apura se o grupo utilizava sua rede de contatos para ampliar contratos públicos da Editora Avante junto a municípios de Mato Grosso do Sul.
Segundo o relatório, a investigação envolve suspeitas de organização criminosa, corrupção ativa, corrupção passiva e peculato em contratos que, conforme estimativa do Gaeco, somam aproximadamente R$ 27 milhões.
As conclusões do relatório representam a linha investigativa do Ministério Público e ainda serão submetidas ao contraditório, à ampla defesa e à análise do Poder Judiciário.